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'Seremos cada vez mais controlados e cada vez menos livres', diz autor de 'Naufrágio das civilizações' (O Globo)

12/05/2019 — Fernando Eichenberg - Especial para O Globo

Amin Maalouf traça um retrato sombrio do mundo com aumento da violência provocada pelas afirmações identitárias, expansão dos populismos e da vigilância

PARIS – O título do mais novo ensaio do escritor Amin Maalouf, lançado recentemente na França, não deixa dúvidas sobre seu diagnóstico do estado atual do mundo: “O naufrágio das civilizações” (Grasset). Em considerações históricas entremeadas de testemunhos pessoais, suas palavras descrevem as sociedades ocidentais e árabes em um quadro sombrio de desintegração, com o aumento da violência provocada pelas afirmações identitárias, a expansão dos populismos, o fracasso do projeto europeu, o egocentrismo americano e a ausência de um sistema internacional capaz de indicar um rumo a um planeta sem bússola. “O mundo, hoje, se assemelha a uma selva”, diz, em conversa com O GLOBO na capital francesa.

Nascido no Líbano, em 1949, Maalouf viveu também no Egito e emigrou para a França em meados dos anos 1970, ao eclodir a guerra civil em seu país natal. Reconhecido romancista, foi laureado em 1993 com o maior prêmio literário francês, o Goncourt, pela obra “O rochedo de Tânios”, e eleito para a Academia Francesa de Letras em 2011. Suas análises também foram recompensadas: em 1999, recebeu o Prêmio Europeu do Ensaio pelo livro “As identidades assassinas”.

Por que o senhor diz que estamos vivendo o naufrágio das civilizações?
Um dos elementos do naufrágio é o aumento das violências ligadas às afirmações identitárias, principalmente a partir dos atentados de Nova York (2001), que fizeram derrapar nossa civilização para um “desvio orwelliano”. George Orwell (escritor britânico, autor de “1984”) descreveu um mundo no qual seríamos vigiados constantemente, e pensava que isso viria de uma tirania de tipo stalinista. Na verdade, ocorreu de outra forma: o medo suscitado pelos ataques terroristas, e também pelo fenômeno migratório, criaram uma necessidade de proteção que o desenvolvimento tecnológico possibilitou traduzir de uma maneira monstruosa. Seremos cada vez mais controlados e cada vez menos livres. Outro elemento do naufrágio é que não soubemos construir uma ordem internacional que funcione. O mundo se assemelha a uma selva. O país que poderia representar um elemento de estabilidade, e que não protagoniza mais esse papel, são os Estados Unidos. A Europa poderia tê-lo substituído nessa função, mas não soube se dar os meios para isso. E, hoje, assistimos ao começo de uma nova corrida às armas, em um quadro internacional sem controle. O presidente americano, Donald Trump, não quer mais acordos sobre armamento. É evidente que países como China, Índia, Rússia, Irã, Paquistão, Israel, França e as duas Coreias vão participar dessa corrida armamentista, e não sabemos aonde isso vai dar. Devemos ser lúcidos, não podemos tapar os olhos, o mundo não vai bem e existem desvios políticos e morais.

Uma de suas maiores tristezas é o fracasso do projeto europeu…
A Europa é a região que tem a capacidade de produzir um modelo para a Humanidade, e a ideia no pós-Segunda Guerra Mundial ia neste sentido. Me entristece por não se ter ido até o fim deste raciocínio e ambição. Não se ousou construir os Estados Unidos da Europa. Uma Europa integrada, capaz de protagonizar um papel como entidade, poderosa no cenário mundial. Houve sempre uma hesitação entre uma Europa federal e uma zona de livre comércio. E por falta de coragem política, se postergou a decisão. Nos encontramos com essa via praticamente cortada. Além do Brexit — que tenho a esperança de que ainda seja revertido —, há um recuo do espírito europeu em muitas sociedades que antes nem questionavam isso, como a holandesa, a dinamarquesa ou a italiana. Vemos, hoje, um risco real de ver o projeto europeu desmoronar.

Como os movimentos populistas crescem neste contexto?
O populismo acompanha essa afirmação identitária, que se quer simplificadora. Há na Europa uma forma de populismo ligada a um ceticismo em relação ao projeto europeu. É também algo ligado, em certas sociedades, ao enfraquecimento dos partidos tradicionais. É um fenômeno vasto, que assume diferentes formas, e indubitavelmente inquietante da época que vivemos. Na Índia, há o Partido do Povo Indiano (BGP, na sigla em inglês), hoje com um discurso claramente nacionalista, marginalizando minorias, que deverá vencer as próximas eleições. Na Turquia, vemos uma situação semelhante. O Brasil do presidente Jair Bolsonaro parece se inscrever em um movimento comparável.

