[Retrospectiva 1968] Martin Luther King morto

Publicado na categoria Resenhas & Trechos em 17/05/2018


Imagem: O globo

4 de abril de 1968

Martin Luther King era um ativista americano dos direitos dos negros que ganhara, em 1964, nada menos que o prêmio Nobel da Paz. Seu ideal de lutar sem violência pelos direitos civis o tornara um líder que influenciava toda uma geração e, por isso, era simplesmente odiado pelas elites segregacionistas dos Estados Unidos. A partir de 1965, passou a questionar a presença do país no Vietnã, fazendo críticas severas ao papel americano na guerra do sudeste asiático. Naquele 1968, ele organizava também uma campanha contra a pobreza, apontando o sistema socioeconômico como o causador da miséria. Era o suficiente para o FBI o considerar um radical, chegando a investigá-lo por supostas ligações com comunistas.

Na manhã do dia 4, Luther King estava em Memphis, no Tennessee, onde participaria de uma marcha de funcionários negros de limpeza urbana, que, em greve desde 12 de março, reivindicavam abono quando não podiam trabalhar por razões climáticas – tal como os funcionários brancos – e reajuste salarial. Na mesma sacada do Lorraine Hotel, onde, na véspera, pousara para fotógrafos ao lado do pastor Jesse Jackson, entre outros ativistas, Luther King foi atingido no pescoço por uma bala calibre 30. Levado ao hospital, segundo informações dos médicos, morreu assim que começou a ser socorrido. Tinha apenas 39 anos. O autor da famosa frase “Eu tenho um sonho. O sonho de ver meus filhos julgados pelo caráter e não pela cor da pele” – proferida num discurso em Washington, em 1963, numa manifestação contra a discriminação racial –, começava naquele momento a virar história.

O autor do disparo, o segregacionista foragido James Earl Ray, que alugara um quarto numa pensão em frente ao hotel em que Luther King se hospedara, foi preso em Londres, para onde fugira, dois meses depois, portando um passaporte canadense falso. Deportado para os Estados Unidos, Ray cumpriu pena até morrer em 1998, aos 70 anos.

A notícia se espalhou rapidamente e, de repente, os Estados Unidos se viram tomados por uma onda de protestos sem precedentes. Em cerca de 60 cidades, grupos de negros enfurecidos saíram às ruas. Vitrines foram quebradas, lojas, saqueadas, estabelecimentos e carros, incendiados. Já nos primeiros confrontos com a polícia – eles se estenderiam por vários dias – quatro pessoas morreram e diversas ficaram feridas. Em Washington, onde os protestos ocorriam a poucos quarteirões da Casa Branca, o líder do Poder Negro (Black Power), Stokely Carmichael, exortava os negros a vingarem a execução de Luther King e acusava diretamente o presidente Lyndon Johnson e o senador Robert Kennedy, assim como toda a população branca dos Estados Unidos. Dizia ainda que “haveria execuções nas ruas” e que “quando a América Branca matou o Dr. King, nos declarou guerra”. E frisou: “O povo negro sabe que seu caminho não é o discussões intelectuais, sabe que tem que obter armas. Nossa represália não se fará nos tribunais e sim nas ruas dos Estados Unidos.”

De fato, Washington se tornava também a capital dos distúrbios. Em torno da Casa Branca, pelo receio de uma invasão, foram erguidas barreiras com cabos de aço, e, em pontos estratégicos, policiais armados com metralhadoras recomendavam, em alto-falantes, que os manifestantes voltassem para casa. Para reprimir a onda de saques e incêndios, doze mil soldados federais vieram em socorro dos 2.885 guardas locais. O número de presos chegava a 4.402, e já se contabilizavam 704 feridos. Àquela altura, mais de 300 incêndios e cerca de 100 saques eram registrados.

A situação era tão grave que o presidente Lyndon Johnson cancelou uma viagem que faria ao Havaí – onde se reuniria com líderes dos países do Pacífico numa cúpula sobre a Guerra do Vietnã – para acompanhar de perto os desdobramentos do assassinato de Luther King. Logo, pediu que fosse realizada uma sessão no Congresso para discutir formas de controlar as tensões sociais que tomavam conta do país. Decretou também luto oficial pela morte de Luther King (o primeiro no país por um afro-descendente).

Numa nota, afirmou:
“Hoje o coração dos Estados Unidos está sangrando. Um grande dirigente do seu povo, um pregador universal caiu. Martin Luther King foi morto pela violência contra a qual pregou e contra a qual trabalhava. Mas a causa pela qual lutou não será sufocada. A voz que reclamava justiça e segurança calou, mas a busca da liberdade que King defendia de modo tão eloquente prossegue.”

No Congresso, coube ao senador Robert Kennedy transmitir o que acontecera em Memphis. Para uma plateia perplexa, Kennedy, que também seria assassinado a tiros dois meses depois, relatou: “Tenho uma notícia triste para os nossos concidadãos e para aqueles que amam a paz no resto do mundo. Martin Luther King, que dedicou a vida ao amor e à justiça entre os seres humanos, foi morto a tiros hoje em Memphis.”

A morte de Martin Luther King abria espaço para grupos radicais que ele mesmo procurava conter. Servia também de estímulo a grupos excessivamente moderados, aos quais ele pedia mais ação. Apóstolo da não-violência, King divergia dos líderes mais radicais do Poder Negro, sem, no entanto, deixar de dialogar com eles. Partidário da desobediência civil e da luta contra a Guerra do Vietnã, preferia também não ter um compromisso mais estreito com entidades negras conservadoras, o que não o impedia de contar sempre com o apoio elas em suas campanhas. Como ponto de equilíbrio do movimento negro, o elo entre radicais e conservadores, conseguiu firmar-se na liderança negra nos Estados Unidos e no exterior.

Mas a premissa de King, de não responder ao mal com o mal, estava em cheque. Afinal, pregando o bem e o combate justo, fora vítima de mais um ato de violência contra um negro americano. E não era qualquer um que tombava. Era o símbolo da paz mundial. Uma multidão calculada em 150 mil pessoas compareceu ao seu funeral em Atlanta, onde ele nascera.

A greve que tinha levado Luther King a Memphis terminou no dia seguinte ao seu assassinato, e de maneira favorável aos lixeiros negros.

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Roberto Sander é formado em Jornalismo, Publicidade e Pesquisa em Comunicação pela PUC-Rio. Foi pesquisador do CNPq e, por mais de duas décadas, atuou como repórter em alguns dos mais importantes veículos de comunicação do país, tais como SBT, TV Globo, Record e SporTV. 1968 é o seu 12º livro.

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