As Origens do Ódio: Leia o primeiro capítulo de O Holocausto

Laurence Rees - Publicado na categoria Resenhas & Trechos em 20/09/2018


(capítulo retirado do livro O Holocausto, publicado pela Editora Vestígio)

As origens do ódio

Em setembro de 1919, Adolf Hitler escreveu uma carta de imensa importância histórica. Na época, porém, ninguém lhe atribuiu essa relevância. O Adolf Hitler que havia escrito esse documento era um zé-ninguém. Aos 30 anos de idade, não tinha casa, carreira, esposa ou namorada, nem mesmo um amigo íntimo de qualquer tipo. Tudo o que podia rememorar era uma vida cheia de sonhos frustrados. Quis ser um pintor famoso, mas foi rejeitado pelo establishment artístico; almejou um papel na vitória alemã sobre os Aliados na Primeira Guerra Mundial, mas só conseguiu assistir à humilhante derrota das forças alemãs, em novembro de 1918. Estava amargurado, indignado e à procura de alguém em quem pôr a culpa.

Nessa carta, datada de 16 de setembro de 1919 e dirigida a um colega soldado chamado Adolf Gemlich, Hitler aponta de modo inequívoco quem ele julga responsável não só por sua difícil situação pessoal, mas pelo sofrimento de toda a nação alemã. “Existe, vivendo entre nós”, escreveu Hitler, “uma raça não alemã, estrangeira, que não se dispõe e não é capaz de abrir mão de suas características […] E que mesmo assim desfruta de todos os direitos políticos de que nós dispomos […] Tudo o que leva os homens a se esforçarem para obter coisas mais elevadas, como a religião, o socialismo ou a democracia, é para ele apenas um meio para um fim, para satisfazer sua cobiça por dinheiro e poder. Suas atividades produzem uma tuberculose racial entre as nações”.

É um documento excepcional. Não só porque permite vislumbrar como pensava, em 1919, o homem que mais tarde iria instigar o Holocausto, mas também porque é a primeira evidência irrefutável das crenças antissemitas do próprio Hitler. Em sua autobiografia, Minha luta (Mein Kampf), que ele escreveria cinco anos mais tarde, Hitler afirma odiar os judeus desde quando batalhava para se tornar pintor em Viena nos primeiros anos do século XX. Mas alguns estudiosos lançaram dúvidas sobre essa sua versão simplista do próprio passado,2 e questionaram se ele de fato teria sustentado essas visões fortemente antissemitas em seu período em Viena e quando serviu como soldado na Primeira Guerra Mundial. Mas isso tampouco quer dizer que o antissemitismo de Hitler tenha entrado na sua cabeça de repente, do nada, em setembro de 1919.

Ao escrever essa carta, ele seguiu correntes de pensamento antissemita que circulavam na Alemanha na Primeira Guerra Mundial e logo após. Tanto que nenhuma das ideias que expôs a esse respeito em sua carta de setembro de 1919 era original. Embora mais tarde viesse a se tornar o mais famoso proponente do antissemitismo, Hitler partiu de uma história de perseguição preexistente. O antissemitismo por certo não era novidade. Suas origens remontam a centenas de anos. Na época da emergência do cristianismo, por exemplo, embora o próprio Jesus fosse judeu, passagens da Bíblia enfatizam que “os judeus” se opunham a ele. O Evangelho de São João, na versão da Bíblia do rei Jaime, diz que os judeus “tencionavam matar”4 Jesus. A certa altura, chegaram a pegar pedras para atirar nele. Quanto a Jesus, dirige-se aos judeus dizendo que são filhos do “demônio”.

