Leia o primeiro capítulo de 'Um banquete para Hitler'

Publicado na categoria Resenhas & Trechos em 03/05/2018


Leia, abaixo, um trecho do novo livro da Editora Gutenberg, 'Um banquete para Hitler', um romance sobre as desgutadoras do Führer.

Berlim, 2013

Quem matou Adolf Hitler? A resposta se encontra nestas páginas. As circunstâncias que cercam sua morte têm sido debatidas desde 1945, mas eu sei a verdade. Eu estava lá. Agora sou uma velha viúva sem filhos que mora sozinha em uma casa repleta de memórias amargas como cinzas. As tílias na primavera, os lagos azuis no verão, nada disso me traz alegria.

Eu, Magda Ritter, fui uma das quinze mulheres que provavam a comida de Hitler. Ele se preocupava obsessivamente com o risco de ser envenenado pelos Aliados ou por traidores.

Depois da guerra, ninguém, exceto meu marido, soube o que fiz. Não falei sobre isso. Não conseguia falar sobre isso. Mas os segredos que guardei por tantos anos precisam ser libertados de sua prisão interior. Não tenho mais muito tempo de vida.

Conheci Hitler. Eu o assisti caminhar pelos salões de seu retiro na montanha, a Berghof, e o segui pelo labirinto da Toca do Lobo, seu quartel- general na Prússia Oriental. Estava perto dele em seu último dia nas profundezas do bunker de Berlim. Muitas vezes, ele estava cercado por uma comitiva de admiradores, e sua cabeça balançava como uma boia no
mar enquanto ele olhava de um para o outro.

Por que ninguém matou Hitler antes de ele morrer no bunker? Uma trapaça do destino? Sua estranha habilidade para evitar a morte? Planos de assassinato foram traçados e, entre eles, muitos foram abortados. Apenas um conseguiu ferir o Führer. Aquela tentativa só reforçou sua crença na Divina Providência – seu direito sagrado de governar como achava oportuno.

Minha primeira lembrança dele é de uma reunião do Partido em Berlim, em 1932. Eu tinha 15 anos na época. Ele estava em uma plataforma de madeira e falava para uma pequena multidão que crescia cada vez mais à medida que a notícia de sua aparição na Potsdamer Platz se espalhava. A chuva caía de nuvens cinzentas naquele dia de novembro, mas cada palavra que ele pronunciava explodia no ar até que a multidão ardesse intensamente de calor e fúria contra os inimigos do povo alemão. A cada vez que ele batia com o punho no peito, o céu estremecia. Ele usava um uniforme marrom com um cinto de couro preto cruzando o peito. O bordado vermelho, branco e preto da suástica estava exposto em destaque no braço esquerdo. Uma pistola pendia ao lado do corpo. Hitler não era particularmente bonito, mas seu olhar poderoso captava seu interlocutor. Corriam rumores de que ele queria ser um arquiteto ou artista, mas eu sempre imaginei que ele teria sido um ótimo contador de histórias; se ao menos ele tivesse dado asas à imaginação em palavras, não em crueldade.

Ele hipnotizou uma nação, induzindo tumultos eufóricos entre aqueles que acreditavam na nova e brilhante ordem do
Nacional-Socialismo. Mas nem todos nós o venerávamos como o salvador da Alemanha. Certamente, nem todos os “bons alemães”. Minha nação teve culpa por ajudar o mais famoso ditador que o mundo já conheceu?

Um culto se formou em torno de Hitler, tão grande após sua morte como quando ele estava vivo. Seus membros são fascinados pelo horror e pela destruição que ele lançou sobre o mundo como o Diabo. Ou eles são adoradores fanáticos do Führer, ou estudantes de psicologia humana que perguntam: “Como um homem pode ser tão mau?”. De qualquer maneira, esses seguidores ajudaram Hitler a ter sucesso em sua missão de viver para sempre.

Lutei para lidar com as terríveis ações perpetradas pelo Terceiro Reich e meu espaço singular na história. Minha história precisa ser contada. Às vezes, a verdade me oprime e me apavora, como se eu estivesse caindo em um poço escuro sem fim. Mas, no processo, descobri muito sobre mim e sobre a humanidade. Também descobri a crueldade dos homens que fazem leis que servem apenas aos seus próprios interesses.

A vida me castigou e os pesadelos rondam meu sono. Não há escapatória dos horrores do passado. Talvez aqueles que leiam minha história não me julguem com tanta dureza como julguei a mim mesma.

Tags:  banquete para Hitler,  trecho,  nazismo


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