O Rio de Clarice: o passeio e o livro, uma aliança com a integridade

Teresa Montero - Publicado na categoria Nossos Autores em 19/09/2018


Crédito: Daniel Ramalho | Autêntica Editora

Aos professores Carlos Roquette, Milton Teixeira, João Baptista Ferreira de Mello, Rodrigo Rainha, William Martins e ao Frei Leandro do Sacramento, que em seus passeios pela cidade despertaram o desejo de cuidar e de amar o Rio de Janeiro.

“Então eu dei isso a você? Muito obrigada. Obrigada também pela adolescente que já fui e que desejava ser útil às pessoas, ao Brasil, à humanidade, e nem se encabulava de usar para si mesma palavras tão imponentes.”
Clarice Lispector – “Sentir-se útil”
Jornal do Brasil, 24/8/68

“Há uma semana minha casa está em polvorosa. Tudo para preparar a chegada do poema de um poeta que vocês e eu amamos, o maior poeta do Brasil de todos os tempos.”
Clarice Lispector. “Um presente para vocês”
Jornal do Brasil 16/2/71

O que Clarice disse, o que Clarice/viveu por nós em forma de história
em forma de sonho de história/em forma de sonho de sonho de história
(no meio havia uma barata ou um anjo?)
não sabemos repetir nem inventar. (…)
Deixamos para compreendê-la mais tarde.
Mais tarde, um dia… saberemos amar Clarice
“Visão de Clarice” – Carlos Drummond de Andrade

Sempre achei mágico passear pelo Rio de Janeiro sendo guiada pelos caminhos dos artistas que viveram aqui.
Um dia visitando Itabira, terra natal de Carlos Drummond de Andrade, fomos apresentados aos Caminhos Drummondianos. Integrávamos o elenco de Dona Rosita, a solteira, de Garcia Lorca, peça traduzida por Drummond que foi produzida pela Casa da Gávea (RJ). A parte antiga da cidade é sinalizada com placas onde podemos ler seus poemas e conhecer os passos do poeta.

Nesse dia, nasceu a inspiração para criar O Rio de Clarice dois anos após eu ter publicado Eu sou uma pergunta. Uma biografia de Clarice Lispector (Rocco, 1999).

À medida que o tempo passava, me sentia insatisfeita em dar aulas entre quatro paredes. Por que não podemos dar aulas nas ruas? A insatisfação da professora de literatura e teatro brasileiro somava-se à da cidadã, receosa de caminhar pelas ruas, triste em ver tanta violência. As ruas que têm sido o palco das grandes mudanças neste país.
A obra de Clarice e o seu modo de estar no mundo me apontaram um novo caminho. Discreta, ela não fazia nada para subir ao pódio, como me disse em entrevista seu amigo Eduardo Portella. Escrevia para viver, não cultivava prêmios. O sucesso a incomodava.

Clarice revelou seu desejo de reformar as penitenciárias, por isso foi cursar Direito. Ela queria salvar a humanidade, disse sua amiga Rosa Cass. Em sua coluna no Jornal do Brasil (citada acima na epígrafe) confessou a uma leitora ter se sentido útil por sua obra ter fortalecido sua capacidade de amar.

Por isso, batizar um projeto educativo e cultural com o seu nome, sinalizar seus caminhos na cidade onde viveu e transformá-lo em livro não pode ser somente uma homenagem a uma escritora tão amada.
Usar o nome de Clarice Lispector exige um compromisso com a integridade, com a solidariedade, como ela disse: “pelo desejo de ser útil às pessoas, ao Brasil”. É o que me move a tentar continuar, mesmo diante de tantos obstáculos, pois este é o projeto da minha vida.

A publicação da Autêntica significa para O Rio de Clarice mais do que a celebração da primeira etapa dessa jornada. Comemorar 10 anos do passeio publicando esse livro é abrir um novo canal de diálogo com a cidade, não explorado pelo mercado editorial.

Não conheço guias que conduzam o cidadão a percorrer o Rio sob a ótica de seus artistas e, neste caso, por uma escritora. A Autêntica está inaugurando um campo novo.

Percorrer os Caminhos Claricianos através do livro O Rio de Clarice – passeio afetivo pela cidade é também perceber a cidade sob diferentes ângulos, é como se o livro saísse da lombada para a rua e impulsionasse o leitor a abarcar o Rio com todos os sentidos.

As fotos de ontem, do arquivo da Biblioteca Nacional, e as de hoje, de Daniel Ramalho; os mapas, os verbetes, cada parte do livro é uma viagem no tempo e no espaço pelo Rio dos anos 1930 a 1970.
O passeio sempre estimulou o cidadão a descobrir outras maneiras de olhar o Rio refletindo sobre educação, patrimônio, artes e meio ambiente. Foi assim que ao lado de meus convidados, especialistas nos temas, promovemos esse pacto amoroso com a cidade.

A jovem Clarice não se encabulava de usar palavras tão imponentes para tentar ser útil ao Brasil; seguindo na mesma trilha peço licença para convidar os leitores de O Rio de Clarice – passeio afetivo pela cidade a percorrer os caminhos claricianos com a crença na literatura como instrumento de transformação, como uma chama para acender o exercício da cidadania e crer em dias melhores para a nossa cidade.

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Teresa Montero nasceu no Rio de Janeiro em 1964 e é professora, atriz e biógrafa. Doutora em Letras pela PUC-Rio com a tese Yes, nós temos Clarice: a divulgação da obra de Clarice Lispector nos Estados Unidos (2001), é professora do curso de licenciatura em Teatro da Universidade Estácio de Sá e dedica-se a divulgar o legado de Clarice Lispector há 28 anos.

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