Resenha de Ética, de Spinoza, por Xesús Blanco, da Universidade de Santiago de Compostela

01/01/2010 — Xesús Blanco, Universidade de Santiago de Compostela, Espanha

Os dois últimos anos têm sido propícios e fecundos para os leitores de Spinoza em língua portuguesa. Especialmente porque a publicação de novas traduções de algumas de suas obras mais importantes satisfaz uma necessidade objetiva que muitos conhecíamos: a insuficiência de versões portuguesas, competentes e atualizadas de muitos de seus textos, que vinha obstaculizando e comprometendo seriamente o conhecimento de sua filosofia e, por conseguinte, também sua difusão em um amplo universo cultural, para além do sempre reduzido âmbito dos especialistas. Mas mesmo para esses, essas novas publicações, preparadas com seriedade e rigor científico, representam novas e satisfatórias ferramentas de trabalho que devem ser apreciadas pelo seu valor, sobretudo no âmbito do spinozismo ibero-americano. Embora os estudiosos portugueses e brasileiros tenham contribuído nos últimos lustros de maneira notável, com seus aportes e trabalhos, ao enriquecimento dos Studia Spinozana na comunidade spinozista internacional, aqueles de nós que temos seguido de muito perto esse renascimento abrigávamos uma dupla convicção. Por um lado, o reconhecimento da necessidade peremptória e inadiável de traduzir para a língua portuguesa a obra de Spinoza em seu conjunto. E, por outro, o convencimento de que essa exigência seria alcançada no curso de alguns anos. Por isso mesmo, não podemos dizer que nos tenham surpreendido essas publicações nem a notável dignidade das novas edições. Apenas esperamos que a elas se reúnam outras mais, num futuro próximo, para dispormos da totalidade das obras de Spinoza em novas, competentes e atualizadas traduções em língua portuguesa (penso, em particular, no Tratado Breve, nos Princípios de filosofia de Descartes, nos Pensamentos metafísicos e numa boa edição da Correspondência completa).

