O fascínio de "Mrs Dalloway"

03/03/2012 — Mariana Lage, Jornal O Tempo

“Mrs Dalloway disse que ela mesma ia comprar as flores”. Assim começa o romance “Mrs Dalloway”, publicado originalmente em 1925 e que consagrou o estilo próprio e inovador da escritora britânica Virginia Woolf.

Mas quem é essa Mrs Dalloway e que fascínio ela exerce para que, a partir de uma ação corriqueira como comprar flores ou dar uma festa, nós sigamos seus passos da primeira à última linha?

O carisma desse personagem que serve de título ao primeiro grande romance de Woolf talvez reflita o próprio deslumbramento que a autora exerce sobre uma geração de leitores – sejam eles críticos, escritores ou gente como a gente. Pois não são poucos os filmes, as músicas e os livros, – críticas ou romances, biografias ou ensaios – que tomam a personagem como ponto de partida.

No ano em que se completam 130 anos de nascimento da escritora e num momento em que toda sua obra entra em domínio público, é de se esperar que essa fascinada produção artística em torno de Virginia Woolf aumente ainda mais.

Este é o caso da publicação recente de “Mrs Dalloway” pela editora Autêntica. A edição, bem cuidada graficamente e enriquecida com textos críticos do tradutor e por uma introdução da própria escritora, apresenta dois volumes em um estojo: o primeiro é o romance propriamente dito e o segundo, uma espécie de livro de anotações que recebeu o nome de O Diário de Mrs Dalloway e é uma versão estilizada dos muitos diários mantidos por Woolf, recheado de ilustrações de Mayra Martins Redin, de escritos da própria autora e de páginas em branco para serem preenchidas pelo leitor.

Como explica o professor Tomaz Tadeu, responsável por essa nova tradução, o objetivo foi produzir um livro diferente das demais edições existentes no mercado, que fosse um verdadeiro objeto de desejo.

“Creio que, nesta era de literatura digital, o futuro do livro impresso está justamente em reforçar os seus aspectos sensuais, as suas características de objeto a ser visto, contemplado, tocado, manuseado. E ‘Mrs Dalloway’ era uma boa oportunidade para essa experimentação”, diz.

Além dos aspectos sensoriais, defende Tadeu, o cuidado com a edição se mostra no interior do livro, a começar pela abundância de notas. Em especial, chama a atenção “o detalhe de começar o livro não com os textos adicionais, mas diretamente com o texto do romance: o leitor entra imediatamente no romance”, como explica Tadeu.

Em síntese, o enredo descreve um dia de verão de 1923, entre as 10 da manhã à meia-noite: o dia em que Clarissa Dalloway dará uma de suas típicas festas. A partir de sua decisão de sair e adquirir as flores que enfeitarão seus salões, somos levados a flanar entre as ruas e os parques de Londres, vagando entre o fluxo de pensamento dos personagens e as ações e os acontecimentos de uma metrópole após o fim da Primeira Guerra Mundial.

Inovações dos moldes. E é esse fluxo e flanagem que dão o ritmo de leitura: um livro em que Virginia Woolf se dedica a romper com os padrões do romance tradicional e em que apresenta os personagens como são internamente, num emaranho de sentimentos, emoções e lembranças. Com essa nova maneira de narrar, Woolf adentra no time de escritores modernistas como James Joyce e T. S. Eliot.

Como ela descreveu em seus diários, trata-se de um processo de saturar cada átomo, de mostrar o momento inteiro, de cavar túneis mentais através dos quais, aos poucos, ela pode narrar o passado de cada personagem.

“Cavo belas galerias por detrás de meus personagens: penso que isso dá exatamente o que quero; humanidade, humor e profundidade”. Como anotou Woolf posteriormente, essa foi sua principal descoberta como escritora até aquele momento. E é nessa descoberta que reside uma das inovações introduzidas por Woolf nos moldes do romance tradicional, como explica Tadeu.

“A corrente ininterrupta da consciência é mimetizada por uma sintaxe feita de períodos longos interrompidos por ponto-e-vírgula, por uma sintaxe feita de intercalações, bem como por uma estrutura narrativa que passa quase imperceptivelmente da consciência de um personagem para a de um outro, do nível do ato e da fala para o nível da consciência e do pensamento”, descreve o tradutor.

“A vida da consciência é uma vertigem, é uma trama sem muito nexo. O estilo de Virginia vai atrás (ou junto): é uma vertigem só. É preciso se segurar para não cair. Ou se perder”, complementa.

ROMANCE

Virginia entre vida e obra

Mariana Lage

Durante grande parte de seu processo de escrita, Virginia Woolf se referia ao livro “Mrs Dalloway” pelo título “As Horas”, em referência ao tempo dilatado experimentado pela consciência humana. Um detalhe interessante do romance está na presença constante e pontual do Big Ben marcando as horas. Além de tratar dessa distensão através do fluxo de consciência, o livro fala também da passagem do tempo sobre a vida humana.

Clarissa Dalloway é uma senhora bem nascida e bem casada que está com 52 anos. Seu namorado de juventude, Peter Walsh, também na faixa dos 50, reaparece depois de três décadas vivendo na Índia. Sua amiga e paixão platônica de juventude, Sally Selton, ressurge na vida de Clarissa no mesmo dia de sua festa. A presença deles detona ainda mais o processo de revisão do passado, de divagar sobre as escolhas feitas e as vicissitudes de
amadurecer.

Assim como trata da passagem do tempo, o livro também aborda a temática da morte. Como escreveu Woolf em seus diários, “quero apresentar a vida e a morte, a sanidade e a insanidade; quero criticar o sistema social, e, mostrá-lo em funcionamento”.

Além de Sally e Peter, há ainda outro personagem importante na trama, Septimus Warren Smith, um sobrevivente de guerra que escuta vozes, delira com o amigo morto em combate e se ausenta do mundo externo. Como explica o tradutor Tomaz Tadeu, há uma relação entre os delírios do personagem e os delírios da autora. “Fascina-me, sobretudo, o personagem de Septimus, talvez por ver na esquizofrenia dele a esquizofrenia da própria Virginia. E os esquizofrênicos são videntes, não é mesmo? E Virginia era, sem dúvida, uma vidente”, explica.

Quanto à proximidade entre arte e vida, Woolf escreveu sobre a possibilidade de o leitor encontrar no romance “uma revelação da verdade que está por trás dessas imensas fachadas de ficção”. Para Tomaz Tadeu, é possível sim ler muito de Virginia em suas obras. “Creio que, independentemente de qualquer teoria literária, fazer essa relação é algo a que o leitor tem direito”.

SURPRESA

Mrs Dalloway em outras histórias

Desentendimentos amorosos, intimidade e uma festa formam também o pano de fundo do segundo livro do aclamado escritor francês Grégoire Bouillier. Mais conhecido por ser o autor da carta de rompimento com a qual a artista contemporânea Sophie Calle produziu a monumental obra de arte “Cuide de Você”, o escritor coloca no centro da narrativa de “O Convidado Surpresa” a festa em que ele conhece Calle, em 1990.

Até aí, nada que não tenhamos já presenciado na mídia sobre revelação da intimidade de celebridades. Contudo, tendo o leitor avançado sobre os relatos das dores de cotovelo do escritor, num ritmo que acompanha o fluxo de consciência, eis que surge uma surpresa: uma frase tirada do romance “Mrs Dalloway” que muda todo o sentido do livro, o que o torna surpreendente e justifica a excelente recepção que recebera na época de seu lançamento, em 2004. (ML)

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