O clássico e o antenado

Jean D. Soares - Publicado na categoria Resenhas & Trechos em 10/01/2019


Texto publicado originalmente na Revista SÍNTESE de n. 143 (2018).
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A partir de uma reflexão sobre uma conhecida entrevista de Michel Foucault, “A armadilha de Vincennes”, salientaremos alguns aspectos do livro didático de Juvenal Savian Filho, Filosofia e Filosofias, nos perguntando em que medida ele pode ser visto como um livro clássico ou um livro antenado para trabalhar com o ensino médio.

A armadilha. Foucault responde a acusação do ministro da educação da época de que o ensino de filosofia pelo qual o autor era responsável na recém-criada Universidade de Vincennes era “demasiado particular e ‘especializado’”. Com isso, o ministro sugeria que os estudantes formados naquela universidade não deveriam ter o direito de trabalhar no ensino secundário (cf. DE II: 67). A entrevista começa com uma retomada do próprio Foucault sobre as questões: “O que a filosofia tem de tão precioso, e de tão frágil para que seja preciso, com tanto zelo protegê-la? O que há em Vincennes de tão perigoso?”. Sua resposta começa falando de um sonho, diz ele:

“Sonho com um Borges chinês que citaria, para distrair seus leitores, o programa de uma classe de filosofia na França: “O hábito; o tempo; os problemas particulares da biologia; a verdade; as máquinas; as matérias, a vida, o espírito, Deus – tudo num só golpe, e sobre a mesma linha –, a tendência e o desejo; a filosofia, sua necessidade e sua tarefa”. Mas nós, nós devemos segurar o riso: o programa foi feito por pessoas inteligentes e instruídas. Escribas para não botar defeito, eles fazem por bem retranscrever em um vocabulário por vezes arcaico, por vezes desempoeirado, uma paisagem que nos é familiar e pela qual nós somos responsáveis. Mas, sobretudo, conserva-se o essencial, ou seja, a função da classe de filosofia. E essa função, ela me parece uma posição da classe de filosofia. Posição privilegiada, uma vez que é a classe final – o “coroamento”, como se diz, do ensino secundário. Posição ameaçada: há cem anos, não cessamos de contestar a existência, propõem-se sempre suprimi-la.”

Não deixa de ser curiosa essa remissão que carrega consigo a crítica ao enciclopedismo clássico e assinala novas possibilidades: o “Borges chinês” surge como uma personagem que ao mesmo tempo nos incita o riso – como no prefácio de As palavras e as coisas – mas que nem por isso não deve ser levado a sério. É curioso como Foucault encontra possibilidades de falar através dessa personagem de seus sonhos. Com ela, ele se permite abordar ao mesmo tempo a importância e o estranhamento que confere à paisagem da filosofia de seu tempo. A listagem, como aquela do texto de Borges, mistura ecleticamente temas universais e específicos, apostos na mesma linha “os problemas particulares da biologia”, “a verdade”, “Deus” e “a filosofia, sua necessidade e sua tarefa”. O estranhamento leva o então diretor de filosofia de Vincennes a modular sua fala com distanciamento em relação a seu próprio campo, com uma personagem que fala da filosofia como disciplina, distanciando-se tanto quanto possível dela para apontar para posições – a de privilégio e de ameaça.

Não é de hoje, portanto, que a filosofia incomoda. De Sócrates a Foucault, os exemplos de tentativas de sua supressão e de contestação são muitos: a posição que ela ocupava nos círculos gregos, voltada a jovens, no ensino secundário francês da época do autor, bem como ocupa hoje, no ensino médio brasileiro: em todos esses casos ela foi atacada e sua existência no currículo questionada. E nos dois últimos, o privilégio duramente conquistado de participar do “coroamento” dos anos de ensino é ameaçado pelos que acreditam que a escola forma para o mundo do trabalho e não para a vida, no sentido amplo e corriqueiro da expressão. O caráter reflexivo incomoda quem resume a existência a funções meramente (re)produtivas — a filosofia está ali a dar, na expressão de Foucault, “a consciência benéfica de que eles [os alunos do secundário] têm (…) um direito de olhar sobre o conjunto das coisas”. Trata-se, ele continua, não de um saber, mas de “uma certa maneira de refletir, que permite sempre retomar a questão e o seu contrário”.