Portanto, ideias nocivas a respeito dos judeus já estavam embutidas até no mais sagrado texto cristão; e gerações de padres os marcaram como um povo “pérfido”, que “quis matar o Senhor Jesus Cristo”. Assim, não é difícil compreender por que a perseguição aos judeus era lugar-comum numa Europa medieval dominada pela cultura cristã. Em muitos países, os judeus eram proibidos de possuir terras, de praticar certas profissões e de viver onde bem quisessem. Em várias épocas, em diversas cidades da Europa, os judeus foram obrigados a residir em guetos e a usar uma marca especial de identificação em suas roupas – em Roma, no século XIII, era uma insígnia amarela. Uma das poucas ocupações franqueadas aos judeus era a de agiota, já que os cristãos eram proibidos de praticar a “usura”. E como Shakespeare ilustra em O mercador de Veneza, o agiota judeu acabou se tornando uma figura odiada. Na Alemanha, em 1543, Martinho Lutero escreveu sobre os judeus e suas mentiras. Os judeus, dizia Lutero, “nada mais são do que ladrões e usurpadores que diariamente não comem bocado e não usam peça de roupa que não tenham furtado e subtraído de nós por meio de sua maldita usura”. Ele conclamou o populacho a “expulsá-los de vez desse país […] fora com eles!”.

Mas o Iluminismo trouxe uma mudança na sorte dos judeus europeus. Nessa época de avanços científicos e políticos, muitas crenças tradicionais foram questionadas. Por exemplo, eles “mereciam” de fato o tratamento que vinham suportando ou eram meras vítimas do preconceito? Christian Wilhelm von Dohm, um historiador alemão, escreveu em 1781 em favor da emancipação dos judeus e destacou que “Tudo aquilo cuja culpa atribuímos aos judeus é causado pelas condições políticas sob as quais eles vivem agora”. Na França, após a Declaração dos Direitos do Homem em
1789, os judeus se tornaram cidadãos “livres e iguais” perante a lei. No século XIX, na Alemanha, muitas das proibições que haviam sido impostas a eles foram eliminadas, incluindo as que restringiam seu acesso a determinadas profissões.
Mas todas essas liberdades tiveram seu preço. Ao mesmo tempo em que os judeus alemães experimentavam essas novas oportunidades, o país sofria enormes mudanças. Nenhum país da Europa passou por alterações tão rápidas quanto a Alemanha na segunda metade do século XIX. A produção de carvão aumentou de um milhão e meio de toneladas em 1850 para cem milhões de toneladas em 1906. A população cresceu de pouco mais de 40 milhões em 1871 para mais de 65 milhões por volta de 1911. A Alemanha também mudou politicamente, com a unificação do país em 1871. Na esteira de todas essas reviravoltas, muitos passaram a levantar profundas questões sobre a natureza cultural e espiritual dessa nova nação. Uma delas, não menos importante, era: o que significava ser “alemão”?

Os que acreditavam no poder do Volk ofereceram uma resposta. Embora seja normalmente traduzido pelo termo “povo”, o conceito por trás de Volk não pode ser suficientemente transmitido por uma única palavra. Para os teóricos, völkisch significava a conexão quase mística que um grupo de pessoas que fala a mesma língua e compartilha uma herança cultural tem com o solo de sua terra natal. Como reação ao repentino crescimento das cidades e à poluição que emanava das fábricas recém-construídas, eles pregavam as glórias da vida rural alemã, e, particularmente, do poder da floresta. Em Land und Leute (“Terra e Povo”), um dos mais famosos textos de exaltação do Volk, o professor Wilhelm Heinrich Riehl escreveu: “Um povo deve desaparecer se não é mais capaz de compreender o legado das florestas que o fortalecem e rejuvenescem. Devemos preservar a floresta, não apenas manter a lareira acesa no inverno, mas também manter a pulsação do povo aquecida e feliz de modo que os alemães possam continuar alemães”.

Escrevendo em meados do século XIX, Riehl fazia uma advertência contra os perigos criados não só pelo crescimento das cidades, mas por aquele símbolo da modernidade, a ferrovia: “Em particular, o agricultor sente que não é mais capaz de continuar sendo o ‘agricultor tradicional’ ao lado da nova ferrovia […] Todos receiam tornar-se alguém diferente, e aqueles que querem nos subtrair o modo de vida característico afiguram-se mais como espectros do inferno do que como bons espíritos”.

