Percepções sobre o envelhecer

06/03/2007 — Ana Elizabeth Diniz - Especial para O Tempo

Quando criança, Pedro Paulo Monteiro nutria um desejo incompreensível de querer ajudar os mais velhos. “Gostava de carregar as compras das velhas senhoras, minhas vizinhas. Não tinha interesse de ser remunerado por isso. O que gostava mesmo era ver a satisfação delas. O sorriso de agradecimento de um velho não tem preço. Gostava também de conversar com o senhor Jorel, um velho homem que adorava ler livros de western. Quando menos percebi, o tempo passou. São 20 anos trabalhando com pessoas acima de 60 anos”, relembra Pedro Paulo Monteiro, 40, mestre em gerontologia e fisioterapeuta com especialização em neurologia, autor dos livros “Envelhecer”, “Quem Somos Nós?” e “A mente e o significado da vida”.

O médico nasceu em Paraíba do Sul como ele gosta de dizer, “de passagem”. Sua mãe saiu da cidade onde morava, Petrópolis, no estado do Rio de Janeiro para buscar apoio do irmão em Paraíba do Sul.

“Meu pai era motorista de caminhão e viajava muito, não estava presente. Minha mãe era uma pessoa ambígua. Ao mesmo tempo que era ansiosa, tinha muita fé. Ela me ensinou o poder da fé na representação da lua cheia, como relato no meu último livro “A mente e o significado da vida”. Ela era católica, ao mesmo tempo adorava o ocultismo. Se você dissesse a ela sobre uma boa benzedeira no alto do morro, ela não media esforços para ir até lá. Ela me levava a todos esses lugares, aprendi muito com isso. Minha crença religiosa está na ligação com o sagrado, independente de religião institucionalizada”, relembra.

Dessa infância bem vivida ao lado da mãe veio não apenas sua crença religiosa, mas seu olhar diferenciado do mundo e das pessoas, no caso, seus pacientes, idosos, carentes de afeto, de escuta, de serem acolhidos não como uma doença a mais, mas como alguém que tem uma história ímpar de vida.

“É importante que o velho se permita sentir o próprio corpo, pois é através das sensações que as ações nascem e o corpo se prepara para expressar, pela motricidade, todos os significados de seu mundo interno. A partir dos movimentos, o corpo poderá ser percebido, proporcionando ao velho a consciência de que ele está agindo naquela espaço e momentos específicos. É por isso que o agir só pode se realizar no presente, enquanto o passado, por outro lado, é o que não age mais”, defende.

Hoje, Pedro Paulo Monteiro vive em Petrópolis, também de passagem. “Sempre estou de passagem. A vida é uma ponte. Não posso construir a minha casa numa ponte, não é mesmo?”

O Tempo – Por que resolveu trabalhar com idosos?

Pedro Paulo Monteiro – Só fui compreender isso bem mais tarde, após terminar o mestrado em gerontologia na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Não entendia por que gostava de atender idosos, uma vez que não tive nenhuma disciplina de geriatria na faculdade. Ou seja, tive de aprender sozinho o que denomino de “terapêutica integral aos mais velhos”.

Qual é o seu sentimento sobre os idosos hoje? A sociedade os marginaliza?

A indústria de cosméticos é bilionária. Isso denota a marginalização. As pessoas têm medo de serem julgadas pelo aspecto físico e, por isso, tentam a mumificação em vida. Imagine se a velhice tivesse atributos positivos, todos iriam querer mostrar as rugas como traços de suas histórias, valorizar cada curva do corpo, aceitar os limites corporais como sendo uma oportunidade de ver a vida por novas perspectivas antes impossíveis de serem vistas pela correria do cotidiano. Infelizmente, ninguém quer ficar mais velho ao mesmo tempo em que ninguém quer morrer cedo.

Acho isso uma espécie de limbo intensamente angustiante. Acredito no surgimento de um novo sujeito idoso. Tenho esperança de que no futuro próximo teremos melhores modelos de velhice.

O que é preciso para se viver uma boa velhice?

Em todos os meus livros trabalho com uma idéia básica: o autoconhecimento. Nunca seremos livres fora de nós. A liberdade pertence ao âmbito da interioridade. É preciso fazer novas reflexões a cada instante. Tudo se move muito rápido. É urgente refletirmos melhor acerca de nossas experiências. A palavra reflexão significa curvar-se sobre si mesmo. Refletir é uma postura de humildade. Para adquirirmos experiências com qualidade, é necessária a reflexão. Costumo dizer que uma pessoa mais velha sem experiências com qualidade é uma pessoa sem recursos para fazer a travessia da vida.

Como o senhor define a doença?

A doença é parte escondida dentro de todos nós, pronta para acontecer. Não acredito em mal que venha de fora para nos trazer dor e sofrimento. Até mesmo porque não vejo a doença como mal. Isso seria classificar a doença pelo modelo maniqueísta. Acredito em escolhas individuais e coletivas.

Na maior parte das vezes essas escolhas não são conscientes. O sistema orgânico é inteligente, autônomo e dependente de outros sistemas. Não vivemos sozinhos. Tudo estará em harmonia enquanto não ultrapassarmos certos limites. É preciso entender que nós vivemos em uma cultura de dor e sofrimento.

