Tradução: um banquete

Beatriz Almeida Magalhães - Publicado na categoria Nossos Autores em 06/12/2018


Foto: Keystone-France/Gamma-Keystone—Getty Images

Para essa atual tradução brasileira de La Pelle, romance de Curzio Malaparte publicado em 1949, a máxima proximidade ao original foi buscada, o que não foi difícil. As palavras do italiano têm bastante correspondência no português. A decisão adotada encontra confirmação em teóricos recentes como Antoine Berman, para quem “o objetivo ético de traduzir, por se propor acolher o Estrangeiro na sua corporeidade carnal, só pode estar ligado à letra da obra”. Entenda-se, como queria Berman, “perto da letra” e não “ao pé da letra”, o que seria de fato uma impossibilidade.

Exemplo de impossível literalidade no caso da tradução de La Pelle é a palavra tugurio, de muitas ocorrências no romance, e que tem correspondente em português, tugúrio. Deriva do latim, no qual tugurium é já corruptela de tegulum, telhado, telheiro. Sentido que o português guarda, agregando sinônimos como cabana, choupana, casebre , choça ou palhoça, que sugerem a essência da arquitetura, sua função mínima de prover cobertura, garantir abrigo. Contudo, esse sentido não corresponde ao dado em Nápoles, onde tugurio, por analogia à modéstia desse tipo de habitação, refere-se ao basso, cômodo encaixado no embasamento dos prédios (palazzi) barrocos do centro histórico, de quatro, cinco pavimentos. Não se trata de construção com telhado nem isolada. Consistiria em erro traduzir tugurio por tugúrio ou sinônimo.

Era preciso um termo que se encaixasse na situação, e a palavra pardieiro – “casa ou qualquer edificação velha e/ou em ruínas” – se mostrou uma solução. Durante a Segunda Guerra, muitos dos palazzi tinham sido arruinados por bombardeios. Neles, o basso (baixo), espécie de cava ou porão sem saída ao fundo, com entrada estreita no alinhamento da fachada e não pelo monumental portão principal, apresentava as piores condições de habitabilidade. Baixa era também a renda dos que o ocupavam (nos andares superiores subia a escala social). A exiguidade e a insuficiência de insolação, iluminação e ventilação obrigavam a se manter aberta a porta na maior parte do dia. Sem qualquer privacidade, já devassada pelos passantes, a vida doméstica naturalmente se extravasava para a rua, do simples estar de modo mais saudável e confortável em cadeiras na calçada aos mais privados afazeres diários, como o preparo de alimentos, a costura e a secagem das roupas em varais que se estendiam pelo espaço público. Embora tal situação proporcionasse algumas vantagens como convivência, sociabilidade e solidariedade, não há como romantizar: tratava-se em todo e por tudo de um pardieiro. Os bassi costumam hoje ser remodelados, equipados e explorados como alojamentos temporários exóticos e, provavelmente, não são anunciados como tuguri.

Apesar de algumas impossibilidades como a da palavra tugurio, prevaleceu na tradução o intuito de ficar “perto da letra”. É certo que algumas palavras do português que têm correspondentes italianas são pouco usuais entre nós e poderiam ser substituídas por similares, de significação próxima, para facilitar a leitura, mas isso poria a perder a integridade de cada escolha do autor, que inclui a grafia, o som, o ritmo, enfim, a poética, no sentido original, o de poiesis, da palavra: a sua criação ao longo do tempo, a elaborada materialidade capaz de carregar acúmulos semânticos.

Assim, as correspondências vocabulares estão sempre que possível mantidas em A pele. Além de garantirem a substância poética e evitarem o rebaixamento da linguagem e o arremedo, quando chegam a constituir discrepância no texto dão notícia de um contexto espacial e temporal que não é o nosso, o que conceitualmente se considera positivo, verdadeiro e desafiador.

Para resumir essa postura, tomo palavras de Márcia Schuback no prefácio a Por uma fenomenologia do silêncio que descrevem o que vem a ser um banquete – “a festa com que se recepciona um estrangeiro, um estranho” – e as atribuo à tarefa da tradução. Para Schuback, o que se acolhe no banquete é a estranheza: “A estranheza implica um jogo de limites. O limite de não se poder dizer tudo pela diferença das línguas, o limite de não se poder compreender tudo pela diferença das intenções, o limite de não se poder acolher tudo pela diferença dos preparos”. Assim acontece na tradução.

Espero ter acolhido a estranheza do texto original. Antes de tudo por julgar que cada palavra é um patrimônio precioso, atravessa os séculos, carregando não só a sua origem como também a marca de cada língua que a pronuncia (aqui me refiro à língua mesmo, órgão da boca), a marca de cada mão que a grafa e toda a ambiguidade que nela se acumula. E sobretudo para fazer jus ao autor, tendo ele próprio acolhido o “Estrangeiro”, e mesmo o inimigo, em sua vida e em sua escrita. Além do italiano e do toscano da sua região natal, são mais nove os idiomas e dialetos incluídos por ele no romance.

Poéticas, irônicas, estrangeiras, às vezes estranhas, cruas e nada fáceis de absorver, são as palavras eleitas por Malaparte em La Pelle, nas quais esse autor complexo incorporou suas marcas psicológicas e corporais, que incluem as causadas pela luta nas duas grandes guerras, e nas quais imprimiu sua ambiguidade e sua contradição. Com isso, a se concordar com o artista William Kentridge, para quem “posições não ambíguas e não contraditórias são sempre falsas e representam sempre um autoritarismo velado”, Malaparte, sob forma declarada de arte nesse romance, deixou nele sua verdade e a abertura a interpretações várias e projeções livres.

Estou certa apenas de ter experimentado a tradução de La Pelle como quem, em um banquete, experimenta as mais finas e também as mais esdrúxulas iguarias.

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Beatriz Magalhães é autora, doutora em Letras, bacharel em Arquitetura pela UFMG, bacharel em Artes pela UEMG e tradutora do livro A pele.

A pele é um lançamento da Autêntica Editora. Conheça aqui.

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