A isso os detratores da filosofia podem sempre objetar, sugere o autor, dizendo que “Os professores de filosofia são uns tagarelas, sempre inúteis, e por vezes, perigosos”; “Eles falam daquilo que não lhes diz respeito; e se arrogam o direito de criticar tudo – o conhecimento que eles não têm e a sociedade que os nutre”; “É urgente que os alunos não percam mais seu tempo”; “Suprimamos toda essa confusão” (Ibidem). E se pusermos em diálogo esses trechos com o sonho anterior evidencia-se outra vez o contraditório na discussão, levando a sério contra-argumentos, independentemente de serem falaciosos ou mal-intencionados. Não se pode esquecer como alguns olham a posição social do filósofo. A imagem que dele fazem muitas vezes é essa de um tagarela em uma sociedade frequentemente voltada para a utilidade, para a reprodução de um modo de vida específico e para a compulsória denegação da atividade reflexiva que reproduzir pode suscitar. Os que recorrem a esses argumentos elaboram uma versão moderna, distorcida e apressada da crítica aristofânica a Sócrates. Crítica que inclui evidentemente a sugestão de que não há tempo a perder com críticas, contradição performativa que, sem qualquer rigor, quer desqualificar o filósofo como alguém bem nutrido que fala do que não sabe. Uma maneira bastante coerente de atacar o lugar social alcançado pela filosofia – através da completa denegação da mínima reflexão. Daí a armadilha, sugere Foucault:

“Me parece que querer conservar a classe de filosofia em seu velho formato é cair na armadilha. Pois essa forma está ligada a uma função que está, mais uma vez, prestes a desaparecer. E o dia virá logo em que se ouvirá dizer: “Por que ainda conservar um ensino tão em desuso e tão vazio, em uma época em que todo saber foi reorganizado? O que significa, doravante, essa reflexão universal crítica? É urgente se lançar para além dessa fronteira.”

Um clássico com atitude. É se lançando além dessa fronteira que Juvenal Savian Filho traz ao público brasileiro Filosofia e filosofias – Existência e sentidos (Autêntica, 2016), um livro que será longamente celebrado, enquanto resistir – e espero que por um tempo borgianamente incalculável – a filosofia no ensino médio. Será celebrado não só pela consistência acadêmica do autor, mas por sua amplitude de experiência. Se por um lado, em sentido amplo, ele apresenta uma tese sobre o que é a filosofia, por outro, como um filósofo medieval que é, Savian Filho a formula de maneira tal a abarcar uma pluralidade de filosofias. Sua definição é bastante clara:

“Entende-se aqui por atitude filosófica geral ou por “pensamento do pensamento” o trabalho de investigação dos sentidos que se revelam ou que são construídos nas mais diversas áreas da experiência humana e que são expressos publicamente para referir essa experiência. Trata-se de uma concepção bastante ampla (assim como é amplo o uso do termo sentido, aqui), visando não propriamente oferecer uma definição única de Filosofia, mas assumir a possibilidade de adotar uma visão, digamos, “englobante”, a qual, por sua vez, apontando para a experiência do pensamento do pensamento, seja capaz de destacá-lo como uma característica que aparece, em maior ou menor grau, nas diferentes filosofias, respeitando-se suas especificidades.”

Essa definição “englobante” de filosofia faz apelar para certa “performatividade” cada vez mais adequada ao ensino contemporâneo de filosofia: ao invés de ter certeza do que é ou não um conteúdo legitimamente filosófico, trata-se de perceber quando se faz presente essa atitude de reflexão à qual alude Foucault nos trechos supracitadas e que Savian chama de o “trabalho de investigação dos sentidos” revelados ou construídos “nas mais diversas áreas da experiência humana”. É nessa medida que esse livro pode carregar consigo dois predicados aparentemente contraditórios quando o assunto é “livro didático de filosofia”: ele é simultaneamente clássico e antenado.

Um filósofo medieval não poderia deixar de apresentar o clássico no que ele tem de melhor: o clássico aparece na medida em que Savian Filho fornece elementos básicos para um professor trabalhar através da história da disciplina. A Unidade 3 fornece “Chaves de leitura para o estudo de História da filosofia” que vão da mitologia grega, na qual o conceito foi gestado na forma como o utilizamos na tradição dita “ocidental” até as filosofias contemporâneas, incluído aí o capítulo “Filosofia no Brasil”5. Na Unidade 1, o autor discute ainda temas “instrumentais” que possibilitam ao aluno adquirir habilidades mínimas do ponto de vista lógico e argumentativo para seguir adiante, bem como não se esquiva de trabalhar de maneira muito clara conceitos de difícil trato como o de “desconstrução”, “existência”, “respostas” e “saber” logo de saída.

