[Retrospectiva 1968] O dia que Mick Jagger esteve no Rio de Janeiro

Publicado na categoria Resenhas & Trechos em 24/04/2018


foto do jornal O Globo

08 de Janeiro de 1968

No limiar de 1968, o líder dos Rolling Stones, Mick Jagger, embora já tivesse emplacado o eterno sucesso Satisfaction, ainda não era muito conhecido no Brasil. No dia 5 de janeiro, chegou quase anônimo ao Rio para uma temporada de duas semanas de férias. No início foi praticamente ignorado pela imprensa, ao contrário do que havia acontecido com Brigitte Bardot quatro anos antes, quando chegou a ameaçar voltar à França, tal o assédio que sofrera desde o primeiro momento em que pisara em solo brasileiro. Acabou não cumprindo a ameaça, mas foi se refugiar em Búzios, na época uma pacata vila de pescadores. Jagger estava acompanhado da primeira mulher, a cantora Marianne Faithfull, e só foi descoberto porque os hóspedes e vizinhos do Copacabana Palace desconfiaram que aquele rapaz de cabelos longos, vinte e poucos anos (completaria 25 em abril) e roupas extravagantes devia ser alguém famoso. Só depois de quatro dias os jornais deram a notícia da presença de Jagger no Rio e, mesmo assim, referindo-se a ele como “um hóspede muito estranho”, membro de um famoso grupo inglês de “iê-iê-iê”. A menção hoje soa até como heresia, pois era o mais puro rock o que os Stones já então produziam, pregando em suas letras e em suas atitudes a quebra de todo tipo de preconceito.
A rotina de Jagger também chamou a atenção dos funcionários do hotel. Quase não saía do quarto e passava a maior parte do tempo ouvindo discos, tocando guitarra, dançando com a mulher, bebendo vodca polonesa, champanhe e comendo caviar e porções de peru à Califórnia. Ciceroneado pelo escritor Fernando Sabino, abriu exceção para conhecer o Corcovado e chamou a atenção pela calça de veludo e a camisa colorida. Na volta, acabou sendo reconhecido por um grupo de fãs, mas escapou, evitando a Avenida Atlântica e entrando no hotel pela portaria da Avenida Copacabana.
Quem ligava para seu quarto era atendido por uma secretária que avisava que Jagger estava doente e queria descanso. Mas quando levavam seus pedidos à suíte, os garçons o encontravam bem alerta, dançando e, às vezes, tocando guitarra com uma mão e comendo com a outra.
Com o passar dos dias, Jagger resolveu fazer uma incursão pela piscina do hotel. Alguns jornalistas já sabiam da sua presença no Rio e tentaram entrevistá-lo. Vestindo uma calça justa rosa e um chapéu estilo Greta Garbo, com um broche no meio, Mick, admitindo que pouco conhecia sobre o Brasil e a América do Sul, não queria muito papo.
Convencido pela mulher a falar, respondia às perguntas com enorme má vontade: “O Rio só é bonito quando os jornalistas estão longe”, disse sem piedade. Cercado por jovens e senhoras curiosas, que quase se debruçavam sobre aquela figura exótica, ele continuou a destilar seu sarcástico mau humor: “Vocês conseguiram que eu descesse, mas não me impedirão de manter a boca fechada”. Marianne, bem mais solícita, disse que admirava Glauber Rocha, Jorge Amado e a bossa nova.
Na época, Jagger já era uma personalidade polêmica, tendo sido processado na Inglaterra, em 1967, por uso de entorpecentes (maconha e LSD). Chegou a ser preso ao lado de Marianne, depois de uma batida policial na casa de campo de Keith Richards, onde foram encontradas substâncias ilegais e equipamentos para o consumo de drogas. Pela mesma razão, Jagger também foi preso em seu apartamento em Londres. Depois disso, passou a ser arredio e hostil com jornalistas porque, segundo ele, só queriam saber desse assunto.
Era o preço que pagava por romper com comportamentos sociais arraigados. Com o passar dos anos, relaxaria. Aquela era apenas a primeira das muitas viagens que Mick Jagger faria ao Brasil. Tinha que ser em 1968.

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Roberto Sander é formado em Jornalismo, Publicidade e Pesquisa em Comunicação pela PUC-Rio. Foi pesquisador do CNPq e, por mais de duas décadas, atuou como repórter em alguns dos mais importantes veículos de comunicação do país, tais como SBT, TV Globo, Record e SporTV. 1968 é o seu 12º livro.

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