O que é o trabalho? Entenda no livro O precariado

Guy Standing - Publicado na categoria Resenhas & Trechos em 27/04/2018


Nos anos 1970, economistas neoliberais passaram a defender a ideia de que o crescimento e o desenvolvimento dependiam da competitividade do mercado. A partir daí, a maximização da concorrência e a licença para que os princípios de mercado de trabalho permeassem todos os aspectos da vida moldaram uma nova classe social mundial, emergente e ainda em formação: o “precariado”. "O precariado: A nova classe perigosa":https://grupoautentica.com.br/autentica/livros/o-precariado-a-nova-classe-perigosa/977 é uma obra necessária e urgente, que apresenta as características desse novo grupo e oferece aos leitores uma sólida reflexão política e socioeconômica que compreende a nova ordem social global e responde aos anseios dos indivíduos dessa nova classe, que não se sentem ancorados em uma vida de garantias trabalhistas, não possuem empregos permanentes e muitas vezes nem sequer sabem que integram a classe dos precariados.

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Capítulo 5 – Tarefa, trabalho e o arrocho do tempo

Não podemos compreender a crise da Transformação Global e a pressão que se desenvolve sobre o precariado sem entender o que a sociedade de mercado global está fazendo com a nossa percepção de tempo.

Historicamente, cada sistema de produção tinha como estrutura norteadora um conceito específico de tempo. Na sociedade agrária, a tarefa e o trabalho eram adaptados ao ritmo das estações e das condições climáticas. Qualquer ideia de um dia de trabalho normal de 10 ou 8 horas teria sido absurda. Não havia sentido em tentar arar a terra ou fazer a colheita sob uma chuva torrencial. O tempo podia não esperar pelo homem, mas o homem respeitava seus ritmos e variações espasmódicas. Isso ainda é o que acontece em grande parte do mundo.

No entanto, com a industrialização veio a regulamentação do tempo. O proletariado nascente foi disciplinado pelo relógio, como o historiador E. P. Thompson (1967) registrou de maneira tão elegante. Surgiu uma sociedade de mercado industrial nacional baseada na imposição do respeito ao tempo, ao calendário e ao relógio. Na literatura, essa maravilha foi capturada por Júlio Verne em A volta ao mundo em oitenta dias. A temporização presente nesse livro e a emoção que ele despertou entre os vitorianos nos anos 1870 não foram uma coincidência. Cinquenta anos antes, ele teria parecido um absurdo; cinquenta anos depois, não teria estimulado a imaginação por ser insuficientemente extravagante.

Com a transição das sociedades rurais para os mercados nacionais de base industrial, e desta para o sistema de mercado global voltado para os serviços, ocorreram duas mudanças no tempo. A primeira foi o crescente desrespeito pelo relógio biológico de 24 horas. No século 178 XIV, por exemplo, diferentes partes da Inglaterra funcionavam com variantes locais de tempo, adaptadas às ideias tradicionais da agricultura local. Passaram-se várias gerações antes que o Estado pudesse impor um padrão nacional. A falta de padronização ainda existe entre nós, visto que temos uma sociedade e uma economia globais, mas múltiplos fusos horários. Mao forçou toda a China a adotar o fuso de Pequim, como uma forma de construir o Estado. Outros países estão caminhando na mesma direção em nome da eficiência dos negócios. Na Rússia, o governo está planejando reduzir o número de fusos horários de onze para cinco.

Os fusos horários funcionam porque estamos naturalmente habituados à luz do dia e socialmente habituados ao conceito de dia de trabalho. O ritmo biológico está em harmonia com a luz do dia e a escuridão, quando o ser humano dorme e relaxa, recuperando-se das atividades do dia. Porém, a economia global não tem nenhum respeito pela psicologia humana. O mercado global é uma máquina que funciona no esquema 24/7; nunca dorme ou relaxa; não tem nenhum respeito pela luz do dia ou escuridão, pela noite e pelo dia. Horários predeterminados são um estorvo, um rigor desnecessário, uma barreira ao comércio e ao totem da época – a competitividade – e são contrárias ao ditame da flexibilidade. Se um país, empresa ou indivíduo não se adapta à cultura do tempo 24/7, haverá um preço a pagar. Não se trata mais de um caso de “Deus ajuda quem cedo madruga”; o ajudado, nesse caso, é o insone.

A segunda mudança diz respeito à forma como tratamos o tempo em si. A sociedade industrial deu início a um período único na história da humanidade, que não durou mais de uma centena de anos, de vida ordenada em blocos de tempo. As normas foram aceitas como legítimas pela maioria dos que viviam nas sociedades em industrialização e foram exportadas para todo o mundo. Elas eram uma marca da civilização.

