[Retrospectiva 1968] Garrincha ameaçado de prisão

Roberto Sander - Publicado na categoria Resenhas & Trechos em 03/05/2018


08 de março de 1968

Maior responsável pelo bicampeonato mundial do Brasil em 1962, Garrincha vivia o ocaso da carreira. Aos 34 anos, já não tinha pernas para fazer gato e sapato de seus marcadores, mas sonhava em voltar a brilhar – ainda jogaria pelo Júnior de Barranquilla, Flamengo e Olaria sem qualquer destaque. Estava na casa onde morava com a cantora Elza Soares, na Lagoa Rodrigo de Freitas, quando recebeu pela imprensa a notícia de que o juiz da 6ª Vara da Família o havia condenado a três meses de prisão pelo não pagamento da pensão das oito filhas que tivera no casamento com Nair, a primeira mulher. A decisão judicial reconhecia a dívida de 2.600 cruzeiros novos e decretava a prisão imediata. Garrincha apenas desabafou:

“Meu Deus, por que fazem isso comigo? Ninguém veio me procurar, e me condenaram sem que eu saiba de nada. Pelo desquite, não preciso pagar pensão enquanto não tiver contrato profissional.” Esse era o drama vivido por um dos maiores gênios do futebol mundial, numa época em que o dinheiro ganho ao longo de uma bem-sucedida carreira profissional não era garantia de estabilidade para o resto da vida. O caso de Garrincha era ainda mais triste, pois o jogador não se conformava em ter que deixar o futebol. Assim, era o futebol que o estava deixando. Isso apenas aumentava seu problema com o alcoolismo, o que acabaria minando sua saúde e determinando sua morte em 1983, antes de completar 50 anos.

Naquele momento, a grande amargura de Garrincha era lembrar que teve a chance de ficar rico, de ganhar milhões de dólares numa transferência para o futebol italiano, quando estava no esplendor da carreira: “Mas tive essa oportunidade cortada pelos dirigentes do Botafogo, que não quiseram me vender.”

Com um cigarro entre os dedos e vestindo bermudas e uma camisa olímpica, Garrincha falava aos jornalistas em tom de desabafo. A desilusão por viver aquela situação depois de 14 anos de carreira profissional o abatia tremendamente. Ainda mais naquele momento, em que acabara de ser enganado por um empresário que o contratou para fazer vários jogos na Bolívia, mas não pagou um centavo dos 17 mil cruzeiros novos prometidos. Enquanto isso, ouvida pela reportagem do jornal O Globo, Nair reclamava que as filhas estavam doentes e não tinha dinheiro sequer para comprar remédios: “Não torço pela prisão dele, mas a pensão deixou de ser paga há oito meses. Estou devendo dinheiro até para o armazém”, disse.

Quando a prisão de Garrincha parecia iminente, os amigos se mobilizaram e o valor devido foi pago. O salvador da pátria fora o banqueiro José Luiz de Magalhães Lins, sobrinho de Magalhães Pinto e administrador do Banco Nacional de Minas Gerais, conhecido pela generosidade com que acudia personalidades nas horas difíceis. Ele foi também um grande financiador do Cinema Novo. Glauber Rocha e Cacá Diegues, por exemplo, foram alguns dos diretores que contaram com seu apoio financeiro para realizar seus filmes. O jornalista Oto Lara Resende dizia que José Lins era “o amigo certo das promissórias incertas”. Já Nelson Rodrigues, numa das suas hipérboles características, falava que o banqueiro “ocupava um lugar que dá ao sujeito a visão de Guerra e Paz, de Balzac e de Proust.”

Aliviado, Garrincha, no meio da trajetória que daria também num grande livro, escapava de ser preso. Com seu jeito maroto, comentava o final feliz daquele imbróglio com a ex-mulher: “Preso é que não poderia pagar mesmo, pois o time da penitenciária não dá bicho por vitórias.”

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Roberto Sander é formado em Jornalismo, Publicidade e Pesquisa em Comunicação pela PUC-Rio. Foi pesquisador do CNPq e, por mais de duas décadas, atuou como repórter em alguns dos mais importantes veículos de comunicação do país, tais como SBT, TV Globo, Record e SporTV. 1968 é o seu 12º livro.

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