O conceito de Volk iria depois adquirir imensa importância para Hitler e os nazistas. O ministro da Propaganda nazista, Joseph Goebbels, até encomendou um filme extraordinário, lançado em 1936, intitulado Ewiger Wald (“Floresta Eterna”), que glorificava o poder e a importância da floresta e do agricultor. “Nossos ancestrais eram um povo da floresta”, dizia o release de lançamento do filme, “seu Deus vivia em bosques sagrados, sua religião cresceu a partir das florestas. Nenhum povo pode viver sem a floresta, e as pessoas que são culpadas pelo desflorestamento irão afundar no esquecimento[…]” A última fala do narrador do filme reforçava esse vínculo entre o Volk e a floresta: “O povo, como a floresta, resistirá sempre!”.

Antes da Primeira Guerra Mundial, o movimento jovem mais popular na Alemanha era o Wandervogel, uma organização que conclamava homens e mulheres jovens a viajar pelo campo para resgatar a conexão entre o povo alemão e sua terra. “Era um movimento espiritual”, diz Fridolin von Spaun, que aderiu ao Wandervogel ainda adolescente. “Era uma reação contra a era do imperador Guilherme, toda ela calcada na indústria e no comércio.” Outros jovens alemães
se juntaram a grupos como a Liga Alemã de Ginástica para se exercitarem ao ar livre. “Foi na Liga Alemã de Ginástica que entrei em contato com a suástica pela primeira vez”, diz Emil Klein, que foi membro da liga antes da Primeira Guerra Mundial. “Os quatro Fs – frisch [“puro”], fromm [“tranquilo”], fröhlich [“feliz”], frei [“livre”] – formavam uma dupla suástica sobre o distintivo que usávamos, um distintivo de bronze que era ostentado como insígnia.”

A suástica foi adotada por vários grupos völkisch. Eles acreditavam que esse símbolo antigo, usado por várias culturas do passado, representava um vínculo com seus ancestrais mais distantes, em parte pelo fato de marcas similares terem sido encontradas em relíquias arqueológicas alemãs. Cada novo desenrolar de acontecimentos era um problema para
os judeus alemães, já que eles se viam excluídos do conceito de Volk.

A maior parte deles vivia em cidades e trabalhava em empregos que eram a antítese do ideal völkisch – os judeus certamente não eram pessoas “oriundas da floresta”. Em Soll und Haben (“Débito e Crédito”), uma novela alemã muito popular publicada em 1855, o personagem central judeu, o homem de negócios Veitel Itzig, é retratado como um indivíduo detestável, obcecado por dinheiro e que ludibriava alemães honestos, mas ingênuos. Itzig é um parasita; leva uma vida que não poderia ser mais distante do ideal nobre do camponês que cultiva o solo.

Embora nem todo indivíduo que endossava a ideia de Volk fosse necessariamente antissemita, os judeus ainda assim se tornaram, para o movimento völkisch como um todo, um símbolo de tudo o que havia de errado com a nova Alemanha. Se você fosse um agricultor com dificuldades para lidar com o súbito crescimento das cidades e com a realidade das ferrovias que agora cortavam suas terras, podia culpar os judeus por isso. Se fosse um lojista e achasse que os clientes estavam abandonando sua loja em favor das novas lojas de departamento, podia culpar os judeus por isso. Se trabalhasse numa oficina fazendo produtos artesanais que agora não eram mais vendidos devido à presença no mercado de bens manufaturados em massa pelas fábricas, podia culpar os judeus por isso.

Esses argumentos apoiavam-se, é claro, em preconceitos. Se os judeus alemães estavam vivendo nas cidades, se abriam lojas de departamento e fábricas, era em grande medida porque haviam sido excluídos do trabalho em ocupações völkisch “aprovadas” há centenas de anos. Em resumo, os judeus estavam agora sendo culpados por não terem um vínculo com o solo, depois de terem sido proibidos de possuir terras. Essa antipatia crescente por eles era ainda mais notável porque quase não havia judeus vivendo na Alemanha. Menos de um por cento da população era judeu. Muitos alemães jamais haviam tido contato com eles. Mas a ausência de judeus não é obstáculo ao antissemitismo.