Embora não possamos, no contexto deste boletim informativo, nos estender no comentário e exame detalhado dessas novas traduções portuguesas, queremos deixar registrado aqui algumas de suas características gerais, para justificar, além disso, a ponderação (de maneira alguma gratuita) que nos merecem. Comecemos pela Ética brasileira de Tomaz Tadeu, que não é pouca coisa. Ninguém pode ignorar o mérito da versão portuguesa de Joaquim de Carvalho, associada à sua condição de pioneiro ibérico nos estudos sobre Spinoza. Mas sua edição padece de um duplo problema quando vista na perspectiva proporcionada pela passagem dos anos. Por um lado, o inexorável peso da imensa produção da literatura especializada nas últimas décadas em todo o mundo: traduções, estudos filosóficos, filológicos e histórico-críticos, além de numerosas e importantes ferramentas de trabalho (lexicográficas e informáticas). Para dizê-lo em poucas palavras: os anos nunca passam em vão. E as traduções, por dignas que possam ser, mostram-no de maneira singular. Sobretudo, quando não são o resultado do esforço de um único responsável, como a referida edição. O professor Carvalho publicou em Coimbra, em um primeiro volume, sua tradução da primeira parte da Ética_(“De Deus”), em 1950, depois reeditada em 1960, para lugar, sucessivamente, em dois volumes posteriores (publicados em 1962 e 1965, respectivamente), às traduções de Joaquim Ferreira Gomes (responsável pelas partes II e III) e Antônio Simões (autor das partes IV e V). A reedição lisboeta de 1992 em um único volume confirma, fundamentalmente, o importante papel desempenhado na filosofia e nas letras portuguesas por essa notável edição, órfã de outras traduções. Também no Brasil, ela sempre representou, ao menos até há pouco, a edição de referência da obra maior de Spinoza, como o demonstra sua publicação na íntegra na coleção “Os Pensadores”, antologia da obra do filósofo editada sob a responsabilidade de Marilena Chauí, em 1979, à qual recorreram numerosas gerações de estudantes de filosofia (e leitores, em geral) naquele país, juntamente com a versão de Lívio Xavier que, desde 1937, teve múltiplas reedições. Foi preciso, entretanto, esperar até 2007 para a demanda por uma nova e imprescindível edição de uma obra com as exigências e dificuldades de tradução apresentada pela _Ética. Mas a espera valeu a pena, porque não é, de maneira alguma, temerário prognosticar que essa nova publicação está destinada a converter-se na edição de referência em língua portuguesa da Ética demonstrada segundo a ordem geométrica. Merece destacar-se, em primeiro lugar, que estamos diante de uma edição bilíngue, na qual se reproduz o texto latino de Gebhardt, objeto da tradução, juntamente com a versão portuguesa de seu autor, Tomaz Tadeu. A presença conjunta do texto original (à esquerda) e do português (à direita) representa um grande acerto que simplifica o trabalho dos leitores e dignifica o esforço do tradutor. Além disso (e esse mérito, sem dúvida, tem que ser atribuído à audácia de sua editora, Rejane Dias), essa publicação, singularmente bem cuidada, seduz por sua apresentação e formato a todos que amamos os livros. Para dizê-lo brevemente, encontramo-nos diante de uma edição em capa dura, mas com acerto surpreendente até mesmo em publicações dessa natureza, porque facilitam em muito a leitura. Juntamente com seu formato amplo, os aspectos gráficos mereceram especial atenção, indo desde o tipo e tamanho da letra impressa, até outras decisões que simplificam as constantes remissões e reenvios que a caracterizam singularmente (por exemplo, os enunciados das proposições são sempre apresentados em negrito, para diferenciá-los do corpo do texto, etc.). Para sermos sinceros, não conhecemos edição alguma da obra magna de Spinoza, em nenhuma língua, que tenha sido publicada com maior acerto, carinho e esmero. Mas que importância teriam esses aspectos bibliófilos se não estivesse à altura da tradução? Encontramo-nos, sem dúvida, diante de um cuidadoso trabalho, meticuloso e consciencioso, que se beneficia amplamente da confrontação com outras traduções (em primeiro lugar, certamente, as espanholas de Atilano Domínguez e Vidal Peña), do conhecimento dos estudos de comentaristas de variadas orientações filosóficas e, também, dos indispensáveis recursos proporcionados pelos trabalhos lexicográficos e informáticos publicados nos últimos anos. No importante apêndice com que o autor encerra seu trabalho, Tomaz Tadeu escreve: “Guiei-me, na presente tradução, pelo princípio de oferecer um texto que, sem renunciar à fidelidade ao estilo do original latino nem à nomenclatura conceitual da filosofia ocidental do século XVII e da filosofia de Spinoza, permitisse, entretanto, uma leitura mais próxima do português brasileiro contemporâneo.” (p. 415). A meu juízo, esse princípio, sempre difícil de ser realizado, foi satisfeito com êxito por seu autor. Porque, ainda que toda tradução, como sabemos, implique a tomada de decisões que dependem, em certa medida, das preferências e do entendimento do tradutor, seus conhecimentos filosóficos e filológicos minimizam, em grande medida, os desacertos que, em caso contrário, poderiam ser produzidos num trabalho ao qual faltasse esse caudal de (boa) informação e (raro) zelo. É óbvio que nem todas as decisões adotadas estão isentas de um certo grau de controvérsia e/ou concordância: os especialistas que se dedicarem à sua leitura concordarão ou não, conforme o caso, com algumas delas. Por exemplo, para alguns parecerá um acerto, como ocorre comigo, traduzir “mens” por “mente”, em vez de por “alma”, mais difícil de ser justificado atualmente, ao menos em algumas línguas românicas, como o português, o italiano e o espanhol (com equivalências diretas com a palavra latina). Para outros, por fim, pareceria um desacerto (para evocar um contraexemplo) transformar a expressão “status civilis” (que designa um estado relacional entre os homens, oposto ao “estado de natureza”, consagrados na história do pensamento políticos na época de Spinoza, ao qual se refere na Ética, 3P37S2) em “sociedade civil”, cujo uso, ao menos desde Hegel, adquire um significado longínquo e anacrônico relativamente ao que o caracteriza conceitualmente no século XVII. Mas muito dificilmente, pelo que apontamos, poderá reprovar-se a dignidade de um trabalho que, em seu conjunto, atinge os padrões exigidos pela comunidade spinozana internacional. São muitas as questões que mereceriam, sem dúvida, um comentário detalhado, como merece, sempre, um trabalho dessa magnitude. Mas, nos limites deste boletim, não é possível fazê-lo. É necessário registrar, entretanto, que no apêndice do autor sobre sua tradução, Tomaz Tadeu explica, numa primeira seção, o fundamento de suas relativamente a algumas expressões particularmente importantes do filósofo; fornece uma tabela de equivalências dos afectos (latim-português e português-latim), como instrumento de auxílio para o leitor; e incorpora, em outras duas seções, tanto as soluções adotadas por ele sobre algumas inconsistências da edição de Gebhardt quanto algumas notas explicativas adicionais sobre sua tradução. Esse apêndice conclui com um repertório seletivo dos recursos textuais (edições latinas, traduções, etc.), bibliográficos (sobre a Ethica), informáticos e léxicos a que dedicou uma atenção particular. Encontramo-nos, em suma, diante de uma nova edição da referência da obra maior de Spinoza em língua portuguesa, cuja leitura me trouxe uma grande satisfação, ainda que não isente de um certo grau de “desiderium” (que agudeza e elegância as de Tomaz Tadeu ao traduzir esse afecto por “saudade”!).

