Tradutor explica desafios de transpor Virginia Woolf ao português

Tomaz Tadeu/Folha de S.Paulo - Publicado na categoria Saiu Por Aí em 02/10/2018


Imagem: Reprodução

Texto originalmente publicado na Folha de São Paulo em 23/05/2018.

Ao Farol foi minha segunda tradução de Virginia Woolf. Antes, assim que suas obras estavam para entrar em domínio público (2012), havia traduzido “Mrs. Dalloway”. Apesar de minha experiência no ofício (com uma variedade de textos acadêmicos), aquele foi meu primeiro mergulho na arriscada aventura da tradução de narrativas.

Quem lê literatura em tradução fica com a impressão de que traduzir é um trabalho relativamente simples. Basta ao tradutor (ou à tradutora) ter conhecimento razoável da língua de origem e um bom domínio de sua própria língua. Sua única tarefa consistiria em passar o que está escrito num idioma para o outro.

O tradutor, nessa visão, é um mensageiro —que some na sua insignificância de simples intermediário. O tradutor é um mensageiro invisível. Além de mal pago, claro.

A tarefa, contudo, é muito mais complexa. Para começar, no centro do ofício está a linguagem. E a linguagem, mesmo a do cotidiano, mesmo a de uso utilitário, nunca é mero veículo, neutro e transparente, de uma mensagem. A linguagem é a mensagem. Ou, inversamente, a mensagem é a linguagem.

Para além de sua camada imediatamente visível, aparente, a linguagem está carregada de história e subjetividade. Da história do mundo e das gentes, da história individual. Da subjetividade de que somos singularmente constituídos e que faz de cada um de nós um falante da língua materna diferente de qualquer outro. A linguagem, escrita ou falada, solene ou coloquial, literária ou instrumental, é uma marca, um sinete, uma assinatura.

A linguagem não se confunde com a língua. A língua é código, a linguagem é trama. A língua é lei, a linguagem é transgressão. A língua é ordem, a linguagem é revolta. A língua é sólida, a linguagem é líquida.

Se a linguagem, em geral, é subversão, a linguagem da literatura, em especial, é a subversão por excelência. O romancista (ou a romancista), para ficarmos apenas no terreno da narrativa, não utiliza a linguagem de forma instrumental, transparente, neutra, para contar uma história.

A manipulação da linguagem para obter efeitos de significação está no centro da narrativa. Narrativa (significado) e linguagem (forma) são indissociáveis.

Nisso, Virginia Woolf foi uma das grandes mestras do modernismo literário de língua inglesa. A linguagem e seus truques estão no centro de sua criação literária. Se perdemos isso, perdemos tudo.

Também por isso é tão difícil traduzi-la. É preciso, durante o processo tradutório, ficar atento a cada passe de mágica linguajeiro, a cada truque verbal, a cada efeito sonoro, visual ou imagístico.

Do lado de quem lê uma narrativa em tradução, é preciso a mesma sensibilidade às sutilezas do jogo linguístico. Para isso, é preciso que o tradutor tenha feito direito seu dever de casa.

Mas como sabê-lo, cara leitora, caro leitor? Na verdade, não há como, a menos que você seja capaz de cotejar a tradução com o original. Nesse caso, porém, você nem precisaria de tradução, não é mesmo?

Pode-se, entretanto, tentar adivinhar. O texto traduzido parece prosaico, banal, plano, sem surpresas verbais, como nos romances de segunda ou última categoria? É sinal de que quem traduziu procurou aplainar, achatar a linguagem, torná-la mais acessível. Ou simplesmente não conseguiu reproduzir a complexidade linguística do original.

Largue ligeiro o livro e vá em busca de melhor tradução ou, se não houver, leia, enquanto isso, alguma coisa de um bom escritor (ou escritora) nacional.

Ou, por outro lado, a leitura parece empacar, tropeçar, as palavras parecem não combinar direito, o trem da frase desencarrilha? Não há música, sonoridade, ritmo? Tudo soa dissonante e desafinado? Soa como se o tradutor não tivesse intimidade com o jogo da linguagem, com os jogos de linguagem?

Bom, nesse caso, você mesmo já deve ter deixado o livro de lado. Só não culpe o autor (ou a autora). A culpa, se estamos falando de alta literatura (sim, eu acredito nisso), é, provavelmente, de quem cometeu a tradução.

Nesses quase dez anos em que venho traduzindo Virginia, acho que posso dizer que entrei na sua intimidade, artística, literária. Pareço reconhecê-la em cada passagem, em cada torneio de frase, em cada imagem inesperada.

E é essa intimidade que me faz prestar a máxima atenção a cada palavra, a cada combinação de palavras, aos seus jogos sonoros e imagísticos.

Gasto, em cada livro, de um a dois anos. Leio, paralelamente, os seus diários, as suas cartas e toda a literatura crítica em que consigo meter a mão, nas línguas que conheço, sobretudo, em inglês, sobre a obra que estou traduzindo.

É um trabalho difícil, duro, agonizante. Às vezes, tenho vontade de largar a tarefa no meio do caminho. Ou já no começo, como ocorreu, recentemente, com “O Quarto de Jacob”, o livro que acabei de traduzir e que sairá, ainda este ano, pela Autêntica Editora.

Mas é também um trabalho gratificante, rico, gostoso. Amo essa mulher.

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Tomaz Tadeu, 70, bacharel em matemática, é tradutor.

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