Arquitetura cotidiana. Porém, é o lado “antenado” deste filósofo medieval que nos surpreende. Primeiro pela ordem dos fatores que, neste caso, altera o produto. Ele começa falando de desconstrução para, em seguida, nos levar a pensar em teoria da argumentação, bem como trata filosoficamente um sem número de temas para só ao final do livro abordar consistentemente a História da disciplina. Essa inversão dos sentidos tradicionais é uma interessante maneira de não cair em armadilhas como a de Vincennes. Primeiro, fala-se do sentido da existência, da felicidade, da amizade, da sexualidade, do amor e do desejo, da sociedade e da política para só então entrarmos nos campos temáticos mais tecnicamente filosóficos – ética, estética, religião e epistemologia, bem como a última unidade dedicada à História da Filosofia.

Essa “arquitetura” é digna de nota. O livro abre “Portas para a Filosofia”, título da unidade 1; como quem senta num banquete ou numa boa reunião de amigos, em seguida, traz “temas tratados filosoficamente” para a conversa na unidade 2; para, por fim, dar aos que desejarem as “Chaves de leitura” que abrem caminho para um ensino mais clássico de filosofia na unidade 3. Savian Filho aposta assim no cotidiano da sala de aula como alicerce de um bom desenvolvimento pedagógico – é de um enunciado grafitado, estampado na capa, que parte a reflexão de seu livro.
Ferramentas. Do ponto de vista dos recursos didáticos, os exercícios no corpo do texto são objetivos e simples, úteis como pequenas táticas antenadas e eficazes, uma vez que elenca questões fáceis de trabalhar em grupos menores, e fomentadas com imagens e informações elementares para a discussão. Isso evita dispersões de leitura e permite ao aluno sedimentar o conteúdo em prática. No manual do professor, aqueles que desejarem exercícios mais aprofundados encontram sugestões de atividades complementares que fazem uso do conteúdo abordado no capítulo aprofundando a reflexão, bem como esquemas visuais explicativos para cada capítulo.

Para cada tema abordado, Savian explicita os objetivos visados, as considerações metodológicas necessárias para a abordagem bem como uma bibliografia técnica específica para o professor em seu manual, munindo-o de conteúdos objetivos e de alguma margem para se aprofundar na pesquisa quando for o caso. Uma vez mais o clássico concatena-se com o antenado: há em alguns casos QR codes para textos disponíveis on-line exclusivos para o professor.

O corpo do texto está repleto de caixas de texto que ajudam a quebrar a monotonia sentida pelo leitor que não estiver acostumado a conceder atenção às palavras. QR codes, imagens, notas com perfis de autores ou com verbetes menos usuais, caixas de texto de filósofos, bem como dicas de conceitos estratégicos facilitam em muito a manutenção de um ritmo de leitura e mostram o quanto o livro está conectado com o presente. Ciente do declínio da atenção que avança na sociedade contemporânea, Savian Filho não cede no conteúdo, mas cria uma forma de livro didático que permite aos menos aventurados na reflexão filosófica uma entrada sólida e bem arquitetada com as redes, as imagens e o conteúdo dispo- nível. Essa dinâmica de deslocamentos contínuos do olhar pela página, proposta pela diagramação do livro, rompe com uma tradição de texto pelo texto de maneira corajosa, levando o aluno a sentir o que é ler um livro de filosofia que não é sisudo, tampouco mal-humorado, sem abrir mão, todavia, da seriedade.

Há propostas diversificadas de estratégias de uso do livro. Há recomendação de uma concisa bibliografia complementar didática comentada, e nos capítulos temáticos à didática agrega-se uma bibliografia literária comentada, bem como uma lista de filmes que ajudam a sedimentar o conteúdo trabalhado em cada capítulo, apresentados com sinopses que sensibilizam o aluno aos conteúdos das películas.