Os velhos preconceitos de base cristã contra os judeus alemães não desapareceram à medida que o movimento völkisch crescia – ao contrário, eles foram reforçados. Paul de Lagarde, um dos mais engajados antissemitas völkisch, discursava em termos que Martinho Lutero teria reconhecido. “Somos antissemitas”, escreveu ele em Juden und
Indogermanen (“Judeus e Indo-Germânicos”), publicado em 1887, “porque na Alemanha do século XIX os judeus que vivem entre nós representam visões, costumes e exigências que remontam aos tempos da separação dos povos logo após o Dilúvio […] pois, em meio a um mundo cristão, os judeus são pagãos asiáticos”. Os judeus eram, para Lagarde, “Um povo que não contribuiu com nada para a história, ao longo de milhares de anos”.

A falsa percepção de que os judeus eram uma força estrangeira e, ao mesmo tempo, figuras secretamente poderosas na nova Alemanha levou Heinrich Class, o líder da Liga Pan-Germânica, a escrever Wenn ich der Kaiser wär (“Se eu Fosse o Kaiser”). O livro de Class, publicado em 1912, dois anos antes da eclosão da Primeira Guerra Mundial, associava a necessidade de “recuperar a saúde de nossa vida nacional” com a exigência de que “a influência judaica” fosse “completamente erradicada ou reduzida a um nível suportável, inócuo”.

Class propôs várias medidas restritivas contra os judeus. Conclamou os jornais de propriedade judaica ou que empregassem jornalistas judeus a “divulgarem esses fatos”, e defendia que eles fossem excluídos do serviço militar ou da Marinha e banidos de profissões como o ensino e a advocacia.

Em paralelo com o antissemitismo völkisch e o “tradicional” antissemitismo de base cristã, crescia outra maneira bem diferente de atacar os judeus. Era a ideia por trás da conclamação de Hitler em sua carta de setembro de 1919 em favor de um “antissemitismo com base na razão”. Antissemitas “modernos”, como Hitler, tentavam apoiar-se em razões pseudocientíficas para justificar seu ódio aos judeus, argumentando que estes deveriam ser desprezados não por sua religião, mas por sua “raça”.

A noção de que os seres humanos podiam ser distinguidos por raça, e que algumas “raças” eram superiores a outras, ganhara um suporte quase intelectual com a publicação, em 1855, do Essai sur l’inégalité des races humaines (“Ensaio sobre a Desigualdade das Raças Humanas”), de Arthur de Gobineau. Com formação de diplomata, não de cientista, Gobineau imaginou um mundo no qual havia três raças, “os negros, os amarelos e os brancos”. Dessas, “a variedade negroide é a mais inferior, e fica na parte mais baixa da escala”. O povo amarelo era “nitidamente superior ao negro”, mas “nenhuma sociedade civilizada poderia ser criada por eles; não seriam capazes de lhe fornecer uma força audaz, ou de pôr em movimento as energias da beleza e da ação”. No topo da hierarquia racial estava a “raça branca”. Eles
têm “um notável e até mesmo extremo amor à liberdade”. Assim, “a lição da história” era que “todas as civilizações derivam da raça branca, que nenhuma delas pode existir sem sua ajuda, e que a sociedade é importante e brilhante apenas na medida em que preserva o sangue do grupo nobre que a criou […]”. Gobineau acreditava também que todas as “civilizações” europeias – incluindo a das “raças germânicas” – haviam sido criadas, “pelo menos em parte”, por um grupo chamado de “arianos”, que havia migrado da Índia para a Europa.

Houston Stewart Chamberlain, escritor nascido na Inglaterra e que mais tarde se tornou cidadão alemão, deu uma dimensão antissemita a tudo isso em seu Die Grundlagen des XIX Jahrhunderts (“Alicerces do Século XIX”), publicado em 1899. O livro foi muito lido – e não só na Alemanha. Em sua efusiva introdução à edição inglesa, Lorde Redesdale escreveu que o livro havia sido “rapidamente declarado como uma das obras-primas do século” e que “o fruto inteiro” do “conhecimento e erudição” de Chamberlain havia agora “amadurecido para o bem do mundo”.21 Chamberlain argumentava que, enquanto os arianos representavam o ideal mais fundamental, os judeus representavam justamente o inverso. Embora fosse difícil, à primeira vista, distinguir alguns deles dos arianos, a realidade era que todos os judeus faziam parte de um “povo asiático estrangeiro” que havia, “pelos meios mais vis, adquirido imensa riqueza”. No
entanto, como apenas os judeus e a raça alemã haviam conseguido se manter “puros”, concluía-se que essas duas “raças” – a ariana e a judaica – estavam envolvidas em uma intensa luta pela supremacia.

