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Vivina de Assis Viana

Houve um tempo, às vezes chamado de antigamente, em que as cartas precisavam ser levadas ao Correio. Dias, meses depois, costumavam chegar ao destino.Pertenço a esse tempo. O destino das minhas primeiras cartas era uma fazenda do interior mineiro, onde minha mãe as esperava com ansiedade. Queria saber da filha, criança, nem 9 anos, trancada em um internato de São João del-Rei.

Letra tímida, acanhada, a filha ia sempre bem, estudando, rezando, se alimentando, sonhando com o time de vôlei, privilégio de alunas maiores. De vez em quando, a letra da mãe, firme e uniforme, também chegava ao destino, dizendo que o mundo – pai, avó, Tiche, jardim, bichos, mangueiras, córrego – ia sempre bem.

Tantos paraísos se justificavam. Lidas anteriormente pelas freiras, as cartas que saíam do internato – e as que chegavam – só seriam enviadas ou entregues se o mundo abordado fosse cuidadosamente bordado.
Valeu, sempre vale. Fui aprendendo a ler e a escrever nas entrelinhas (minhas e alheias), exercício que segue me fascinando.
Neste livro, nós 4, não foi diferente. Ainda que tudo – correio eletrônico, ferramentas,cartas/mensagens/e-mails – ainda que tudo me indicasse que o tempo era hoje e
agora, em vários momentos me senti criança, nem 9 anos, procurando segredos em linhas e entrelinhas enviadas pelo João. Como se o tempo não tivesse passado, como se eu já não tivesse escrito alguns livros – O dia de ver meu pai, O mundo é pra ser voado, Ana e Pedro, O barulho de tempo, O jogo do pensamento, Os passarinhos do mundo, Será que bicho tem nome? –, como se não morasse em São Paulo há muito tempo, desde 1968.

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