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Saiu na Mídia - Estado de Minas - "Crônica de Papudópolis"

26/12/2009 — Angela Faria, Jornal Estado de Minas

Romance de Beatriz de Almeida Magalhães, Caso oblíquo revela, por meio de personagens emblemáticos, os primeiros anos da construção da capital

As irmãs Bertha e Marguerite de Jaegher, que moraram no arraial de Curral del Rey durante a construção de Belo Horizonte
Beatriz de Almeida Magalhães transportou a metrópole de seus estudos de arquitetura para a ficção literária. Autora de Belo Horizonte: um espaço para a República, Belo Horizonte: o barroco e a utopia e A formação da cidade, arquitetura da modernidade – livros e ensaios lançados pelas editoras da UFMG e da PUC Minas –, agora Beatriz dá voz à gente de carne e osso que viveu no antigo Curral del Rey a partir de 1894, durante a construção da capital. No romance Caso oblíquo (Autêntica) pode-se ouvir o vigário da freguesia, padre Francisco Martins Dias, e a jovem Bertha De Jaegher. Ambos figuras emblemáticas do melting pot da proto-Beagá: ela, imigrante belga bem-nascida; ele, negro humilde que teve a sorte de estudar em seminário no Brasil pós-abolição.

Ainda hoje, o padre é praticamente desconhecido dos belo-horizontinos. Em 2 de fevereiro, ele permitia que congadeiros louvassem Nossa Senhora dos Navegantes dentro da Igreja da Boa Viagem – não a atual, mas o antigo templo colonial destruído no início do século 20. Em artigo no Minas Geraes, ilustre figura do arraial considerava o sacerdote negro “sem os dotes necessários para fazer a transição de povoação insignificante em importantíssima capital”. Responsável por um dos jornais em circulação no povoado, padre Martins Dias era, na verdade, politizado pastor de almas.

“Os governantes positivistas, respaldados por jornalistas positivistas, contrataram engenheiros, arquitetos, fotógrafos, técnicos, médicos, sanitaristas, funcionários, empreiteiros, todos positivistas. Embora republicano confesso, não professo nem rezo no catecismo de Comte, com base no qual abusam da ignorância dos operários, tendo todavia de engolir o anarquismo dos italianos”, desabafa ele nas páginas de Beatriz Magalhães.

Erguido contra interesses ouro-pretanos e juiz-foranos, em breve o povoado se transformaria na capital planejada, símbolo republicano. Lugarejo enlameado durante as chuvas e castigado pela poeira na seca, foi apelidado jocosamente de Poeirópolis, Papudópolis (por causa do bócio) e – pior – de Cretinópolis. Ali, trabalhadores pobres, imigrantes recém-chegados ao Brasil, aventureiros e mulheres da vida se misturavam aos doutores da Comissão Construtora da Nova Capital. Ainda não havia a Avenida do Contorno para separar essa gente…

Dedicada pesquisadora, a arquiteta e doutora em letras Beatriz Almeida Magalhães conduz o leitor pela história. Encerrado o último capítulo da ficção, a autora faz seu protesto no post scriptum: sumiram com a maquete que, até meados da década de 1990, podia ser visitada no Museu Histórico Abílio Barreto. Trata-se de “documento tridimensional fidedigno, único e insubstituível do arraial destruído para a ereção da cidade”, escreveu ela em carta enviada à direção da instituição, até hoje sem resposta.

Presente, passado e futuro Ficção e realidade se misturam no romance. Capítulos de Caso oblíquo dialogam com notícias, crônicas e versos transcritos de jornais da época – A Capital, Bello Horizonte e Diario de Minas, entre eles. Em certo momento, ouvimos Bertha; em outro, as palavras do padre republicano; mais adiante, aparece o pai da moça, às voltas com a vidinha provinciana: “Viver sem luz elétrica, vá lá. Sem o piano, as noites são lamentáveis”. Celebrações da semana santa, entrudos momescos, o vaivém da trepidante locomotiva, as batidas do relógio da matriz e aguaceiros intermináveis se alternam no povoado.

“Cidade isto? Será quando muito uma aldeia de ruas tortuosas, com um calçamento impossível, de pedras roliças, de pedras pontiagudas, constituindo o desespero dos meus calos”, desabafa um articulista (real) do Bello Horizonte. “A câmara organizou posturas; mas qual! Cada um faz o que quer, e o lixo das casas amontoa-se por ahi afóra, e os bacorinhos e cabritos pascem às soltas”, prossegue ele, para concluir: “Deus meu! Que immenso bocejo que isto é!”.

Na capa interna de Caso oblíquo pode-se ver a bela foto das irmãs De Jagher, Bertha e Marguerite. As moças europeias vieram morar no arraial acompanhando o pai, Frédéric Guilhaume, importante fornecedor de materiais de construção, como as escadarias em ferro do Palácio da Liberdade. Inicialmente entediada, aos poucos Bertha vai se encantando pelas novidades brasileiras. Diverte-se nas procissões da semana santa, aprecia espetáculos da companhia dramática Cardoso da Motta no Teatro Provisório.

Bertha poderia até ser feminista, se tivesse vingado em Papudópolis. Gostou de Inocência, do Visconde de Taunay:“Ele é pelas mulheres!”. Escreveu ao irmão, aconselhando-o a se dedicar à literatura humanista para se dar bem com “mulheres que não se conformam em ser apenas bibelots” . Triste destino o da bela moça: morta de tifo, virou imbróglio político. Como admitir, publicamente, que a proeza arquitetônica das Américas trouxesse o mal encubado em seu moderno traçado?

A nova capital pôs abaixo o antigo povoado e seu casario colonial. Demoliu o passado, mas não conseguiu fazer vingar a utopia comteana. Nem ordem, nem progresso para todos. Erguida no fim da década de 1890, a sepultura de Bertha é profética metáfora – e não só das utopias literárias de Beatriz Magalhães. Até hoje, pode-se ver o jazigo no Cemitério do Bonfim. Oblíqua, a tumba desafia o rígido jogo de xadrez das ruas da metrópole.

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