Por exemplo, se eu passar uma noite de amor com a minha parceira e perder a hora do trabalho, por que preciso dizer ao meu chefe que cheguei atrasado para a reunião por causa de uma diarréia? Porque ele entenderá melhor assim.

Se eu disser que estou apaixonado e por isso perdi a hora, ele me enquadrará como irresponsável. Ser responsável é ter a capacidade de responder às demandas da vida e não carregar o peso das obrigações. Ficamos doentes porque não respeitamos os nossos limites e somos desonestos com nós mesmos.

Quer dizer que podemos evitar adoecer?

Não tenho dúvida. O que mais presencio em meu trabalho são pessoas que acreditam na doença como fazendo parte da idade cronológica: “Tenho dor no joelho por causa da velhice”. Velhice não é doença e, sim, uma construção social e histórica. Ela serve apenas para fins burocráticos. No Brasil, consideramos idoso quem tem idade de 60 anos ou mais. Isso significa que você será “jovem” até a noite anterior ao seu sexagésimo aniversário. Não existe “jovem de alma”, isso é um grande preconceito. Da mesma maneira que não existe negro de alma branca.

Procuro educar as pessoas de forma que elas o percebam como corpo-sujeito. Elas precisam retornar ao sagrado, fazer o caminho de volta (re-volta) para dentro delas e perceber por que estão doentes. Quando não queremos entrar em contato com o problema costumamos jogá-lo para trás, onde não o enxergamos. Isso é somente uma das incontáveis interpretações pela qual podemos nos guiar.

O nosso corpo é simbólico porque vivemos na linguagem. Se pensarmos no sintoma como informação, é fácil compreender o quanto se faz necessário pensar o contexto de nossa vida e perceber se estamos ou não errando o alvo de nossas metas.

Por que tememos a morte?

Porque não é nada fácil abdicar da única referência que temos da nossa existência no mundo, o corpo. Ao morrer teremos de deixá-lo simplesmente. Participei de alguns processos de morrer de pessoas com as quais tive a oportunidade de trabalhar. Todas elas entravam em estado de intensa ansiedade quando o familiar, por egoísmo, não queria aceitar o desprendimento. É preciso estar ao lado, em silêncio, simplesmente estar junto. Isso diminui a ansiedade da morte. Atendo uma mulher de 98 anos de idade que acredita estar sendo demais.

Ela diz que já viveu muito, quer morrer. Eu digo sinceramente: “Se você pensa assim, eu também penso da mesma maneira, acho que também já vivi muito. Posso deitar ao seu lado para morrermos juntos?”. Ela sempre sorri e se sente apoiada. A angústia desaparece. Gosto de tomar banho de lua cheia. Sempre que faço isso me sinto pronto para morrer. Nada sabemos acerca do que é viver muito. A vida e a morte são processos dinâmicos. O mais importante é estar acordado para a vida e para a morte, sem anestesia.

Ao morrer acredito na continuidade porque seria muito desperdício de energia simplesmente nascer, passar por tantas dificuldades, enfrentar desafios, sentir a dor e o amor, ir embora sem deixar nada. Gosto de pensar que viemos ao mundo chorando enquanto outros riam de felicidade. Ao morrermos temos de partir com sorriso estampado, sabendo que cumprimos nossa missão enquanto muitos chorarão nossa partida.

Não temos muita noção da morte. Se pensarmos bem, verificaremos que aqui e agora estamos em processo de morte. Muitas de nossas células estão se despedindo para dar possibilidade de novos nascimentos. Como dizia Heráclito, (VII séc. a.C), “vive-se da morte, morre-se da vida”.

Qual o significado da mente? Somos o que pensamos?

William Wordsworth escreveu: “Além eu contemplo o emblema de uma alma que se alimenta do infinito…” Somos muito mais do que pensamos ser, sem dúvida. Todavia, somos constituídos por nossas crenças. A mente é um processo dinâmico a nos direcionar em vários sentidos. No meu livro “A mente e o significado da vida” escrevo que a mente não é um produto do cérebro. Seria simplificar o complexo pensar no cérebro como uma torre de comando. A mente está em toda parte e em parte alguma, como a física quântica demonstra tão bem.

Atualmente alguns pesquisadores já demonstram que a mente é um fenômeno não local, utilizando-se do teorema de Bell como explicação. Este teorema preconiza o envolvimento de algum tipo de informação que viaja mais rápido que a velocidade da luz. Não está claro o que significa essa informação, mas ela tem a capacidade de viajar de forma instantânea unindo partículas distantes e isoladas pelo espaço. Isso talvez venha explicar cientificamente as intuições, os processos criativos e o fenômeno da sincronicidade.

Por que ficamos reféns dos nossos pensamentos?

Porque o pensamento é como elos de uma corrente. Um se encaixa no outro. Quando temos um pensamento obsessivo, por exemplo, típico da “pré-ocupação”, ficamos ruminando fatos do passado do tipo: “Se eu tivesse feito isso ou aquilo”, “será que o meu dinheiro dará para pagar as contas”, “o que vou ser quando crescer”, e assim por diante. Quando estamos presos nessas correntes, não logramos dar um passo à frente. Muitas vezes, fazemos isso por medo do novo. Ruminar o passado é estar somente no conhecido, dentro dos limites de segurança. Isso nos torna reféns de nós mesmos.

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