As ondas, de Virginia Woolf - interlúdio IX

Tomaz Tadeu | Virginia Woolf - Publicado na categoria Palavra da Editora em 10/02/2021


Até o lançamento de As Ondas, previsto para o primeiro semestre de 2021, publicaremos, semanalmente, os nove trechos que Virginia chamava, em seu diário, de “interlúdios”, nos quais uma voz narrativa descreve o movimento do sol desde a madrugada até o anoitecer e uma série de eventos associados a cada um de seus estados. A tradução é de Tomaz Tadeu.


interlúdio IX

Agora o sol declinara. Céu e mar eram indistinguíveis. As ondas, quebrando, estendiam seus leques brancos longe sobre a praia, lançavam sombras brancas aos recantos das grutas sonoras e então recuavam, suspirando, por cima dos seixos.

A árvore sacudia os ramos e um punhado de folhas caía no chão. Ali se acomodavam com perfeita compostura no ponto exato em que aguardariam sua dissolução. Negro e cinza eram arremessados no jardim de dentro da vasilha quebrada que uma vez contivera luz vermelha. Sombras escuras enegreciam os túneis por entre os caules das plantas. O tordo estava silencioso e a minhoca se fazia sugar de volta a seu estreito buraco. De vez em quando uma palha embranquecida e oca era soprada de um ninho velho e caía nas gramas escuras, por entre as maçãs podres. A luz se esvaíra da parede do paiol das ferramentas e a pele de cobra pendia, oca, do prego. Todas as cores do quarto tinham transbordado de suas margens. A pincelada precisa estava inflada e torta; os armários e as cadeiras fundiam suas massas numa só e imensa obscuridade. No espaço entre o chão e o teto se estendiam vastas cortinas de uma escuridão tremulante. O espelho estava pálido como a entrada de uma caverna sombreada por trepadeiras pendentes.

A substância se esvaíra da solidez das colinas. Luzes itinerantes cravavam uma cunha emplumada entre estradas invisíveis e submersas, mas nenhuma luz despontava por entre as asas dobradas das colinas, e não havia nenhum som a não ser o grito de um pássaro buscando alguma árvore mais solitária. Na beira do penhasco havia o murmúrio inalterável do ar que varrera as florestas, da água que fora esfriada nas mil cavidades vítreas do mar aberto.

Como se houvesse ondas de escuridão no ar, a escuridão avançava, cobrindo casas, colinas, árvores, como as ondas de água que banham os costados de um navio submerso. A escuridão banhava as ruas, rodopiando em torno de figuras solitárias, engolindo-as; obscurecendo casais enlaçados sob a escuridão torrencial dos olmos em ramada de pleno verão. A escuridão revolvia suas ondas ao longo de trilhas cobertas de vegetação e sobre a pele enrugada do gramado, envolvendo a espinhosa árvore solitária e as conchas de caracol vazias ao seu pé. Subindo mais, a escuridão soprava ao longo das encostas nuas dos planaltos, e encontrava os picos corroídos e desgastados da montanha nos quais a neve se aloja para sempre na rocha dura, até mesmo quando os vales estão cheios de águas correntes e folhas de videira amareladas, e as moças, sentadas nas varandas, erguem os olhos em direção à neve, protegendo o rosto com o leque. Elas também, a escuridão as cobria.


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