Estilo e verdade em Jacques Lacan, de Gilson Iannini, é resenhado pela Revista Princípios

23/08/2012 — Revista Princípios – Publicação do Departamento de Filosofia da Universidade Fed

Por Róbson H. A. Batista, da UFRN

Em Estilo e verdade em Jacques Lacan, mais novo título de Gilson Iannini, nos deparamos com uma escrita de ritmo compassado, onde as considerações teóricas se sobrepõem sem demasiada aridez, como se construísse pacientemente um monumento conceitual discursivo onde já se sabe de antemão o lugar de cada peça – salvo os desvios que não obstante também parecem planejados, seguindo o jogo da habilidosa retórica do autor. Estranho é falar do que é próprio do estilo lacaniano quando quem fala no livro, por sua vez, é mesmo, digamos, tão prosaico, envolvente, e, até mesmo, didático. Embora não seja dispensável algum conhecimento prévio sobre os fundamentos da psicanálise, tanto em sua versão freudiana quanto em seus desdobramentos sob a alcunha de psicanálise lacaniana, assim como sobre o campo epistemológico no qual se insere (ou funda), o texto de nosso autor faz o leitor imergir gradativamente numa trama conceitual complexa, cheia de sutilezas, sem que este se sinta barrado pela conhecida estranheza do vulgo “lacanês” ou mesmo pelo hermetismo do campo conceitual da filosofia, sobretudo da filosofia contemporânea.

Trata-se nitidamente de um trabalho acadêmico, tanto em suas virtudes quanto em seus vícios. Quando elencados os problemas aos quais pretende resolver com sua pesquisa, nos parece de uma ambição tamanha que só se dá por razoável ao nos deixarmos seduzir pela confiança, calma e segurança transmitidas pelo seu estilo.

Estilo e verdade é um livro oriundo da pesquisa e tese doutoral de Iannini. Publicado em 2012 pela editora Autêntica, presenteia o público interessado tanto nas questões dos desdobramentos do discurso psicanalítico lacaniano quanto na verdade, questão tão central como tradicional na filosofia, como também os pontos de tensão, convergências e divergências com autores de grande influência no cenário de pensamento contemporâneo.

Debruçando-se na própria equivocidade do significado, enaltecendo a dimensão ontológica do significante, Gilson Iannini examina minuciosamente a tese lacaniana da discordância entre saber e verdade, e apresenta em toda sua integridade, fio por fio, a crítica à metalinguagem, examina problemas que tomados em conjunto nos pareceriam ultrapassar a pretensão de qualquer volume, por exemplo, o problema das relações entre ciência e psicanálise com todas suas repercussões no cenário epistemológico, analisa ainda, e principalmente, o estilo de Lacan como um esforço de formalizar, na escrita da psicanálise, os impasses de uma verdade que não se diz por inteiro.

Ao abrir o seu texto com a afirmação de que “o inconsciente freudiano é um acontecimento para o pensamento”, e que “este acontecimento concerne não apenas ao estatuto do sujeito e à história do desejo, mas também à natureza e aos contornos da verdade” (p. 14), Iannini nos revela o teor das conjecturas que nos são apresentadas por seu livro. Empreende primeiramente uma breve revisão do estatuto epistemológico do discurso freudiano ante a racionalidade moderna, apontando o imprescindível lugar que a práxis clínica possui na elaboração teórica da psicanálise, assim como a indissociabilidade entre teoria, técnica e método. A observação clínica é um dos elementos que faz com que a doutrina do inconsciente se afaste de seus predecessores filosóficos, mas não é o suficiente para fazer dela uma legítima ciência positiva, impasse que se consubstancia com a natureza dos conceitos denominados metapsicológicos.

Todavia, apesar da prudência epistemológica adotada por Freud, este continuou focado, tal como o cientista em sua pesquisa, em elaborar sua teoria sem se ater em demasia aos problemas e tradições de pesquisa de outras áreas de conhecimento. Nosso autor parece querer dizer que somente com Jacques Lacan veio se considerar detidamente aquilo que este chamou de “razão desde Freud” (p. 14).

Depara-se, entretanto, com a questão do estatuto da verdade e de suas relações como o saber; empreende uma partilha entre saber e verdade: “o saldo dessa partilha é dividido pela ciência, incapaz de economizar os impasses da formalização, e pelo estilo, como estratégia de formalização de impasses” (p.15). Iannini aponta em vários momentos a postulação freudiana de que “há pensamento inconsciente” (p. 15, 134, 319) como o ponto nevrálgico daquilo que Lacan chamou de “subversão do sujeito”; e é da dinâmica da vida pulsional – dialética do desejo – que Lacan sustenta que o sexo é impossível enquanto tal na vida humana: não há autonomia da vontade nem mesmo algo semelhante à unidade do eu, pois “o desconhecimento […] lhe é constitutivo, a divisão lhe é inerente” (p. 15).