Para o senhor, o Brexit está morto?
Penso que, no último minuto, a Inglaterra vai recuar. Tudo o que ocorreu recentemente me leva a crer que o Brexit não é mais considerado uma solução séria, mas ainda resiste apenas porque não se quer pôr em causa um voto já realizado. Não se quer decepcionar a população dizendo que este voto foi menosprezado ou ignorado. Mas tudo mostra que não é mais uma solução. A primeira evidência, hoje, é que se a Inglaterra deixar a Europa, há um sério risco de que a Escócia deixe a Inglaterra no prazo de dois anos. É um preço muito alto a pagar. A segunda evidência vem de boa parte da explicação da vitória do Brexit, que ocorreu por muitas falsas informações e exageros, que enganaram os cidadãos. Está claro que a classe política não quer, e todo este psicodrama na Câmara dos Comuns tem uma explicação, não sei se política ou freudiana, de que as pessoas não têm vontade de dar o passo definitivo que leve ao Brexit. A cada vez há algo que atrasa o processo. Creio que se quer deixar passar o tempo e se dar todos os pretextos para, no final, dizer que se vai fazer um outro referendo. E estou persuadido que, numa segunda vez, o resultado será completamente diferente.

Para o senhor, o mundo de hoje nasceu em grande parte em 1979, com a revolução do aiatolá Ruhollah Khomeini no Irã e a chegada ao poder de Margaret Thatcher no Reino Unido…
Chamo 1979 de “o ano da grande reviravolta”. No caso de Khomeini, há um movimento político caracterizado por um grande conservadorismo social e radicalismo político. A revolução no Irã foi o momento capital na direção de um mundo com uma afirmação identitária muito mais forte. No início, havia a impressão que dizia respeito somente ao mundo muçulmano, mas se difundiu por outras regiões do planeta. O movimento lançado por Thatcher, retomado muito rapidamente por Ronald Reagan nos EUA, criou uma nova forma de governar. O capitalismo, que durante o período da Guerra Fria procurava competir com o comunismo para ver quem seria o mais social dos dois, renunciou a essa ambição. Esses dois movimentos, de um lado o aumento das afirmações identitárias e, de outro, o questionamento do papel do Estado e a primazia das leis do mercado, construíram juntos o mundo de hoje. A consequência de tudo isso é que há tensões identitárias e sociais cada vez mais fortes e uma fragmentação das sociedades.

A esquerda, na sua opinião, também errou.
A esquerda se perdeu entre o desmoronamento do comunismo, afundado por seus crimes e calamidades, e o triunfo do thatcherismo. Em muitas sociedades, forças tradicionalmente à esquerda, hoje intelectualmente e politicamente em dificuldade, têm a tentação de se reencontrar em afirmações ligadas a minorias e grupos marginais, considerando ser esse seu combate e renunciando a oferecer uma visão mais ampla para a sociedade. Creio que se um dia a esquerda, hoje na defensiva, quiser se reerguer, deverá ser via um novo universalismo e não por uma coalizão de particularismos. A esquerda não consegue formular, hoje, uma alternativa.

As revoltas em curso na Argélia e no Sudão podem ser consideradas um prolongamento da Primavera Árabe, deflagrada em 2011?
Na Argélia e no Sudão há situações específicas, ligadas às realidades dos países, com, nos dois casos, elementos mais confiantes em relação às sublevações de 2011. As populações são mais maduras e aprenderam com os erros ocorridos em outros países. Os movimentos no mundo árabe foram minados pela dimensão islamista. Na Argélia, creio que ninguém quer isso. Vemos a sociedade civil à frente, avançando com mais sabedoria e seriedade do que antes. Pode-se esperar que não haverá as mesmas desventuras ocorridas na Síria, no Egito ou na Líbia. Em todos os países havia segmentos da população com aspirações modernistas e um verdadeiro desejo de democracia e de progresso social. A ideia de que as sociedades muçulmanas seriam, por sua natureza e religião, alérgicas à laicidade e à modernidade, está, hoje, tão enraizada nos espíritos que é muito difícil dizer o contrário. Mas penso que é uma ideia falsa. Se olharmos para os últimos 30 anos, é claro que se foi para o lado de mais intolerância, radicalização e uma interpretação mais estreita dos textos religiosos. Mas esse cursor poderá novamente mudar na direção de sociedades mais abertas e menos radicais. Não sei estarei vivo para ver isso, mas penso que é possível e espero que se produza.

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