Tradutor relata os desafios de transcrever Virginia Woolf para o português

01/03/2012 — Assessoria de Comunicação - Pluricom

Agora que a obra de Virginia Woolf (1882-1941) entra em domínio público, a Autêntica Editora apresenta ao público brasileiro uma nova tradução de um de seus mais importantes romances, Mrs Dalloway, em edição especial: dois volumes acondicionados em luxuoso estojo. A tradução é assinada por Tomaz Tadeu, que enriquece a edição com textos de sua autoria sobre a vida de Virginia Woolf e sobre a estética de sua ficção, além de abundantes notas e de um índice onomástico com informações sobre todos os nomes próprios (ruas, monumentos, personalidades) que aparecem no romance. Aqui, ele comenta sobre os desafios que enfrentou na empreitada, bem como sobre a importância da obra para a literatura ocidental.

Sobre o interesse na obra de Virginia Woolf

Virginia é uma paixão antiga. E quando se aproximava a data em que as obras dela entrariam em domínio público preparei-me para traduzir um dos romances dela pelo qual tenho mais amor, justamente Mrs Dalloway (o outro é Ao farol). Devo ter começado a tradução em meados de 2009. Foram mais de dois anos de noites e dias passados na companhia de Virginia e da Sra. Dalloway. Uma companhia muito agradável, devo dizer.

A importância de Mrs Dalloway para a literatura ocidental

Mrs Dalloway, publicado em 1925, pertence ao cânon da literatura modernista de língua inglesa. O romance assinala uma virada fundamental na estética literária de Virginia Woolf; na verdade, é o seu mergulho na estética modernista que ela iria desenvolver, daí em diante, em outros romances. O livro seguinte, Ao farol, é, na minha opinião, ainda melhor, mas todas as grandes qualidades de sua prosa e invenção já estão presentes em Mrs Dalloway. E esse livro importante tinha uma única tradução no Brasil, feita em 1946, pelo escritor gaúcho Mário Quintana, publicada em 1946, pela antiga Editora Globo, de Porto Alegre. É natural, pois, que, com a entrada em domínio público da obra de Virginia Woolf, Mrs Dalloway seja um dos primeiros candidatos a ganharem uma nova tradução. E, independentemente dos méritos ou deméritos de traduções anteriores, as traduções também envelhecem.

Desafios da tradução

A tradução do romance de uma escritora que concedia uma grande importância à forma da escrita apresenta, sem dúvida, um grande desafio ao tradutor. Mas, apesar das técnicas inovadoras de sua narrativa, Virginia não era propriamente uma radical da forma, como o seu contemporâneo James Joyce, por exemplo. Sob esse aspecto, a tradução não apresentou grandes dificuldades. Entretanto, uma de suas mais importantes inovações, sobretudo a partir de Mrs Dalloway, consistiu em focalizar muito mais a consciência dos personagens do que os seus atos ou falas, muito mais o que os personagens pensam do que o que fazem ou dizem. E para obter o efeito de interpenetração dos pensamentos dos personagens, o papel do chamado narrador (ou narradora, se quisermos) onisciente e neutro se torna quase invisível e sua fala se mistura quase que imperceptivelmente com a fala e o pensamento dos personagens. Para isso, ela usa e abusa, em Mrs Dalloway, do chamado discurso indireto livre. Talvez esteja aí um dos grandes desafios para o tradutor de Mrs Dalloway, o de perceber, na falta de marcadores mais explícitos, quando a fala ou o pensamento pertence ao narrador ou ao personagem. Espera-se do narrador (onisciente, neutro) que utilize uma linguagem formal, neutra, pouco marcada por características pessoais, de classe, de gênero, etc. Contrariamente, as falas e pensamentos dos personagens expressam as suas características pessoais, sociais, etc. Em outras palavras, a fala do narrador não é carregada ou idiomática como pode ser a de um personagem qualquer. Podemos tomar um exemplo do início do romance. Na primeira frase, “Mrs Dalloway disse que ela mesma ia comprar as flores.”, parece que escutamos o narrador contando em suas próprias palavras o que teria sido dito por Mrs Dalloway. Mas aquele “ela mesma” denuncia, na verdade, que se trata, ao menos em parte, da linguagem da própria Mrs Dalloway. Essa contaminação da fala do narrador pela fala do personagem narrado (Mrs Dalloway, neste caso) fica mais evidente na segunda frase: “Pois Lucy estava cheia de serviço.” [Em inglês, “For Lucy had her work cut out for her.”] Embora a frase, pela forma, pareça pertencer inteiramente ao narrador, a utilização de uma expressão que extrapola o registro formal da linguagem (“estava cheia de serviço” ou o seu equivalente em inglês) acusa a invasão da fala do narrador pelo idioma linguístico do personagem. Este é certamente um dos grandes desafios da tradução de um romance como este: não neutralizar as expressões linguísticas próprias dos personagens, assimilando-as ao registro formal e neutro do narrador.

Ritmo e vertigem do texto original

Um outro desafio consiste em tentar reproduzir em português o ritmo e a vertigem do original. Tentar reproduzir as características poéticas de uma prosa cheia de aliterações e de rimas internas, de uma prosa feita de frases de tirar o fôlego. Neste caso, o tradutor, na minha opinião, tem de ser mais fiel ao som do que ao sentido, mais fiel ao ritmo do que à precisão semântica. Apenas para dar um exemplo, se, na tradução do nome de uma flor tiver que escolher entre o som ou o colorido da linguagem e a exatidão botânica, eu fico com o som ou o colorido, desde que, naturalmente, a exatidão botânica não seja relevante. Assim, na p. 15 da minha tradução, há um “brinco-de-princesa” que não corresponde exatamente, em termos botânicos, à flor do original. Mas como casa com os sons ao redor! Imagino, pretensiosamente, que Virginia, que dizia amar mais as palavras que qualquer outra coisa, teria aprovado. (Tive, naturalmente, o cuidado de verificar se “brinco-de-princesa” poderia ser uma flor que pudesse existir na Inglaterra da época.)

