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Público e privado: rupturas e fusões

30/04/2007 — Rosa Fischer Especial para O Povo

A exibição pessoal encontra terreno fértil nos novos espaços públicos virtuais. Novas rede de sociabilidade estão re(construindo) os pilares do público e do privado nas relações e estabelecendo novos contornos da vida privada.

In the future everybody will be world-famous for 15 minutes. A frase do artista pop norte-americano Andy Warhol, nos anos 60, prenunciava a possibilidade de um dia simples mortais terem seus breves minutos de fama: num telejornal, num programa de auditório, num debate, num comercial, num talk show. Os quinze minutos de Warhol, a meu ver, nos falam da espetacular transformação que experimentamos no que se refere à relação entre os espaços público e privado. Hoje, um dos modos privilegiados de estar no espaço público é estar na mídia, é estar na tela da TV, estar nas comunidades do Orkut ou teclando no MSN, como se assim pudéssemos pertencer a uma ampla “comunidade”, que nos acolhe tal qual uma grande “mãe cultural”.

Mas estamos de que modo nesse espaço “público” da mídia? Tudo indica que buscamos avidamente a exibição do que é mais pessoal, privado e cotidiano, como se pudéssemos colocar sob as luzes e diante das câmeras de TV a verdade mais íntima do ser humano, e nos olhar nela, insistentemente. Os tais quinze minutos de fama chegaram, mas têm suas regras. Uma delas é a invasão da intimidade, o olho curioso das câmeras em direção ao que, até pouco tempo, permanecia ou deveria permanecer reservado a muito poucos, ou somente a cada um de nós, entre quatro paredes. Outra é a possibilidade de nos encontrarmos como grupo, mesmo que passageiro, de contarmos e recontarmos nosso passado e nosso presente, como sucede nas comunidades virtuais.

Vários autores, na esteira de Hannah Arendt, discutem a tendência acentuada de “politizar” (no sentido de trazer a público) a vida privada e de privatizar o que classicamente seria da vida pública. Os espaços privado e público passaram a fazer parte um do outro, o que por si só nos confunde e desnorteia. Um dos mais brilhantes escritos sobre o tema é o Capítulo II do livro A condição humana, de Arendt, intitulado “As esferas pública e privada”, em que a pensadora faz uma história das transformações desses conceitos e esferas da vida dos homens. Com ela aprendemos que o termo “privado” já significou literalmente “um estado no qual o indivíduo se privava de alguma coisa”; no caso, entre os gregos, aquele que não participava da esfera pública estava “privado” de algo absolutamente essencial e, como tal, não poderia considerar-se “inteiramente humano”. Curiosamente, era na esfera pública que os homens expunham sua individualidade, suas capacidades pessoais de agir publicamente.

Hoje, a crescente valorização da vida privada corresponde não só à exacerbação do individualismo, como expõe a grande cisão e até mesmo oposição entre a esfera privada, de um lado, e as esferas social e política, de outro. Temos aí uma série de problemas novos, produzidos pela volúpia da exposição do privado, sem nos darmos conta da impossibilidade real de comunicar por completo o que é da ordem do íntimo, a qual é acompanhada de uma necessidade aparentemente contraditória: de sermos ouvidos e vistos no espaço público, já que isto nos garantiria a condição de sermos “realidade”. Que encanto extraordinário tem a esfera pública midiática, a ponto de por ela nos desfazermos de nossa intimidade? Para Arendt, essa ampliação da esfera privada não a transforma em pública; pelo contrário, significa que a esfera pública refluiu e também que estar na companhia uns dos outros parece ter perdido força; ficamos cada vez mais “privados” de ver e ouvir profundamente os outros, prisioneiros que somos de nossas subjetividades.

Para Julia Kristeva (autora de As novas doenças da alma), é possível pensar que, enredados em tantas imagens, nossa própria vida psíquica poderia estar sofrendo um bloqueio, de tal forma que viveríamos uma dificuldade enorme de “representar a nós mesmos”. Talvez isso explique por que desejamos tanto ver a intimidade do outro na TV. A dificuldade de viver a privacidade, de ficar talvez no silêncio de nós mesmos, nos impele para o íntimo do outro, como se nele buscássemos o que perdemos. O trabalho terapêutico proposto pela autora é justamente o de provocar nas pessoas a imaginação de si mesmo e a abertura em relação ao outro, àquele que é diferente de nós.

Sem dúvida, essa é uma questão crucial, considerando a formação das populações mais jovens. Vejamos o exemplo do Orkut: o Brasil figura como um dos principais “consumidores” desse sistema de comunidades virtuais – com ênfase na participação de crianças, adolescentes e jovens. Qual o encanto da possibilidade de pertencer a tantas “comunidades”? Voltemos a Arendt: para ela, o público – e, portanto, o político – só pode ser pensado como ação performativa, como acontecimento, como irrupção; enfim, como interrupção de todos os processos totalizantes. A pergunta que fica é: como pensar o político hoje, como pensar em práticas coletivas de existência, se a ordem é ou a exposição compulsiva de si mesmo ou a competitividade acirrada, a qual coloca no centro a disputa pelo corpo mais belo, mais jovem e mais “trabalhado”? Como incentivar o olhar generoso sobre o outro, a escuta do outro, quando aquilo que é da ordem do público aparece como um fardo indesejável?

Programas de TV como o Big Brother Brasil 7, à moda dos anteriores e de todas as demais versões, em vários países, são exemplares: estar junto, conviver, trocar significa, antes de mais nada, exibir um corpo belo, com musculatura perfeitamente definida, mostrar-se disponível a meteóricas paixões, aceitar o amor à banalidade – tendo como meta a eliminação do outro, a concentração das energias na anti-convivência, na anti-criação, na obediência ao script midiático, na anti-experiência, em nome de um possível prêmio em dinheiro e de um sucesso que reproduzirá, num ciclo interminável (mas paradoxalmente efêmero), a própria cultura da mídia.

Talvez alguns jovens estejam buscando formas de superar tudo isso, quando usam suas páginas na internet para protestar, para inscrever-se como autores e criadores, de modo a não aniquilar a individualidade humana, a espontaneidade como sujeitos individuais e como grupo, enfim, não destruir a criativa ação humana. Nossa luta – nesta chamada sociedade da informação e do conhecimento – e que Zygmunt Bauman denomina sociedade individualizada – é sobretudo problematizar o modo como a pluralidade tem-se dissolvido numa imensa massa informe; e não nos deixarmos cingir em nossas subjetividades, como queria Foucault, imaginando formas artísticas de existência.

Rosa Fischer é jornalista, doutora em Educação e professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). É pesquisadora do CNPq e autora de vários textos sobre cultura, mídia, juventude e educação. Seu livro Televisão & Educação: fruir e pensar a TV (Ed. Autêntica) está na 3ª edição.

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