Compreensivelmente, Chamberlain e Hitler tinham muito em comum. Quando se conheceram em 1923, Chamberlain disse que em consequência do encontro “a condição de sua alma” havia sido transformada “de uma vez por todas”.23 Em retribuição, os nazistas adotaram Chamberlain como um dos seus. No aniversário de 70 anos de Chamberlain, em setembro de 1925, ele recebeu grande cobertura do jornal nazista Völkischer Beobachter, e seu Alicerces do Século XIX
tornou-se um texto reverenciado.

Muitas pessoas – especialmente aquelas que Chamberlain e Gobineau haviam chamado de “superiores” – sentiram-se atraídas por essa teoria racial. A ideia de que era possível avaliar o valor de um indivíduo apenas por sua aparência física revelou-se sedutora. Na popular novela alemã Helmut Harringa (1910), um juiz não consegue aceitar que Harringa seja culpado, simplesmente pelo fato de ele parecer muito puro. Essa é uma lição que Heinrich Himmler, Reichsführer da SS, parece ter levado ao pé da letra. Em visita a uma unidade da SS em 1938, um soldado “chamou sua atenção” devido à sua “aparência”. Meramente por seus traços, o homem foi julgado por Himmler como um “alemão capaz, de sangue bom”. Depois de investigar o histórico do soldado, Himmler solicitou que fosse promovido.

Há outro elemento a acrescentar a essa tóxica mistura de antissemitismo “tradicional”, antissemitismo völkisch e antissemitismo “racial” – a emergência do movimento da eugenia. O termo “eugenia” (literalmente “boa raça” em grego) foi cunhado pelo cientista inglês Francis Galton. Em 1869, em Hereditary Genius (“Gênio Hereditário”, em tradução livre), ele defende que a questão-chave que a sociedade deveria resolver era simples – quem teria permissão para procriar?

Galton escreveu que através de “cuidadosa seleção” seria possível “produzir uma raça de homens altamente dotados, por meio de casamentos criteriosos durante várias gerações consecutivas”. A sociedade deveria reconhecer que “cada geração tem imenso poder sobre os dotes naturais daqueles que vêm depois” e assim tinha o dever “perante a humanidade, de investigar a extensão desse poder, e exercê-lo de uma maneira que, sem ser insensata em relação a nós, pudesse ser muito vantajosa para os futuros habitantes da terra”.

Galton nunca sugeriu que certas pessoas fossem impedidas à força de procriar, mas outros o fizeram. Em 1895, Alfred Ploetz, um defensor alemão da eugenia – ou “higiene racial”, como ele a chamou –, levantou a possibilidade de médicos decidirem se os bebês deveriam viver ou morrer com base em seu valor racial. Disse também que “defensores da higiene racial farão poucas objeções à guerra, já que veem nela um dos meios pelos quais as nações levam adiante sua luta pela existência”. Ele chegou a sugerir que, durante uma batalha, as pessoas “inferiores” poderiam ser usadas como “bucha de canhão” e colocadas em posições particularmente perigosas.

Muitos dos pioneiros do movimento da eugenia não eram antissemitas – Ploetz, por exemplo, achava que os judeus eram “arianos raciais” –, mas seus ensinamentos foram muito utilizados pelos antissemitas. A ideia de que a “higiene racial” era importante para a saúde de uma nação, combinada com a noção de Houston Chamberlain de que os judeus eram uma ameaça racial ao povo “ariano”, acrescentou um elemento potencialmente catastrófico ao caldo antissemita. O antissemitismo tradicional havia se baseado na religião. Se os judeus se convertessem ao cristianismo, ainda teriam uma chance de escapar da perseguição. Mas a ideia de que a “condição de judeu” era algo inerente ao indivíduo – de que estava presente, como os nazistas acabaram acreditando, no sangue – significava que não havia escapatória. Sua “raça”, sobre a qual você não tinha controle, era seu destino. Você podia ser a pessoa mais gentil e generosa possível, mas se a sua “raça” fosse avaliada como inferior ou perigosa, então você corria o risco de ser perseguido.

