O oblongo sobre o quadrado ou vice-versa: a morada de Rhoda em As ondas

Tomaz Tadeu - Publicado na categoria Palavra da Editora em 08/10/2021


Há muitos mistérios em As ondas. Mas o mais intrigante deles é, talvez, o da morada feita de um quadrado sobre um oblongo (ou um retângulo, para simplificar), introduzido por Rhoda no quinto solilóquio e depois retomado no sétimo e no oitavo. Ou de um oblongo sobre um quadrado, a ordem não importa. O que importa é que eles não coincidem: é irrelevante qual vai embaixo ou qual vai em cima. Algo fica de fora, mas deixemos isso de lado, por enquanto.

Observe-se, antes de mais nada, que o oblongo e o quadrado são figuras geométricas planas, embora o contexto, na minha interpretação, pareça sugerir que Virginia estava pensando em figuras tridimensionais, paralelepípedo e cubo, respectivamente. Um quadrado em cima de um oblongo ou vice-versa não faz uma casa; quando muito, apenas um terreno.

Depois, entrando já no campo da interpretação, a revelação que tem Rhoda ao ouvir o quarteto de cordas não é figurativa. A casa, a morada, assim constituída ou construída não está no lugar de outra coisa, não representa outra coisa. Ela não é como outra coisa. Ela é a coisa. A coisa mesma. A coisa, ponto. Rhoda (e, indiretamente, Virginia) está justamente rejeitando a similitude que é inerente à linguagem, embora, contraditoriamente, utilizando-se, nessa operação, da própria linguagem assim posta em dúvida. Na verdade, é paradoxal que a crítica do metaforismo nessa passagem seja feita num livro pleno justamente de símiles e metáforas. Ou, quem sabe, tenha sido essa mesma a ideia da romancista: a impossibilidade de problematizar a utilização de imagens num veículo, a linguagem, feito justamente, em grande parte e de forma intrínseca, de imagens e metáforas.

Mas, deixando de lado essa contraditória autocrítica da linguagem, a coisa constituída pela sobreposição de um oblongo sobre um quadrado ou vice-versa não é uma casa que Rhoda possa habitar, propriamente falando. Os outros espectadores seguramente não “viram” nenhuma casa. Por outro lado, embora Rhoda utilize, na maior parte dessas passagens sobre a tal morada, a primeira pessoa do plural, o “nós” que está aí implicado parece se referir aos outros cinco personagens, embora eles, obviamente, não tivessem tido a mesma sensação. Mas a visão, a fantasia, a revelação que ela tem não está no lugar de outra coisa: ela é a coisa.

A visão de Rhoda não difere muito da que tem Septimus, em Mrs Dalloway , no Regent’s Park: “Mas eles [os olmos] lhe acenavam; as folhas estavam vivas; as árvores estavam vivas. E as folhas, ligadas como estavam por milhões de fibras com seu próprio corpo ali no banco, abanavam-no para cima e para baixo; quando o galho se esticava, também ele fazia essa menção. Os pardais esvoaçando, subindo e mergulhando nos chafarizes de pedra chanfrada, faziam parte do motivo; o branco com azul, atravessado por ramagens escuras. Com premeditação, os sons produziam harmonias; os espaços entre eles eram tão significativos quanto os sons.” (Mrs Dalloway, Autêntica, p. 24). Mas a escritora de As ondas é, sem dúvida, muito menos explícita que a escritora de Mrs Dalloway. De qualquer maneira, para Septimus, os olmos não pareciam acenar-lhe, os olmos acenavam-lhe. Trata-se, nos dois casos, de pura sensação. Em estado bruto.

Enfim, a morada de Rhoda não é uma similitude, não está no lugar de outra coisa, não representa um outro elemento. Ela é ela mesma. O quarteto (aqui quase tudo é quatro), provavelmente de Beethoven, que Virginia gostava de ouvir enquanto terminava a escrita de As ondas, apenas faz surgir, imanente, intrínseca, inerentemente, em Rhoda a sua morada, sem nenhum apelo a algo fora dela, a algo para além dela.

Mas não terminemos essa discussão inicial sobre a morada de Rhoda sem falar de um terceiro elemento, raramente lembrado nos textos críticos que tratam dessa passagem: a espiral que completa a “descrição” dessa casa tão primitiva: “O oblongo fora posto sobre o quadrado; a espiral está no topo”. Se um dos dois elementos principais é a parte inferior da casa e o outro é o telhado, a espiral não seria a chaminé, de onde a fumaça sai em espirais?

As passagens sobre o oblongo e o quadrado têm sido objeto de análises feitas a partir dos mais variados ângulos e perspectivas teóricas, em geral, discordantes ou contraditórias. Elas vão desde interpretações filosóficas, baseadas, por exemplo, em Heidegger (Judith Wilt, “God’s Spies. The Knower in The Waves”) ou em Bergson (Laci Mattison, “The Metaphysics of Flowers in The Waves. Virginia Woolf’s Seven-Sided Flower and Henri Bergson’s Intuition”), até análises mais textuais ou mais especificamente literárias como a de Tamar Katz (Impressionist Subjects: Gender, Interiority, and Modernist Fiction in England) ou a de Haruna Hirohata (The Structure is Visible: Rhoda’s Moment of Being in The Waves), passando por abordagens psicológicas ou psicanalíticas, como a de Shirley Panken (Virginia Woolf and the Lust of Creation: A Psychoanalytic Exploration), por exemplo. E há muitas outras…

Ao fim e ao cabo, o que importa é que As ondas, tal como qualquer outro texto literário é um campo aberto às mais variadas e discordantes leituras. A minha, como tradutor que, por dever de ofício, se debruçou sobre ele, vale tanto quanto qualquer outra. É o prazer do texto.

P.S.: Por falar em imagens, é interessante saber como Virginia respondeu, em agosto de 1935, a uma carta de John Lehmann, o poeta da “Carta a um jovem poeta” e, durante um tempo, parceiro dos Woolfs na Hogarth Press, em que ele perguntava como ela “desenvolvia as imagens associadas com cada personagem do livro” (John Lehmann, Thrown to the Woolfs): “Naturalmente, minha tentativa era de conseguir aquele tipo de efeito, por aqueles meios – metáforas, ritmo, repetição, como você diz. Mas, na escrita real, nossa mente, como você sabe, entra em transe, e as diferentes imagens parecem vir inconscientemente. Para mim, entretanto, é muito interessante ver quão deliberado isso parece para um crítico. Naturalmente, a maior parte do trabalho é feito antes de escrever, e a concentração da escrita faz com que se esqueça qual é o efeito geral”.

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