Duas vidas, de Fabien Toulmé

Noukette - Publicado na categoria Resenhas & Trechos em 24/10/2018


Tradução de Fernando Scheibe

Por mais que os sonhos de Baudouin sejam repletos de música, seu cotidiano é uma mesmice só. Dias de trabalho que às vezes se estendem até a madrugada, horas e horas trancado num escritório examinando processos, com a pressão de contratos a serem fechados pra ontem, um chefe babaca que não o deixa em paz… nada realmente divertido. E quando finalmente volta pra casa, é para ficar cara a cara consigo mesmo, com seu gato Morrison em cima dos joelhos. Solitário, triste e quase invisível para os outros, Baudouin chegou ao cúmulo de fabricar uma maquininha que conta os dias restantes para sua aposentadoria…

Já Luc, seu irmão mais velho, tomou um caminho bem diferente. Médico carismático, sem porto fixo, ele trabalha numa ONG e viaja pelo mundo todo. Ao voltar da África, entra em contato com Baudouin e o incita a sair da concha e se divertir enquanto é tempo. Mas aí vem a descoberta de que, justamente, não lhe resta muito tempo: após constatar um calombo suspeito debaixo do braço, Baudouin fica sabendo que tem um câncer e só lhe restam poucos meses de vida. Depois de uma fase de abatimento e profunda depressão, acaba aceitando a proposta do irmão de chutar o balde e viajar com ele para o Benin. Está na hora de realizar seus sonhos – agora ou nunca!

“Você tem duas vidas. A segunda começa quando você percebe que só tem uma.”
Confúcio

Fabien Toulmé já tinha me comovido com a narrativa autobiográfica que conta sua relação com a filhinha que tem síndrome de Down. Em Não era você que eu esperava, ele já tinha mostrado que sabe abordar os temas mais delicados com muito humor e ternura, sem cair no dramalhão. Desta vez, ele escolheu o viés da ficção para falar da família e dos sonhos que, muitas vezes, enterramos rápido demais. Dos pequenos golpes do destino que nos levam a transformações necessárias. Dos pequenos gestos que podem nos levar à felicidade: fazer uma lista dos nossos desejos, dizer as coisas que trazemos no coração, aproveitar cada pequena coisa. Lembrar de momentos bonitos, encarar os erros cometidos, consertar os que ainda podem ser consertados e nos tornar aquela ou aquele que sempre sonhamos ser. Enfim…

Com um desenho simples, a narrativa se enriquece através de flashbacks sobre a infância e a adolescência de Baudouin: respirações que iluminam um pouco mais a personalidade apagada de um homem que sempre foi o segundo em tudo. E se a vida lhe oferecesse uma segunda chance? O leitor logo é tomado de simpatia por esse homem que descobre uma segunda vida justamente no momento em que se prepara para morrer. O tema talvez não seja original, mas o autor nos reserva surpresas até as últimas páginas que viramos com um sorriso nos lábios (ou lágrimas nos olhos) e uma vontade louca de aproveitar a vida.

Uma bela surpresa que compartilho com Jérôme, que me apresentou a primeira graphic novel deste autor sensível – esperemos que ele continue nos brindando com outras lindas histórias.

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Resenha publicada originalmente em 2017 e em francês. Leia aqui.

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