Michelle McNamara morreu perseguindo o Assassino do Golden State. Seu marido, Patton Oswalt, tem algumas perguntas para ele

The New York Times - Publicado na categoria Resenhas & Trechos em 25/07/2018


por Alexandra Alter
Tradução Nilce Xavier

Na noite de terça-feira, o comediante Patton Oswalt estava em um evento em Chicago para promover Eu terei sumido na escuridão, uma assustadora história verídica sobre o Assassino do Golden State, que cometeu uma série de assassinatos e estupros não solucionados nas décadas de 1970 e 1980 na Califórnia.

Oswalt disse aos presentes que acreditava que o assassino seria capturado em breve, que não lhe restava mais muito tempo.

De fato, poucas horas antes, Joseph James DeAngelo, 72, tinha sido preso na Califórnia após a expedição de um mandado por dois dos assassinatos. Na quarta-feira, autoridades identificaram-no como o Assassino do Golden State, com base em evidências de DNA que o ligavam aos crimes.

Para Oswalt, a notícia da prisão de DeAngelo tem um impacto profundamente pessoal. Sua falecida esposa, a escritora Michelle McNamara, passou os últimos anos de sua vida caçando o Assassino do Golden State, na esperança de desvendar sua identidade no livro que estava escrevendo, Eu terei sumido na escuridão. No entanto, McNamara morreu antes que pudesse ver o assassino enfrentando a justiça, ou o seu livro publicado.

Esgotada e tomada pela ansiedade após anos de imersão nos detalhes sobre os assassinatos não resolvidos, ela morreu durante o sono em abril de 2016, aos 46 anos. A autópsia concluiu que ela sofria de um problema cardíaco não diagnosticado e tinha ingerido um coquetel de remédios prescritos, incluindo Adderall, fentanil – um opiáceo para dor – e Xanax – para combater a ansiedade.

Agora que o suspeito das mortes foi identificado, Oswalt conta que sentiu um estranho misto de euforia e tristeza iminente por McNamara não estar viva para testemunhar o fato.

“Apesar do grande contentamento, pressinto que amanhã ou depois haverá uma grande queda na serotonina e na sensação de felicidade quando cair a ficha de que ela realmente não está aqui”, Oswalt declarou em uma entrevista. “Há insights e ângulos que ela continuaria trazendo para este caso”.

Eu terei sumido na escuridão, que foi publicado em fevereiro [nos Estados Unidos], ajudou a reacender o interesse público por este caso antigo que estava arquivado havia décadas. O livro vendeu cerca de 150 mil cópias, e os direitos foram comprados pela HBO, que o está adaptando para uma série-documentário.

Em uma coletiva de imprensa convocada pelas agências policiais federais para anunciar a prisão, um oficial disse que o livro “atraiu o interesse e trouxe pistas” e manteve o caso no radar do público, embora tenha ressaltado que as informações nele contidas não conduziram diretamente à prisão de DeAngelo.

Quando McNamara morreu, o livro estava pela metade, mas Oswalt estava determinado a levar o projeto até o fim. Ele contratou Billy Jensen, um jornalista investigativo, e Paul Haynes, que havia trabalhado no livro com McNamara como pesquisador, para montar o quebra-cabeça da história usando as anotações manuscritas e os cerca de 3.500 arquivos que Michelle deixou em seu computador.

O livro resultante é uma narrativa vívida e assustadora dos crimes de um serial killer, e um relato revelador da obsessão de McNamara pelo caso e do alto preço psicológico que ela teve de pagar. A obra se encerra com uma carta de McNamara para o assassino, na qual ela prevê a sua captura: “É assim que termina para você”.

“Temos tantos assassinatos não solucionados nos Estados Unidos, e ela conseguiu trazer uma luz a alguns deles”, Jensen declarou.

Haynes conta que quando soube que um suspeito havia sido preso, ficou “animado, porém triste por Michelle não estar mais lá”. O nome de DeAngelo não aparece no livro e ele não figurava entre os suspeitos, disse Haynes.
“Finalmente consegui o nome e o rosto que procuramos há sete anos, o nome e o rosto que Michelle morreu tentando descobrir”, completou.

Haynes e Jensen revelam que vão atualizar o livro, acrescentando um novo capítulo na versão impressa, com os detalhes do passado de DeAngelo, bem como de sua identificação e consequente captura. Também planejam investigar se ele é responsável por outros crimes além dos que foram ligados a ele.

Em uma coincidência bizarra, Haynes, Jensen e Oswalt estavam reunidos no evento do livro em Chicago na terça-feira, que também contava com membros da família de McNamara no público. Uma equipe de filmagem estava gravando cenas para a série-documentário da HBO enquanto os entrevistados especulavam quanto tempo ainda levaria até que um suspeito fosse capturado, sem saber que isso já havia acontecido.
Às 4 da manhã, Oswalt acordou com o barulho do telefone. Uma enxurrada de mensagens trazia a notícia de que uma prisão relacionada ao caso provavelmente havia sido feita.

Oswalt declarou que gostaria de visitar DeAngelo e confrontá-lo com as questões que McNamara tinha preparado para este momento.
“Sinto como se fosse um último pedido de Michelle fazer a ele as perguntas que ela deixou no final do livro – para encerrar esse ciclo: ‘Minha esposa queria te perguntar algumas coisas’,” concluiu.

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Matéria do jornal The New York Times publicada originalmente em inglês em 25 de abril de 2018.

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