Doravante, se a sexualidade é ao mesmo tempo insistente e irrepresentável, “qual sintaxe o discurso que aí se funda precisa ter para dar conta deste desejo contraditório, opaco, insubmisso” (p. 15-16)? Como falar legitimamente do real? A psicanálise rompe radicalmente com a racionalidade moderna, com sua pretensão de posse do conhecimento-verdade, sem, contudo, como constata Iannini, flertar com nenhuma forma de irracionalismo. Elencando as consequências, demarcando o lugar, Iannini nos permite vislumbrar a abrangência das ressonâncias das constatações lacanianas, e diz: “Lacan aceita o desafio pespectivista em consonância com Nietzsche: ele recusa soluções metafisicas para o problema da verdade, como a essência platônica ou Deus veraz cartesiano; (…) rejeita pensar a verdade sob a rubrica de uma revelação originaria do Ser, nos quadros da hermenêutica heideggeriana. (…) recusa as soluções logicas-positivistas de cunho correspondencialista ou verificacionista, assim como não endossa as teorias semânticas da verdade advogadas pela tradição anglo-saxã” (p. 16). Em suma: veta a possibilidade de uma metalinguagem, de um discurso primeiro. O homem é constituído na linguagem e esta não interrompe o fluxo incessante do sentido.

Não obstante a aceitação do desafio perspectivista Lacan não cede a qualquer relativismo pós-moderno. Guiado por essa convicção, Iannini se propõe investigar os contornos da empreitada lacaniana e suas reverberações no cenário intelectual contemporâneo acerca da natureza do estatuto e do regime da verdade, tendo sempre em vista que para Lacan “a primazia do significante convive com a tese da incompletude do simbólico” (p. 17) e que, indubitavelmente, “há real, ainda que dessubstancializado, ainda que opaco ao simbólico” (p. 17).

Na esteira daquilo que seriam as descobertas fundamentais de Freud – subversão do sujeito e dialética do desejo –, Lacan, segundo Iannini, elabora uma espécie de estilística do objeto, onde postula que não há representação possível para o objeto de desejo do sujeito, somente aproximações, visto que “a representação do sexual qua sexual é da ordem do impossível” (p. 17). Em Lacan, nem mesmo há equivalência entre linguagem e representação, cabendo ao estilo ser o “modo pelo qual o sujeito pode criar algo em torno do vazio de referencia inerente ao desejo, interessando, pois, o objeto” (p. 17). Há uma função do estilo, e talvez não seja demasiado dizer que há uma verdade se [des]velando nele, o que autoriza ao analista (ou a todo o investigador da verdade?) a se preocupar não apenas com o pretenso conteúdo, “mas também com a forma do discurso e as estratégias de contornar os limites do dizer” (p. 17), sobretudo, como é de hábito não só na análise psicanalítica, quando faltam palavras ao sujeito, onde, inegavelmente, ainda há muito o que dizer. O autor ainda alude à relação de tudo isso com a formalização e escritura conceitual, tendo o estilo como o elemento cuja função possibilita o rompimento de qualquer discurso com o paradigma clássico da representação-palavra, com a metafísica da subjetividade, sem ceder à pobreza confortável do cientificismo ou às precipitadas e melancólicas recusas da verdade de teor relativista.

Aonde residiria o modo singular de Lacan abordar a questão da verdade? Para Iannini, o que serve de base é a inédita relação entre saber e verdade que Lacan estabelece. A contundente crítica lacaniana à metalinguagem se funda, para nosso autor, na formalização e exposição de um quadro conceitual que abre espaço para a ocorrência do acaso, do inexprimível, do inefável, ao menos demarcando a sua ausência, através de um estilo consonante à própria teoria, estilo marcado pela aposta na materialidade da linguagem, pela contingência ontológica do desejo que possibilita a autonomia, no mínimo relativa, do significante em sua relação com o significado, lidando, a seu modo, com a incomensurável incompletude inerente à própria dimensão simbólica.

A verdade em Lacan só se dá através do caráter processual permeado pelo estilo (que é a própria apresentação do discurso), verdade que ao se apoiar na materialidade da linguagem leva nossa consideração à dignidade ontológica do sem-sentido, onde o estilo cumpre sua função “como esforço de formalizar o que se precipita como limite de literalização do real pela ciência” (p. 18). No estilo, no seu desdobramento acontecimental, no processo da verdade, se inscreve a singularidade irredutível do sujeito.

É uma verdadeira odisseia discursivo-conceitual a empreitada percorrida por Gilson Iannini ao longo de seu livro. Destinado a um publico intelectual misto, ou hibrido, Estilo e verdade em Jacques Lacan tem seu ponto forte exatamente em expor o discurso lacaniano sob uma ótica que manteve firme o elo entre suas repercussões filosóficas, epistemológicas e psicanalíticas, seja esta em seu aspecto teórico (metapsicológico) ou clínico.

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