Hitler declarou de modo explícito em sua carta de setembro de 1919 que “os judeus são definitivamente uma raça, e não uma comunidade religiosa”. Isso era fundamental em sua crença antissemita. Significava, para ele, que a questão da religião praticada pelos “judeus” importava muito pouco, já que “é difícil encontrar uma única raça cujos membros pertençam exclusivamente a uma religião em particular”.

No entanto, apesar da busca desesperada de um teste que identificasse o “sangue” judeu, os nazistas – o que não surpreende – nunca conseguiram achar uma maneira científica de atestar se um indivíduo fazia parte ou não da “raça” judaica. Assim, quando começaram a perseguir e exterminar judeus, tinham que se apoiar em um teste da “condição de judeu” religioso. Avaliavam se você era judeu ou não contando quantos de seus avós praticavam a fé judaica. Mesmo assim, ainda acreditavam que os judeus eram uma “raça”, e não uma “religião”. A primazia da “raça” na história humana era tão central na visão de mundo de Hitler que ele nunca deixaria que a questão menor da ciência fosse um obstáculo à sua crença.

E nesse ponto um aviso precisa ser feito. Levando em conta a evidência de que havia uma crença antissemita alemã anterior à emergência de Hitler e dos nazistas como força política, talvez fosse fácil supor uma linha reta que levaria esse ódio aos judeus, pré-Primeira Guerra Mundial, até o Terceiro Reich e o Holocausto. Ou seja, que o horror que estava prestes a ocorrer seria de algum modo inevitável. Mas essa visão seria equivocada por duas razões importantes. Primeiro, porque apesar da veemência de suas visões, os partidos alemães antissemitas não vinham tendo sucesso em convencer o resto do país a apoiá-los. Um cálculo avalia que no Reichstag de 1893 havia apenas 16 representantes eleitos de grupos antissemitas, e mais uns 12, em outros partidos, que apoiavam seus pontos de vista. Uma esmagadora maioria dos eleitores alemães – 95 por cento – não estava preparada para apoiar abertamente partidos antissemitas nas urnas. É claro que o que essas estatísticas não revelam é o preconceito latente contra os judeus. Deve ter havido muito disso, uma vez que – como já vimos – esse antissemitismo de base cristã existiu por séculos na Alemanha.

Mas, na época, muitos outros países da Europa demonstravam elementos desse preconceito. Na realidade, a segunda razão pela qual o antissemitismo alemão não deve ser exagerado é que, se você vivesse no início do século XX e alguém lhe pedisse para prever que país iria mais tarde adotar uma política de extermínio contra os judeus, é muito pouco provável que você escolhesse a Alemanha. O mais certo é que escolhesse a Rússia. A cota de violência antissemita que os judeus russos sofreram antes da Primeira Guerra Mundial foi terrível. Em um pogrom (a própria palavra é de origem russa) contra os judeus de Kishinev, em abril de 1903, centenas de casas e lojas foram destruídas e 49 judeus foram mortos. Os judeus haviam sido vítimas de uma acusação falsa e absurda – o “Libelo de Sangue” – de terem matado crianças a fim de usar seu sangue na preparação de pão para o feriado de Pessach*. Dois anos mais tarde, em Odessa, em outubro de 1905, cerca de 1.600 casas de judeus foram destruídas e vários milhares de judeus foram mortos ou feridos.29 Esses são apenas dois exemplos de ataques homicidas contra judeus na Rússia nesse período – houve muitos mais. Ao todo, cerca de dois milhões de judeus fugiram da Rússia entre 1880 e o início da Primeira Guerra Mundial – todos à procura de uma vida melhor e mais segura. Nada similar a isso ocorreu na Alemanha no mesmo período. Os judeus alemães devem ter lido a respeito dos ataques mortíferos ocorridos em Odessa e Kishinev e pensado que tinham sorte de viver num país civilizado, onde tais barbaridades não aconteciam.

