O amor em meio a guerra, fome e morte

Cézar Motta - Publicado na categoria Resenhas & Trechos em 16/02/2022


Uma das obras-primas da literatura brasileira, Os Sertões (1902), de Euclides da Cunha, sempre foi uma quase obsessão para o escritor gaúcho radicado em Brasília Lourenço Cazarré. Quem conhece a literatura produzida na capital sabe que Cazarré é um dos melhores e certamente o mais produtivo escritor da cidade, além de ser um dos mais premiados do Brasil.


A paixão pelo livro de Euclides começou há 44 anos com a primeira leitura. Seguiram-se outras, mais maduras. Quando Cazarré deu a largada em sua própria carreira de escritor, já em Brasília nos anos 80, não entendia por que nunca se havia feito um livro de ficção que tivesse a Guerra de Canudos como pano de fundo – com todos seus sofrimentos, dramas e o posterior massacre dos seus mais de 20 mil habitantes.


Cazarré ainda não sabia, mas o húngaro Sándor Márai, vivendo nos Estados Unidos, já havia lido uma versão em inglês de Os Sertões, feita nos anos 60. Ficou também absolutamente fascinado e escreveu Veredicto em Canudos, publicado em 1970 no Canadá, em húngaro. Em 1981, Mario Vargas Llosa lançou A Guerra do fim do mundo, o que quase provocou a desistência definitiva do jornalista gaúcho pelo tema euclidiano.


Mas com seus quase 50 livros na bagagem e mais de 20 prêmios nacionais no curriculum, Lourenço Cazarré voltou à carga quando leu a versão brasileira de Veredicto em Canudos, há cerca de dez anos. E o resultado é Amor e guerra em Canudos, voltado para o seu público preferencial, o juvenil, mas que é leitura excelente também para adultos. Uma história de amor que envolve três jovens: uma moça e dois rapazes, em meio a mortes, fanatismo religioso e um fim que se anuncia violento e assustadoramente próximo.

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Uma das grandes virtudes do livro é que leva obrigatoriamente quem o lê a ir mais fundo na História do Brasil do período, marcada pelo violento surgimento da República. E pode também estimular a leitura dos jovens. A invasão iminente de Canudos pelo exército brasileiro, e os três ataques que destruíram a cidade em pouco mais de um ano, são descritos pelo ponto de vista da personagem Maria Guilhermina, de 15 anos, de dentro do armazém do pai, onde trabalha, e de sua própria residência. Um sobrado em cima do comércio. A família chegou a Canudos vinda de Salvador pouco antes da guerra, com o pai encarregado do abastecimento da cidade. A guerra é descrita pela moça em episódios de violência apenas entrevistos de dentro do armazém, e pelas narrativas do irmão gêmeo, um combatente ativo.


Ao mesmo tempo, Maria Guilhermina tenta administrar em si própria as paixões de dois jovens, um militar inglês e um poeta pernambucano, ambos membros do improvisado sistema de defesa de Canudos. O messiânico e enlouquecido líder de Canudos, Antônio Conselheiro, é tio do pai de Maria Guilhermina, e tem três aparições ao longo da narrativa. A miséria, a dor e a fome são personagens constantes, e formam um dolorido contraste com o amor que envolve os três jovens.


O massacre de Canudos é um dos mais violentos e cruéis episódios da história brasileira, dos que podem ser classificados como genocídio – o extermínio intencional de uma grande comunidade: homens, mulheres e crianças. Amor e guerra em Canudos, de Lourenço Cazarré, tem 220 páginas e ilustrações de enorme bom gosto de Christiane Costa. A editora é a Yellowfante.


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