[Retrospectiva 1968] Ataque ao governador de São Paulo

Roberto Sander - Publicado na categoria Resenhas & Trechos em 24/05/2018


01 de maio de 1968

Num momento em que a temperatura política se elevava cada vez mais, não foi surpresa que as comemorações do Dia do Trabalho fossem marcadas por protestos. O mais grave aconteceu na cidade de São Paulo, onde o governador Abreu Sodré e vários membros da sua comitiva foram alvo de pedras e pedaços de ferro arremessados por manifestantes durante um evento na Praça da Sé.

Atingido por uma pedra, com a testa sangrando, o governador teve que se refugiar no interior da catedral, em frente à praça. Um reforço no contingente policial foi solicitado e, embora não imediatamente, dissolveu a manifestação usando cassetes, bombas e tiros para o alto. Dezenas de prisões foram feitas, e muitos manifestantes também ficaram
feridos. O palanque acabou incendiado.

A confusão começou quando um grupo de cerca de cem estudantes se infiltrou entre os cerca de dez mil trabalhadores que participavam da solenidade. Eles passaram a hostilizar tanto o governador quanto os líderes sindicais, que eram chamados de pelegos. Quando um deles, representando os bancários, subiu ao palanque e passou a elogiar Abreu Sodré por ele estar presente numa festa de trabalhadores, os manifestantes reagiram com vaias e começaram a arremessar objetos. Quando o governador foi atingido e deixou o local, o palanque foi tomado e uma série de discursos de protesto começou. Um dos que falaram foi o dramaturgo Plínio Marcos, que se identificou com “um operário do
teatro” e convocou os trabalhadores a se organizarem “para derrubar a ditadura”. Com a chegada da polícia, os manifestantes se dispersaram para logo se reunir de novo e seguir numa passeata engrossada por trabalhadores e estudantes secundaristas. Empunhavam faixas vermelhas e brancas com dizeres como “Abaixo a ditadura”, “Fora pelegos”, “Greve geral” e “Mais salários e menos abonos”.

Os manifestantes seguiram pela Rua XV de Novembro e, ao chegarem à Avenida São João, depredaram a fachada de uma agência do City Bank, que teve toda a vidraça quebrada. O movimento seguiu até a Praça da República, onde a Revolução de 1932, que teve ali seu ponto de partida, foi lembrada em um comício relâmpago. Indignado, já na sede do governo, Abreu Sodré declarava que os conflitos foram provocados por “uma minoria de cafajestes”. E desabafou: “Não serão pequenos grupos totalitários que impedirão o diálogo com os verdadeiros trabalhadores e estudantes.”

Reunidos na sede do Sindicato dos Metalúrgicos, os líderes de dezenas de sindicatos assinaram um manifesto de solidariedade ao governador e de condenação aos conflitos:
“À opinião pública nacional levamos a nossa certeza de que os dirigentes sindicais, se protestam, se discordam – e o farão sempreque for necessário –, também têm consciência e maturidade políticas necessárias para conduzir seus representantes à conquista de dias melhores. A desordem e a baderna promovidas por irresponsáveis travestidos de estudantes não contaram e jamais poderiam contar com o apoio dos trabalhadores, que, apesar de injustiçados por uma orientação econômico-financeira rígida e fria, nem por isso chegaram ao sectarismo político e à irresponsabilidade total que lhes têm sido sugerida por esse grupo.”

Enquanto isso, em Brasília, o ministro do Trabalho, Jarbas Passarinho, recebia dos órgãos de segurança informações que davam conta de que os estudantes que provocaram tumultos em São Paulo eram filiados
à Ação Popular, tida como uma organização extremista “teleguiada por Pequim”. Em nota oficial, Passarinho declarava:
“Ouvi do próprio governador Abreu Sodré o relato das lamentáveis ocorrências na capital paulista. A minoria radical que agrediu os próprios líderes sindicais e atingiu o governador paulista não era constituída de trabalhadores (…) Há que distinguir, firmemente, entre a reivindicação, a livre manifestação do protesto e a desordem dos que, portando cartazes provocadores de saudação a Guevara, não estão defendendo interesses dos trabalhadores, mas pretendendo instalar a violência como instrumento de ação.”

A agressão ao governador deixava claro que o embate com os estudantes ainda estava longe do fim. A audácia acabou provocando a demissão do diretor do DOPS de São Paulo, delegado Francisco Petrarca. O Delegado-Adjunto de Ordem Social, Claudomoro de Carvalho, também foi afastado. A queda dos dois foi relacionada à falha da segurança, que permitiu que o governador fosse agredido e o palanque do evento do Dia do Trabalhador, destruído. Nenhuma falha nos mecanismos de repressão seria mais tolerada.

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Roberto Sander é formado em Jornalismo, Publicidade e Pesquisa em Comunicação pela PUC-Rio. Foi pesquisador do CNPq e, por mais de duas décadas, atuou como repórter em alguns dos mais importantes veículos de comunicação do país, tais como SBT, TV Globo, Record e SporTV. 1968 é o seu 12º livro.

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