As ondas, de Virginia Woolf - interlúdio I

Tomaz Tadeu | Virginia Woolf - Publicado na categoria Palavra da Editora em 16/12/2020


Em antecipação ao lançamento de As ondas, com tradução de Tomaz Tadeu, no primeiro semestre de 2021, a Autêntica publicará, neste blog, uma série de nove posts, com trechos selecionados do livro.

Considerado o mais experimental e revolucionário de seus livros, As ondas está dividido em nove “capítulos” que, por sua vez, se compõem de um texto breve, que Virginia chamava, em seu diário, de “interlúdio” (com o texto todo grafado em itálico), e um texto longo, por ela denominado de “solilóquio”.

Nos interlúdios, uma voz narrativa descreve o movimento do sol desde a madrugada até o anoitecer e uma série de eventos associados a cada um de seus estados. Nos solilóquios são “transcritos”, sempre assinalados pelo verbo “disse”, os “pensamentos” dos seis personagens centrais do livro: Susan, Jinny, Rhoda, Louis, Bernard, Neville.

São os nove interlúdios que serão aqui publicados, um a cada semana, a partir de agora.

As imagens que ilustram as “capas” são da botânica e fotógrafa inglesa Anna Atkins (1799-1871), publicadas, em 1843, no livro Photographs of British Algae: Cyanotype Impressions, com fotografias de algas obtidas pelo processo conhecido como cianotipia.

As ondas
interlúdio I

O sol ainda não se levantara. O mar era indistinguível do céu, exceto que o mar estava levemente franzido como um pano que tivesse vincos. Gradualmente, à medida que o céu clareava, uma linha escura se estendia no horizonte, separando o mar do céu, e o pano cinzento ganhava barras de traços espessos que se moviam, uma após a outra, por sob a superfície, uma seguindo a outra, uma perseguindo a outra, perpetuamente.

À medida que se aproximava da praia, cada barra se erguia, se avolumava, quebrava e estendia um tênue véu de água branca ao longo da areia. A onda fazia uma pausa, e então de novo se elevava, como alguém que dorme e cuja respiração vai e vem, inconscientemente. Gradualmente, a barra negra do horizonte tornava-se clara como se o sedimento numa garrafa velha de vinho tivesse se depositado no fundo e deixado o vidro verde. Atrás dela o céu também clareava como se o sedimento branco tivesse se depositado ali, ou como se o braço de uma mulher reclinada sob o horizonte tivesse erguido uma lamparina e barras planas de branco, verde e amarelo tivessem se espalhado pelo céu como as folhas de um leque. Então ela ergueu mais a lamparina e o ar parecia ter se tornado fibroso e se desprendido da superfície verde, tremeluzindo e flamejando em fibras rubras e amarelas, como a chama fumegante que estala de uma fogueira. Gradualmente, as fibras da fogueira ardente se fundiam numa bruma, numa incandescência que levantava a carga do céu cinza e lanoso de cima dela e o transformava num milhão de átomos de um azul suave. A superfície do mar devagarinho se tornava transparente e continuou se encrespando e espumando até as listras escuras terem quase se apagado. Devagarinho o braço que segurava a lamparina ergueu-a mais e depois mais ainda até que uma chama larga se tornou visível; um arco de fogo ardia na linha do horizonte, e por toda parte o mar resplandecia dourado.

A luz caía sobre as árvores do jardim, tornando uma folha transparente e depois mais outra. Um pássaro chilreou lá no alto; houve uma pausa; um outro chilreou mais abaixo. O sol avivava as paredes da casa, e repousava, como a ponta de um leque, sobre uma cortina branca, e deixava a marca de um dedo azul de sombra sob a folha ao lado da janela do quarto. A cortina se agitava levemente, mas tudo, dentro, estava escuro e insubstancial. Lá fora os pássaros entoavam suas pálidas melodias.

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