Registro de época em outro idioma

Um dos critérios de uma boa tradução consiste, na minha opinião, em tentar produzir no leitor do idioma de chegada, na medida do possível, uma impressão semelhante à que teria o leitor do idioma de partida. Ou, para expressar a mesma coisa em outros termos, a tradução é boa se o leitor tem a impressão de que o texto foi escrito, originalmente, em sua própria língua. Por outro lado, paradoxalmente, quando se trata de obra de ficção, o leitor também não pode ser levado a esquecer que se a língua é, por assim dizer, transplantada, o mesmo não acontece com o local, o cenário, etc. Assim, no caso de Mrs Dalloway, embora o texto traduzido esteja em português, tudo se passa na Londres da segunda década do século XX. E, embora Virginia esteja preocupada sobretudo com o que se passa na mente dos personagens, ela não descuida a descrição do cenário exterior. Ela chega a ser minuciosa quanto a isso. E no caso de Mrs Dalloway, que ela situa num período de transformações radicais em todos os setores da vida, podemos apreciar sinais evidentes de uma passagem de época, simbolizada, por exemplo, na convivência nas ruas de Londres entre os veículos movidos a tração a animal e os veículos motorizados. Uma cena central em Mrs Dalloway é o espetáculo de um avião que escreve o nome de um produto comercial nos céus de Londres. (A propósito, a imagem do avião que estampa o estojo desta edição do romance inspira-se exatamente nessa cena, fugindo do clichê da flor ou da figura de mulher que, em geral, ilustra as capas de muitas edições do romance.) “Motor car” é a palavra utilizada por Virginia para se referir aos veículos motorizados, distinguindo-os claramente dos veículos a tração animal. Creio que isso era necessário preservar na tradução. Poderia traduzir simplesmente por “carro” ou por “automóvel”. A primeira, entretanto, não faz a distinção entre os dois tipos de veículos, enquanto na segunda, a distinção, embora presente na palavra, se perde na composição da palavra. Assim, preferi traduzir por “carro a motor” justamente para conservar a distinção e o estranhamento do original. (Mas, para não carregar o texto, às vezes abreviei para “carro”, quando me pareceu que a distinção já estava bem estabelecida.) O mesmo poderia dizer da palavra que Virginia usa para descrever o seu avião escrevente: “aeroplane”, que traduzi, obviamente, por “aeroplano”, justamente para manter a estranheza do original que se perderia se a traduzisse simplesmente por “avião”. Há, evidentemente, outros casos em que a transposição se torna difícil ou impossível. É preciso humildemente saber reconhecer os limites de uma tradução.

Marco estético

Mrs Dalloway foi a primeira tentativa bem-sucedida de Virginia de criar uma obra de ficção de acordo com uma nova estética, com a estética da qual andava à procura durante muitos anos. Nesse sentido, pode-se dizer que Mrs Dalloway está justamente no meio de seus experimentos literários. Antes dela, temos A viagem (1915), Noite e dia (1919) e O quarto de Jacob (1922): os dois primeiros constituem narrativas bastante tradicionais; o último pode-se considerar como uma primeira tentativa de inaugurar uma nova estética, mas que ela própria não considerava inteiramente bem-sucedida. O seu romance seguinte, Ao farol, constitui, pode-se dizer, um aperfeiçoamento da estética inaugurada com Mrs Dalloway. Depois disso, ela dá o seu passo mais radical com As ondas (1931), volta à narrativa tradicional com Os anos (1937), e retoma, de certa forma, a estética narrativa de Mrs Dalloway e Ao farol, com o romance póstumo Entre os atos (1941).

Temática da loucura

Mrs Dalloway lida com temas que estão, de certa forma, no centro da vida e paixão da própria Virginia, como a loucura, a cisão entre as paixões e os ideais da juventude e o conformismo da vida adulta e as convenções do casamento, e o amor homossexual. A obra de ficção de Virginia está, toda ela, entremeada, com a sua própria vida. Mas é possível vê-la mais claramente, eu diria, em Mrs Dalloway: aí ela é Clarissa Dalloway, aí ela é Septimus Warren Smith, aí ela é Sally Seton.

Sobre o tradutor – Tomaz Tadeu da Silva é Ph.D. em Educação pela Stanford University (1984). Atualmente é professor colaborador do Programa em Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. É autor de diversos livros e tradutor de obras clássicas como Ética, de Spinoza, O Pintor da Vida moderna, de Charles Baudelaire, da qual também assina a concepção e organização com Jérôme Dufilho, Meu coração desnudado, de Charles Baudelaire, Manual do dândi – A vida com estilo, de Charles Baudelaire, Honoré de Balzac e Barbey d’Aurevilly, Alfabeto, de Paul Valéry, Rabiscado no teatro, de Stéphane Mallarmé, O casaco de Marx, de Peter Stallybrass, Os últimos dias de Immanuel Kant, de Thomas De Quincey e O panóptico, de Jeremy Bentham, da qual também foi o organizador.

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