O que é mais difícil de avaliar com precisão é a atitude do próprio Hitler em relação aos judeus antes da Primeira Guerra Mundial. Ele viveu em Viena entre 1908 e 1913 e admirava o prefeito, Karl Lueger – um antissemita assumido –, que uma vez afirmara que o poder judeu sobre os jornais e o capital era equivalente “ao mais terrível terrorismo”, e que tinha vontade de libertar o povo cristão
da “dominação judaica”.

Hitler manifestou tais opiniões na época. O certo é que estava disposto a negociar com os marchands judeus para vender seus quadros em Viena. Talvez, como um importante estudioso sugere, Hitler fosse apenas “pragmático” em seu contato com judeus, mas tivesse mesmo assim absorvido o antissemitismo vienense. Simplesmente não sabemos ao certo. Não há dúvidas, porém, de que Hitler apoiou sem reservas a causa alemã na Primeira Guerra Mundial e saboreou a oportunidade de tomar parte no conflito. Em agosto de 1914, solicitou a filiação a um regimento bávaro, tornando-se assim soldado do Exército Alemão, não do austríaco. Hitler era um pangermanista assumido, e embora tivesse nascido na Áustria, considerava-se acima de tudo um alemão. Ele foi um bravo soldado e ganhou a Cruz de Ferro, primeira classe.

Na Segunda Guerra Mundial, usaria essa mesma Cruz de Ferro em sua jaqueta. O que não mencionava era que havia sido um oficial judeu, Hugo Gutmann, quem o indicara para receber a condecoração. Por volta de 1916, a guerra ia mal para os alemães. Havia um impasse na linha de frente e escassez de comida em casa. A ideia de uma vitória rápida – em cima da qual os planos do Estado-Maior alemão haviam se baseado – revelava-se agora fantasiosa. As pessoas procuravam alguém para culpar pelas dificuldades da Alemanha, e muitos começaram a culpar os judeus. O ministro da Guerra prussiano afirmou que seu ministério recebia “continuamente” queixas da “população em geral” de que “grande número de homens da fé israelita” estavam se esquivando de seu dever de servir na linha de frente.

Como resultado, foi realizado um censo para determinar quantos judeus de fato estavam participando da guerra. Os resultados dessa enquete nunca foram oficialmente publicados. A suspeita era de que as autoridades alemãs, depois de descobrirem que os dados colhidos mostravam os judeus alemães carregando sua justa cota do fardo da guerra, ocultaram os resultados em vez de isentarem os judeus das falsas acusações.

O fato era que havia judeus alemães alistados no exército na mesma proporção que não judeus. Mesmo assim, prevaleceu a mentira de que eles haviam, de algum modo, fugido ao seu dever com a Pátria. Na década de 1920, por exemplo, o jornal Der Schild publicou uma história indecente dizendo que “havia sido instalado próximo à linha de frente um hospital de campo para judeus, magnificamente aparelhado com os mais modernos recursos médicos e com uma equipe toda de judeus. Depois de aguardarem oito semanas, eles trataram o primeiro paciente, que chegou berrando de dor porque uma máquina de escrever havia caído no seu pé”.

Os judeus, e não era a primeira vez na história, tornaram-se um bode expiatório. Walther Rathenau, um grande industrial e político judeu, escreveu profeticamente a um amigo em 1916: “Quanto mais judeus forem mortos [em ação] nessa guerra, mais obstinadamente seus inimigos vão provar que todos eles ficaram atrás do front a fim de especular ganhos com a guerra. O ódio vai duplicar, triplicar”.

As circunstâncias em que a Primeira Guerra Mundial terminou para a Alemanha deram aos antissemitas mais oportunidades para culpar os judeus. Primeiro, porque na esteira do armistício de novembro
de 1918 houve um levante socialista. O Ruhr-Echo proclamou que “A bandeira vermelha deverá tremular vitoriosamente sobre toda a Alemanha. A Alemanha deve se tornar uma república de sovietes e, junto com a Rússia, será o trampolim para a esperada vitória da revolução mundial e do socialismo mundial”. Em abril de 1919, os
revolucionários proclamaram uma “República Soviética” na Baviera. Os comunistas, liderados por Eugen Leviné, tentaram impor políticas socialistas radicais em Munique e tomaram apartamentos caros de seus proprietários, a fim de alojar os pobres. Também usaram de violência para alcançar seus fins – dez prisioneiros foram mortos em 30 de abril.