Hábito de filosofia. Na discussão metodológica, Savian Filho esclarece consis- tentemente sua abordagem da história da filosofia, dos temas e dos conceitos que explora, bem como atenta para os recursos linguísticos necessários para o ensinar filosofia, o lugar cada vez mais crucial da interdisciplinaridade. Exemplo disso é a preciosa noção de “hábito de filosofia”. Ele sugere que se há algo de constante na atividade filosófica se trata da investigação dos diferentes sentidos da experiência humana, de se perguntar sobre os motivos pelos quais pensamos, ou, como ele mesmo sugere:

“Parece possível caracterizar a Filosofia ou a atitude filosófica geral como um hábito que se desenvolve (o da investigação dos sentidos e do modo como eles são expressos; numa palavra, o hábito de pensar o pensamento). Ensinar Filosofia, por sua vez, pode ser entendido como a atividade de possibilitar que os estudantes entrem em contato com esse hábito da Filosofia e tenham a oportunidade de desenvolvê-lo eles mesmos.”

Ensinar aqui é menos a ação de fornecer um conteúdo do que a de abrir uma possibilidade, de nutrir um hábito. Savian Filho compreende que o ensino de Filosofia exige atitudes e hábitos específicos por parte do professor, uma vez que ele não precisa assumir a postura de quem tudo já sabe e está ali para transmitir sua sabedoria. Pelo contrário, e em ato socrático, o ensino de Filosofia constitui uma oportunidade mesma de desenvolver o hábito de pensar, de não só se colocar no lugar daquele que não sabe, como por vezes, assumir não saber para elaborar ainda uma vez mais a pergunta. Com isso, ele deixa claro, não está interessado em criar uma espécie melhor de pessoas ao transmitir-lhes um conteúdo específico e secreto, um modo pelo qual deveriam agir ou uma maneira de pensar que seria a apropriada. Cito-o:

“Não se trata, porém, de entender a Filosofia como hábito para “melhorar” as pessoas, sobretudo se por “melhorá-las” se entende transmitir a elas algo como um pensamento filosófico específico, uma postura ética determinada ou algo do tipo (pois tal atitude incorreria em doutrinação, algo profundamente antifilosófico). Se, porém, “melhorá-las” significa ampliar seus horizontes de compreensão de si mesmas e dos outros, bem como de suas capacidades comunicativas (o que não deixa de ter óbvias consequências éticas, epistemológicas etc.), então nada parece impedir que se atribua esse papel ao hábito da Filosofia.”

Pressupondo a autonomia e o exercício da liberdade, o hábito periódico de pensar o pensamento, de se perguntar pelas razões amplia o horizonte de compreensões de si e de outros. Ele faz com que o aluno possa aprender a lidar com o conflito de argumentos contrários entre si, de modo a avaliar perspectivas e razões para a defesa de cada uma das partes, e revendo posições anteriormente assumidas. O hábito de filosofia, Juvenal não o diz, mas sugere ao falar das capacidades comunicativas. Se comunicar pressupõe aprender a ouvir o que pretende ser comunicado, nutrir o hábito de filosofia amplia a capacidade de escutar aquilo que, no interior de uma mesma língua, é diferente do que se está acostumado a ouvir.

Pelas razões aqui apresentadas, o clássico e o antenado se encontram muito bem misturados neste livro de Savian Filho, que já nasce bem-vindo, pois colabora para a preservação do espaço necessário da filosofia no ensino médio. Isso não simplesmente porque, como costumam dizer alguns ministros, os professores de filosofia gostam de falar inutilidades perigosas, mas para mostrar o quanto, nos dizeres de Guimarães Rosa, “viver é muito perigoso”, ainda mais quando, com argumentos falaciosos, com armadilhas e perfídias, o lugar social do pensamento, do diálogo discordante se vê a cada dia mais ameaçado.

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Jean D. Soares é doutor em Filosofia pela PUC-Rio. Desenvolve com a artista Virgínia Mota a Área de Convivência, um projeto físico, escrito e dialógico de escuta artística em espaços públicos. Pai da Aurora, é músico e editor de rádio, bem como tem participado de eventos nas áreas de arte, literatura e filosofia na América do Sul e na Europa. É colaborador editorial da Autêntica Editora.

Referências Bibliográficas
CRARY, Jonathan. 24/7: capitalismo tardio e os fins do sono. São Paulo: Cosac Naify, 2015.
HAN, Beyung Chung. A sociedade do cansaço. Lisboa: Relógio d’Água, 2015.
FOUCAULT, Michel. “La piège de Vincennes”. In: Dits et écrits – tome II. Paris: Gallimard, 1994. pp.67-74. . Dits et écrits — Tome I-IV (DE). Paris: Gallimard, 1994.
ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006. TURCKE, Christopher. Hiperativos! São Paulo: Paz e Terra, 2016.

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