'Lacan, de verdade', na Revista Filosofia – Ciência & Vida

04/05/2012 — Lucas Mello Carvalho Ribeiro, Revista Filosofia – Ciência & Vida

Por Lucas Mello Carvalho Ribeiro

ESTILO E VERDADE EM JACQUES LACAN

A grande novidade com a qual a Psicanálise confronta toda a história
do pensamento anterior a ela é, sem dúvida, o conceito de inconsciente. Um inconsciente que, desde Sigmund Freud (1856-1939), não deve ser entendido apenas em um sentido adjetivo – referido a eventos mentais que permanecem aquém do limiar da consciência –, mas, principalmente, como uma instância psíquica regida por leis próprias.

Como já é bem sabido, essa descoberta freudiana revolucionou as concepções de sofrimento psíquico e de sexualidade até então vigentes. Mas há outro domínio do pensamento que, não obstante ter sido afetado nas mesmas proporções pelo “acontecimento-Freud”, não recebeu de imediato a devida atenção por parte dos psicanalistas. Refiro-me à questão da verdade – central à Filosofia desde seu nascimento –, que teve de esperar por Jacques Lacan (1901-1981) para ganhar um tratamento cuidadoso no interior do campo psicanalítico. E é precisamente sobre as formulações lacanianas acerca do estatuto da verdade que se debruça Gilson Iannini no seu Estilo e Verdade em Jacques Lacan.

Com efeito, o impacto da Psicanálise – disciplina que põe em xeque a transparência e a autonomia dos atos cognoscentes de todo sujeito – quanto à natureza da verdade e à possibilidade de sua formalização compõe o fio condutor da obra. Nesse âmbito, o autor identifica, na obra de Lacan, dois gestos complementares: (i) o de preservar, na contramão de boa parte da Filosofia Contemporânea, a pertinência da noção de verdade, doravante deslocada para manifestações em que a racionalidade comum costumava enxergar tão-somente erro e ausência de sentido (sonhos, atos falhos, chistes, etc.); (ii) o de recusar qualquer discurso que pretenda atestar proposicionalmente a verdade de um outro discurso exterior a ele próprio, ou seja, Lacan rejeita a existência de uma hierarquia linguística – determinada segundo critérios como uma maior ou menor univocidade semântica –, a partir da qual seria facultado a um “tipo linguístico” superior aferir a verdade ou falsidade de um enunciado de nível inferior (procedimento caro a diversos representantes do Positivismo Lógico). Esse segundo gesto constitui, em linhas gerais, a crítica lacaniana à metalinguagem, que, até a publicação do livro de Iannini, ainda não havia recebido um tratamento sistemático.

Ora, o diagnóstico dessa irredutibilidade da verdade a um saber positivo ou, em termos mais prosaicos, a impossibilidade de se dizer o verdadeiro sobre o verdadeiro terá importantes consequências no que concerne à formalização da verdade. Uma vez que a verdade não pode mais ser atestada por uma predicação estável, por uma instância judicativa que sentencia “isso é verdadeiro” a respeito de um enunciado objetivo já disposto, Lacan irá insistir, na esteira de G. W. F. Hegel (1770-1831), no caráter processual da verdade. Daí, para o psicanalista, a verdade ser indissociável de sua colocação em ato, de sua enunciação. Um enunciado qualquer não pode ser apartado da forma por meio da qual ele é colocado. Em suma, há uma imbricação entre dito e dizer, entre verdade e estilo – tese forte de Gilson Iannini, anunciada já no título de seu livro, obra de fôlego na qual o autor enfrenta questões e formulações extremamente complexas sem nunca ceder ao hermetismo e aos jargões que tantas vezes obstruem o acesso ao pensamento lacaniano.

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