Uma entrevista com Ellen Feldman, autora de “Paris é para sempre”

Equipe - Publicado na categoria Entrevistas em 14/05/2021




Ellen Feldman

Ellen Feldman respondeu algumas perguntas sobre o processo de escrita de “Paris é para sempre”, título publicado pela Editora Vestígio. A autora revelou detalhes sobre a construção dos personagens e explicou outros fatores importantes para a contextualização do romance.

Leia a entrevista na íntegra:


Muitos dos seus livros anteriores lidam com personagens reais, como Anne Frank. De onde surgiram Charlotte e seu dilema moral?

Charlotte surgiu do seu próprio dilema moral. A maioria dos livros sobre mulheres da Segunda Guerra Mundial realçam aquelas que demonstraram uma coragem invejável ou difícil de imaginar, mulheres que espionaram para os Aliados, trabalharam na Resistência, ou arriscaram a vida encobrindo suas ações. Fiquei impressionada com essas figuras. Mas enquanto eu lia esses relatos, fiquei imaginando o que as mulheres que não foram abençoadas, ou amaldiçoadas, com tal coragem fizeram, o que eu faria se me defrontasse com escolhas entre o que é convencionalmente pensado como certo e errado, moral e imoral? Suponho que esta seja a eterna questão do espectador. Charlotte é, se não minha resposta a isso, minha exploração disso.

Sim, mas como foi que Charlotte, a personagem singular do romance, criou vida?

Todos os meus personagens, mesmo as figuras históricas, ganham vida da mesma maneira. Porque, logicamente, elas não são as verdadeiras figuras históricas, apenas meu entendimento e minha representação delas. Quando começo um livro, tenho em mente um personagem vago, definido, sobretudo, por nome e circunstâncias, a história individual, e para onde eu quero que ele ou ela vá, embora este último aspecto raramente seja aonde aquele personagem acaba indo. Só quando me aprofundo na história é que o personagem começa a assumir uma realidade própria. Com frequência, as pessoas na página recusam-se a fazer coisas que eu pretendia que fizessem. Elas deixam claro, conforme a escrita prossegue, que uma ação ou emoção em particular não combina com o que elas se tornaram.

Você lista algumas das fontes em que se baseou na pesquisa para “Paris é para sempre”. Você tem algum método em particular para mergulhar no passado?

Começo lendo histórias do período em geral, depois vou para memórias pessoais, revistas e jornais, e material de arquivo, se houver. Adoro me perder em bibliotecas, e adoro a excitação de me deparar com algo pouco conhecido, ou mesmo até então desconhecido, como uma carta, uma anotação em diário, ou um pedaço de papel que dê vida ao
personagem ou ao período. De maneira mais geral, até os anúncios em jornais e revistas antigos podem te soltar do presente e te levar de volta para outra época. Uma vez, enquanto lia uma velha revista, dei com um anúncio de um suéter que achei que seria um presente de Natal perfeito para o meu marido. Só quando comecei a anotar a informação, foi que percebi que era uma revista de 1945, a loja não existia mais e, provavelmente, o suéter que eu estava tão louca para comprar tinha sido comido por traças décadas atrás.

Algumas épocas são mais difíceis de pesquisar do que outras?

Para alguns aspectos de Paris é para sempre, quase não tive que fazer pesquisa. Vários anos atrás, trabalhei em uma editora da cidade de Nova York. Embora naquela época o negócio tivesse mudado consideravelmente em relação à década de 1950, a natureza humana permanecia a mesma.

A pesquisa chega a mudar sua concepção original do livro?

Sem dúvida. Em Paris é para sempre, comecei pensando no que Charlotte faria em certas situações, e em como viveria com as repercussões dos seus atos pelo resto da vida. Em outras palavras, estava interessada na culpa do sobrevivente, embora, na época, não usasse o termo comigo mesma porque acho que começar um romance com um conceito filosófico ou psicológico pretensioso é uma sentença de morte para uma boa história. A biblioteca onde realizo a maior parte do meu trabalho tem acesso livre às estantes. Um dia, quando eu procurava outro livro sobre a França durante a Ocupação, deparei-me com duas obras chamadas Hitler’s Jewish Soldiers [“Os
soldados judeus de Hitler”] e Lives of Hitler’s Jewish Soldiers [“A vida dos soldados judeus de Hitler”], por Bryan Mark Rigg. Fiquei tão perplexa que me sentei no chão das estantes de história, e comecei a ler. O que encontrei ali não apenas alterava, como aprofundava e expandia a história que eu me propunha a contar. De repente, eu tinha os primórdios de um personagem com o qual nunca tinha sonhado, mais culpa de sobrevivente do que tinha previsto, e o problema adicional de identidade, e como a entendemos.

Em que ponto da pesquisa você começa a escrever? Onde você trabalha? Quando você trabalha?

Depois de certo tempo, e isso difere a cada livro, não consigo manter os personagens e as ideias guardados por mais tempo. Eles gritam para sair da minha cabeça e irem para a página. É então – e escutei muitos escritores usarem esta imagem – que deixo a sala de pesquisa, fecho a porta atrás de mim, e entro na sala da escrita. Fechar a porta é essencial porque na ficção os personagens e a trama sempre excedem a história real, e você não quer que os personagens se percam na trama. Mas existe uma ressalva. Às vezes, eu preciso voltar para a pesquisa porque, antes de começar a escrever, frequentemente não faço ideia do que estou procurando quando leio. Às vezes, um fato disperso que me pareceu irrelevante à primeira vista inspira uma cena ou faz um personagem tomar um rumo diferente. Assim, embora os dois processos sejam separados, eles estão interligados. Redijo o texto de fato nas salas de escritores de duas bibliotecas: The New York Society Library, uma biblioteca financiada por assinaturas que fica no Upper East Side de Manhattan, e é a biblioteca mais antiga da cidade de Nova York, e na New York Public Library. Ambas têm oásis silenciosos para escritores, aos quais tenho a sorte de ter acesso. A caminhada matinal até a biblioteca me concede tempo para pensar sobre o que vou escrever naquele dia, bem como uma corrida logo cedo ao redor do Reservoir, no Central Park. A caminhada para casa no final da tarde me concede tempo para relaxar ou, com muita frequência, a percepção repentina de que a cena que passei o dia escrevendo simplesmente não funciona e precisa ser completamente repensada ou eliminada.

Atualmente, você está trabalhando em outro livro?

Eu sempre estou trabalhando em outro livro. A ideia para o trabalho atual que venho desenvolvendo derivou de duas frases sobre um personagem com que me deparei na minha pesquisa de Paris é para sempre, mas não posso dizer mais do que isto, por enquanto.

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Tags:  editora vestígio,  Paris é para sempre,  Romances Históricos


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