Mulheres Esmeraldas: Porque um romance começa e termina com a palavra romance?

Domingos Pellegrini - Publicado na categoria Nossos Autores em 12/09/2018


Aos 17 anos, rato de biblioteca, peguei um livro fininho porque assinado pelos tradutores Augusto e Haroldo de Campos, o Finnegans Wake de James Joyce. Tentei ler mas me agastei com a narrativa cujo personagem onipresente, em cada linha, é a própria linguagem, in-explorada: explorada por dentro e por fora, as palavras relacionando-se cada uma com a anterior e a seguinte, como na linguagem usual, mas também relacionando-se consigo mesma, como é próprio dos neologismos. Com a palavra nonada (contração de “não é nada”) Guimarães Rosa começara seu romancépico Grande Sertão: Veredas, também intra-expressivo até pelos dois pontos já no título, e aquilo me encantara.

Mas Finnegans Wake, embora também escrito poeticamente, tinha um exibicionismo erudito que entediava. Ali me prometi que aquele era o tipo de literatura que eu n-ã-o queria fazer, dirigida prioritariamente para a própria literatura, a cultivar metalinguagem, arte a falar de si mesma.

Entretanto fui surpreendido pelo final, que repetia o começo, como cachorro rodando a morder o próprio rabo. Essa “circularidade” da obra, a que os teóricos dão tantos significados, embora nenhum realmente significativo a não ser para a própria teoria literária, ficou na minha cabeça. Embora a circularidade indique uma visão de mundo repetente, ao contrário de evolutiva, pensei que poderia também indicar evolução caso o final repetidor do começo carregasse de novos significados as mesmas palavras.

É o que acontece em Mulheres Esmeraldas. O sujeito começa obcecado por escrever um romance, meta a atingir, mais penosa porque carregando a amargura de mal sucedida tentativa anterior. Durante o romance fracassa mais uma vez mas, depois de se entregar aos acasos e imprevistos, mudar de país e de vida, sepultar o garanhão emocionalmente estéril para conhecer o amor e até a paternidade, afinal pensa se isso não poderá ser história para romance. A meta cedeu aos fatos, a obcessão tornou-se paixão, o macho se tornou homem. Então é um romance que começa com a palavra romance e termina de fato em romance.

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Mulheres Esmeraldas é o novo livro de Domingos Pellegrini e foi publicado pelo selo Gutenberg.

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