[Este comentário, publicado no Boletín de bibliografía spinozista, n. 10, comenta também outras edições recentes de obras de Spinoza, a seguir listadas. A resenha pode ser consultada na sua íntegra em revistas.ucm.es/fsl/02112337/articulos/ASHF0909110367A.PDF.

ESPINOSA, Tratado político. Tradução do latim, introdução e notas de Diogo Pires Aurélio. Lisboa: Círculo de Leitores e Temas e Debates, 2008.

ESPINOSA, Tratado da reforma da inteligência. Tradução, introdução e notas de Livio Teixeira, reimpressão a cargo de Homero Santiago. São Paulo: Martins Fontes, 2004 (1ª edi¬ção, 1966).

ESPINOSA, “Prolegômeno” [da primeira parte dos Princípios de filosofia de René Descartes]. Tradução e notas de Homero Santiago. Em Descartes, Meditações metafísicas. Trad. de Maria Ermantina Galvão, introdução e trad. de textos complementares de Homero Santiago. São Paulo: Martins Fontes, 2000, pp. 135-146.

ESPINOSA, Principios de filosofía cartesiana, I (Definições, Axiomas 1-3, Proposições 1-4). Tradução e notas de Homero Santiago, edição bilíngee (texto latino e versión por¬tuguesa). Revista Conatus. Filosofía de Spinoza, edição en formato eletrônico a cargo de Emanuel Angelo de Rocha Fragoso. Fortaleza, Universidad Estadual de Ceará, Centro de Humanidades, v. 2, n. 4, dezembro de 2008, pp. 87-89 (NB. texto em duas colunas).

JEAN-MAXIMILIEN LUCAS/Anônimo clandestino do século XVIII, A vida e o espírito de Baruch de Espinosa./ Tratado dos três impostores. Tradução de Éclair Antonio Almeda Filho, introdução de José R.Maia Neto e notas de Regina Schöpke. São Paulo, Martins Fontes, 2007.]

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