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Ângela Mucida fala sobre sexualidade e velhice em entrevista ao Estado de Minas

03/09/2007 — Jornal Estado de Minas, Caderno Bem Viver

Psicanalista, autora do livro O sujeito não envelhece – psicanálise e velhice, lançado pela Editora Autêntica, Ângela Mucida é professora e coordenadora da especialização em saúde mental e psicanálise do Centro Universitário Newton Paiva. Em entrevista ao Bem Viver, ela fala sobre a relação entre sexualidade e terceira idade e aponta caminhos para uma velhice sábia.

Quais são os maiores problemas enfrentados pelos idosos no Brasil, tanto nos aspectos sociais quanto emocionais?

A maioria dos problemas sociais dos idosos de classes pobres difere-se daqueles com algum poder econômico, mesmo que para ambos persistam formas de segregação e desvalorização. A segregação, solidão e isolamento, que muitos idosos enfrentam, provocam estados depressivos, dificuldade de tratar as perdas e de fazer laços sociais. A dificuldade de inserção social, no mercado de bens sociais, os efeitos da desigualdade na distribuição de renda, a fome e as doenças, somando-se não raramente à violência familiar, agravam o forte sentimento de desamparo presente tantas vezes na velhice. Nos últimos anos, avançamos, sem dúvida, em relação à política pública e aos direitos dos idosos, mas elas não os tornam uma única classe social, política e econômica. Alguns se encontram ainda sob um estado de total pauperização e outros se situam nas trocas culturais, têm apoio familiar e não dependem de ações públicas para a sobrevivência. Os destinos de uns e de outros não se igualam.

A relação sexual entre casais idosos é reduzida? Por que isso ocorre ou é um mito?

Não há como negar que, com o passar dos anos e, principalmente, na velhice, a tendência é a redução das relações sexuais no sentido da performance encontrada, sobretudo, na adolescência. Mas devemos problematizar um pouco a questão. Se o que estrutura a relação de cada sujeito com seu desejo, seu objeto e escolha sexual é a fantasia e se ela e o desejo se sustentam de forma cada vez mais complexa com o passar dos anos, não é difícil imaginar seu papel nas mudanças das relações sexuais. Sem desconhecer as modificações inevitáveis que incidem no corpo, a fantasia e o desejo se sustentam para além do real do corpo. Isso implica ainda que a anatomia não pode explicar por que também muitos jovens se abstêm de relações sexuais. O modo de expressar o desejo e a sexualidade modifica-se com o tempo, pois os investimentos e valores também mudam. Dessa forma, não é a velhice que determina a ausência do desejo ou a diminuição das relações sexuais, mas é a própria complexidade do desejo que impõe novas cores para tecer a sexualidade na velhice. Diria que o mito é pensar que o desencontro sexual e amoroso seja apanágio da velhice. Ele permeia nossa vida cotidiana e isso não é por falta de relações sexuais efetivas. A “redução” das relações sexuais não indica por si só muita coisa.

Como você vê o surgimento e o sucesso comprovado dos estimulantes sexuais visando à performance do homem na cama e os efeitos dessas drogas no comportamento sexual da terceira idade?

“Todo casal espera por uma relação amorosa na medida em que envelhece. Adicione um pouco de sexo no caminho e não tem como ficar melhor que isso” …Sue Johansson, terapeuta sexual e enfermeiraO sucesso advém da idéia de que eles apagariam todas as dificuldades dos encontros sexuais não apenas para idosos, já que essas drogas são atualmente mais consumidas por pessoas entre 18 e 45 anos. Aumenta-se a perfomance, mas isso não implica por si só um bom encontro sexual. O Brasil é o segundo país que mais consome esses estimulantes e, de acordo com dados de uma recente pesquisa, apresenta a maior taxa de insatisfação feminina em relação aos encontros sexuais. Tais estimulantes não podem acordar o desejo, a libido nem atuam sobre a fantasia. Aqui o aumento desenfreado das relações sexuais entre idosos provocou na última década um aumento de 98% de infecção pelo vírus da Aids em homens acima de 50 anos. A promessa de um gozo sem limites oferecido a todos, não muda a posição dos idosos diante do sexo; eles não pertencem à geração marcada pela Aids e não concebem a necessidade do uso de camisinhas. Há mudanças nos comportamentos, há respostas rápidas diante da oferta de “pílulas milagrosas”, sem mudanças na posição de cada um diante de seu desejo e sua forma de conduzir a falta. Se para alguns esses estimulantes podem ser uma saída para algum impedimento sexual, a prescrição desses medicamentos não pode ser globalizada. Eles não tratam alguns de seus efeitos, não apagam a falta do amor, os desencontros que sempre persistem entre os parceiros, a frustração, a inibição, depressão, angústia e outros sintomas com os quais os sujeitos continuam a responder àquilo que nenhum medicamento pode por si anular.

Em seu livro, você analisa a velhice do ponto de vista da psicanálise. Quais são as principais conclusões contidas na obra?

A primeira é que o sujeito não envelhece, mesmo que exista a velhice. Há traços, marcas inscritas em cada um que jamais se perdem com o tempo e algumas jamais se modificam. O desejo e a libido também não envelhecem e a sexualidade do idoso, como a adulta, é marcada por traços da sexualidade infantil. A velhice não pode ser também pensada fora do contexto histórico, político e econômico no qual se situa. Ela é um efeito dos discursos, seja o da cultura, seja dos diversos saberes, mas a forma de responder a esses efeitos é sempre particular. Não existe velhice sem o trabalho de luto, já que o envelhecimento implica também perdas inevitáveis, impondo a construção de um saber sobre o que se perde. Implica suportar que algumas coisas deixarão de existir da forma que existiam e há que se vestir o desejo com outras roupagens. Por fim, sendo um momento no qual o sujeito é confrontado com mudanças que tocam seu narcisismo, o desamparo fundamental e a relação com o outro, concluí, por minha experiência clínica, que a psicanálise é um dos dispositivos abertos à construção de um saber particular como forma de tratar o real aí presente.

O brasileiro está preparado para envelhecer?

Se do ponto de vista social, político, econômico, previdenciário, médico ou outros é possível se preparar para a velhice, subjetivamente ela vem como um ponto que nos escapa ou pela surpresa. Quando envelhecemos? Vemos facilmente a velhice dos outros, mas é difícil percebermos a nossa própria velhice, exatamente por ela se processar muito lentamente, passo a passo. Isso contrasta muitas vezes com nossa inserção na cultura atual. Envelhecer atualmente não é fácil, mesmo com todo o desenvolvimento científico e tecnológico, já que há o privilégio do novo, do mercado e das relações com os objetos em detrimento da história, experiência, transmissão de saber e trocas entre gerações. O mercado acolhe a velhice como uma nova parcela de consumidores, mas tentando negá-la, apagar seus traços ou tudo aquilo que nela possa fazer furo à satisfação prometida pelos objetos, até mesmo pela bandeira dos “sozinhos e satisfeitos”. Quer dizer que somos convocados a responder a tudo isso, com nossa diferença, buscando amar nossos traços, encontrar formas singulares de continuar a escrever nossa história, apropriando-nos daquilo que a cultura pode nos trazer de ganho, sem nos escravizar sob seus ditos. Só assim podemos conduzir o inesperado e o ponto perdido de nossa velhice e com eles escrever sempre e ainda.

63% dos homens e 30% das mulheres, entre 80 e 102 anos, são sexualmente ativos. (Pesquisa citada no livro Sexuality in the elderly, de F.E. Kaiser, 1996).

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