Em maio de 1919, paramilitares de direita, os Freikorps, marcharam sobre a Baviera, entraram em Munique e derrotaram os comunistas. Eles perpetraram uma sangrenta vingança contra os revolucionários, matando mais de mil deles. Vários dos principais revolucionários comunistas eram judeus. Como resultado disso, jovens como Fridolin von Spaun, que se juntou a um dos Freikorps logo após a Primeira Guerra Mundial, acharam fácil justificar seu antissemitismo estabelecendo uma ligação crassa entre os judeus e o comunismo. “As pessoas enviadas para a Baviera
para montar um regime de conselhos [soviéticos] eram quase todas judias”, diz ele. “Naturalmente, também sabemos que na Rússia os judeus tinham uma posição muito influente. Assim, foi se consolidando aos poucos na Alemanha a impressão de que o bolchevismo e o judaísmo eram praticamente a mesma coisa.”

Os judeus foram acusados não só de tentarem instigar uma revolução comunista na Alemanha. Foram também culpados pela derrota na guerra; pela destruição do velho regime político baseado no Kaiser; por terem concordado com os termos do odiado Tratado de Paz de Versalhes; e por participarem do governo de Weimar, que esteve à frente da hiperinflação do início da década de 1920. Os antissemitas apontaram para um suposto envolvimento judeu em todos esses problemas controversos. Por exemplo, destacaram que o advogado judeu Hugo Preuss havia redigido a Constituição de Weimar; que o político judeu Hugo Haase era o presidente do Partido Social-Democrata Independente em 1917; que outro estadista judeu, Otto Landsberg, viajara a Versalhes como ministro da Justiça e ouvira as exigências dos Aliados na conferência de paz após a guerra; e que o industrial judeu Walther Rathenau não só havia trabalhado no Ministério da Guerra durante o conflito, como havia mais tarde sido o ministro do Exterior no governo de Weimar. Todos esses fatos eram verdadeiros, mas não refletiam toda a verdade.

Não só era absurdo considerar os estadistas judeus como únicos responsáveis por decisões coletivas em que haviam desempenhado apenas um papel, mas qualquer tentativa de “culpar” essas pessoas como indivíduos não resistia a um exame mais detido. Por exemplo, embora Hugo Preuss estivesse envolvido na redação da Constituição de Weimar, a versão final não foi a sua, e continha cláusulas que ele não havia redigido. Do mesmo modo, embora Otto Landsberg tivesse ouvido as exigências dos Aliados em Versalhes, os antissemitas nunca mencionaram que ele se opôs a tal ponto ao tratado que renunciou ao cargo. Quanto a Hugo Haase e Walther Rathenau, ambos foram assassinados logo após a guerra – Haase em 1919 e Rathenau em 1922 –, portanto dificilmente poderiam ser responsabilizados por quaisquer deficiências posteriores do Estado de Weimar.

Mas o preconceito funciona somente se alguns fatos são ignorados e outros exagerados, e muitos alemães não se dispunham a questionar sua reação emocional à terrível situação em que então se encontravam. Milhões sofriam com a escassez de comida, resultante do bloqueio naval Aliado à Alemanha – um bloqueio mantido até o verão de 1919, a fim de pressionar o novo governo a assinar os termos da paz. Os alemães também suportaram os efeitos da epidemia de gripe de 1918, que causou imenso sofrimento e um grande número de mortes. Por tudo isso – e pelo medo de uma iminente revolução comunista –, muitos se voltaram para o antissemitismo como uma maneira conveniente de explicar seu sofrimento. Theodor Eschenburg, por exemplo, tinha 14 anos quando a guerra terminou, e lembra que seu pai de repente “desenvolveu um antissemitismo racial, que não tinha antes. A revolução mundial, os banqueiros mundiais, a imprensa mundial – todos estavam cheios de judeus”.

Foi nesse cenário de derrota na guerra e de enorme insatisfação que uma nova força política surgiu no sul da Alemanha – o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães. Abreviando, os nazistas.

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