O funcionamento da sociedade e da produção era baseado em blocos de tempo, junto com ideias de locais de trabalho e de moradia fixos. Durante a vida, as pessoas frequentavam a escola por um curto período, depois passavam a maior parte da vida trabalhando e depois, se tivessem sorte, tinham um curto perído de aposentadoria. Durante seus “anos de trabalho”, acordavam de manhã, trabalhavam por 10 ou 12 horas, ou pelo tempo que estivesse estabelecido em seus contratos vagamente definidos, e depois iam para “casa”. Havia “feriados”, mas eles encolheram durante a industrialização e foram substituídos gradualmente por curtos blocos de férias. Embora os padrões variassem por classe e gênero, o importante é que o tempo era dividido em blocos. Para a maioria das pessoas, fazia sentido pensar que elas estariam em casa durante, digamos, 10 horas por dia, “no trabalho” por outras 10 horas, e o restante do tempo seria para a socialização. A separação de “local de trabalho” e “local de moradia” fazia sentido. Tarefa, trabalho e diversão eram atividades distintas, levando-se em conta o momento em que eram desenvolvidas e onde as fronteiras de cada uma delas começavam e terminavam. Quando um homem – e era tipicamente um homem – saía de seu local de trabalho, onde normalmente era sujeito ao controle direto, sentia-se como se fosse seu próprio chefe, mesmo se estivesse exausto demais para tirar vantagem disso, salvo quando obrigado a suportar as exigências arbitrárias da família.

A economia, as estatísticas e a política social se configuraram como pano de fundo da sociedade industrial e da maneira de pensar induzida por ela. Percorremos um longo caminho a partir dela, mas ainda temos de ajustar as políticas e as instituições. Na era da globalização, surgiu um conjunto de normas informais que estão em conflito com as normas industriais relativas ao tempo, as quais ainda permeiam a análise social, a legislação e a elaboração de políticas. Por exemplo, as estatísticas gerais sobre trabalho produzem números harmoniosamente impressionantes que indicam que o adulto médio “trabalha 8,2 horas por dia” (ou qualquer que seja o número) durante cinco dias por semana, ou que a taxa de participação da força de trabalho é de 75%, dando a entender que três quartos da população adulta estão trabalhando oito horas por dia, em média.

Ao considerar como o precariado – e outros – aloca o tempo, tais números são inúteis e enganosos. Subjacente ao que vem a seguir está um apelo: precisamos desenvolver um conceito de “tempo terciário”, uma maneira de olhar para a forma como alocamos o tempo que seja adequada para uma sociedade terciária, não para uma sociedade industrial ou agrária.

O que é trabalho?

Toda época tem suas peculiaridades sobre o que é e o que não é trabalho. O século XX foi tão tolo como qualquer outro antes dele. Para os antigos gregos, a tarefa era feita pelos escravos e pelos banausoi, os estrangeiros, não pelos cidadãos. Quem realizava tarefas tinha “garantia de vínculo”, mas, no entender de Hannah Arendt (1958), isso era deplorável na visão grega, uma vez que apenas o homem inseguro era livre, um sentimento que o precariado moderno compreende.

Para recordar pontos levantados no capítulo 1, na Grécia antiga, o trabalho, como praxis, era realizado pelo seu valor de uso, com parentes e amigos ao redor da casa, cuidando dos outros – reproduzindo-os como capazes de serem eles próprios cidadãos. O trabalho consistia na construção de amizade cívica (philia). A diversão era necessária para o relaxamento, mas distintamente dela, os gregos tinham um conceito de schole, que tem um duplo sentido – isto é, ócio e aprendizagem – construído em torno da participação na vida da cidade (polis). O conhecimento vinha da deliberação, da quietude, bem como do envolvimento. Aristóteles acreditava que certa indolência (aergia) era necessária para o ócio adequado.

A cidadania era negada aos “habitantes”, aos banausoi e aos metecos, porque se acreditava que eles não tinham tempo para participar na vida da polis. Não pretendemos defender um modelo social equivocado – considerando- se o tratamento dado pelos gregos aos escravos e às mulheres e sua distinção de tipos de trabalho adequados para os cidadãos –, mas a sua divisão do tempo em tarefa, trabalho, diversão e ócio é útil.

Depois dos gregos, os mercantilistas e os economistas políticos clássicos, como Adam Smith, fizeram uma confusão para decidir o que era tarefa produtiva, conforme discutido em outro livro (Standing, 2009). Mas a tolice de decidir o que era trabalho e o que não era veio à tona no início do século XX, quando o trabalho de assitência foi relegado à irrelevância econômica. Arthur Pigou, o economista de Cambridge (1952 2002, p. 33), admitiu o absurdo quando brincou: “Assim, se um homem se casa com sua empregada ou cozinheira, o dividendo nacional é diminuído”. Em outras palavras, o que era tarefa não dependia do que era feito, mas para quem era feito. Para a sociedade de mercado isso foi um triunfo sobre o senso comum.

Durante todo o século XX, a tarefa – trabalho com valor de troca – foi colocada num pedestal, enquanto todo trabalho que não era tarefa foi negligenciado. Desse modo, o trabalho realizado por sua utilidade intrínseca não aparecia nas estatísticas de emprego ou na retórica política. Para além do seu sexismo, trata-se de algo indefensável também por outras razões. Isso degrada e desvaloriza algumas das mais valiosas e necessárias atividades – a reprodução de nossas próprias capacidades, bem como das capacidades das gerações futuras e as atividades que preservam nossa existência social. Precisamos escapar da armadilha trabalhista. Nenhum grupo precisa que isso aconteça mais do que o precariado.

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