Leia o primeiro capítulo de 'Eu terei sumido na escuridão'

Michelle McNamara - Publicado na categoria Resenhas & Trechos em 18/10/2018


IRVINE, 1981

DEPOIS DE CONCLUIR SEU TRABALHO NA CASA, a polícia disse a Drew Witthuhn: “É toda sua”. A fita amarela foi removida; a porta da frente, fechada. A impassível precisão dos policiais em seu trabalho ajudara a desviar a atenção da mancha. Não havia como não vê-la agora. A cama de seu irmão e de sua cunhada ficava logo ao entrar pela porta da frente, bem diante da cozinha. Em pé junto à pia, Drew só teve que virar a cabeça para ver o esguicho
escuro que manchava a parede branca acima da cama de David e Manuela.

Drew orgulhava-se de não ser melindroso. Na Academia de Polícia, eram treinados para lidar com o estresse e não se abalar nunca. Resistir às emoções era um requisito para se formar. Mas até a noite de sexta-feira, 6 de fevereiro de 1981, quando a irmã da sua noiva parou junto à mesa dele no Rathskeller Pub em Huntington Beach e disse ofegante: “Drew, ligue pra sua mãe”, ele não imaginara que seria obrigado a usar essas habilidades – a de ficar de boca fechada e olhar firme para a frente enquanto todos os demais gritavam de olhos esbugalhados – tão cedo ou tão perto da sua casa.

David e Manuela moravam no número 35 da rua Columbus, em uma casa térrea de Northwood, um conjunto residencial novo em Irvine. O bairro era uma das ramificações de subúrbio que se estendiam no que restara do velho rancho Irvine. Laranjais ainda dominavam os arredores,
margeando o concreto e o asfalto intrusos com suas imaculadas fileiras de árvores, junto a um galpão de processamento e de alojamentos para colhedores. O futuro daquela paisagem em transformação podia ser medido pelo som: o estrondo de caminhões despejando cimento ia abafando o dos tratores, cada vez em menor número.

Um ar ameno mascarava a transformação acelerada de Northwood. Fileiras de altos eucaliptos, plantados por fazendeiros na década de 1940 como proteção contra os fortes ventos de Santa Ana, não haviam sido derrubadas, mas tinham agora outro propósito. As construtoras usaram as árvores para dividir as avenidas principais e separar os núcleos. O loteamento de David e Manuela, Shady Hollow, era um núcleo de 137 casas, com quatro tipos de plantas disponíveis. Eles escolheram a Planta 6014, “O Salgueiro”, com três quartos, 140 metros quadrados. No final de 1979, quando a casa ficou pronta, eles se mudaram.

Para Drew, a casa parecia típica de gente mais velha, embora David e Manuela tivessem apenas cinco anos a mais que ele. Primeiro, porque era nova em folha. Os armários da cozinha brilhavam, pelo pouco uso. A geladeira ainda cheirava a plástico por dentro. E a casa era muito espaçosa. Drew e David haviam sido criados numa casa mais ou menos do mesmo tamanho, mas nela espremiam-se sete pessoas, era preciso ter paciência para aguardar sua vez de tomar banho, e jantavam todos acotovelados na mesa. David e Manuela guardavam as bicicletas num dos três quartos da casa; no outro quarto vago, David guardava sua guitarra.

Drew tentava ignorar uma ponta de ciúmes, mas a verdade é que invejava o irmão mais velho. David e Manuela estavam casados havia cinco anos, e os dois tinham emprego fixo. Ela trabalhava com empréstimos no California First Bank; ele era vendedor na House of Imports, uma revenda da Mercedes-Benz. Unidos por aspirações de classe média. Eles passavam um bom tempo discutindo se deveriam ou não erguer um muro de tijolos na frente da casa e qual seria o melhor lugar para comprar bons tapetes orientais. A casa número 35 da rua Columbus era um esboço aguardando ser preenchido. Seus espaços vazios davam-lhe um ar de promessa. Drew sentia-se comparativamente atrasado e imaturo.

Depois de sua primeira visita, raramente Drew passava algum tempo na casa deles. O problema não era exatamente o nível de ressentimento, mas talvez o desprazer. Manuela, filha única de imigrantes alemães, era rude, às vezes de um jeito desconcertante. No California First Bank, era conhecida por ficar dizendo às pessoas quando é que tinham que cortar o cabelo ou por apontar os erros dos outros. Ela mantinha uma lista privada de erros que seus colegas haviam cometido, que ela escrevia em alemão. Era magra, bonita, com os ossos do rosto salientes e implantes nos seios; decidira fazer o procedimento depois de casar, porque tinha o peito pequeno e David, segundo confessou ela a uma colega, meio dando de ombros, ressentida, parecia preferir peitos grandes. Mas não fazia ostentação da nova aparência. Ao contrário, preferia gola olímpica e mantinha os braços cruzados junto ao corpo, como alguém que está a postos para uma briga.

Drew podia ver que o relacionamento funcionava bem para o irmão, mais retraído e hesitante, com uma maneira de falar mais tangencial do que direta. Mas era muito frequente Drew sair da companhia deles irritado com a energia de Manuela, com suas reclamações que causavam atritos em cada espaço em que entrava.

No início de fevereiro de 1981, Drew soube por meio de comentários que circulavam na família que David não estava se sentindo bem e fora internado no hospital, mas fazia um tempo que não via o irmão e não tinha planos de visitá-lo. Na segunda-feira, 2 de fevereiro, Manuela internara David no hospital comunitário Santa Ana-Tustin, com uma grave virose gastrointestinal. Nas noites seguintes, manteve a mesma rotina: ia à casa dos pais jantar, e depois até o quarto 320 do hospital, para ver David. Falavam-se todos os dias e todas as noites por telefone. No final da manhã de uma sexta-feira, David ligou para o banco para falar com Manuela, mas os colegas disseram que ela não tinha ido trabalhar. Ligou para casa, mas ninguém atendia ao telefone, o que o deixou intrigado. A secretária eletrônica deles sempre atendia depois do terceiro toque; Manuela não sabia lidar com o aparelho. Em seguida, ele ligou para a mãe dela, Ruth, que concordou em dar um pulo de carro até a casa, atrás da filha. Quando viu que ninguém atendia, usou sua chave para entrar. Alguns minutos depois, Ron Sharpe,* um amigo próximo da família, recebeu uma ligação de Ruth, histérica.
– Eu dei uma olhada à minha esquerda e vi as mãos dela abertas desse jeito, e o sangue espalhado pela parede – contou Sharpe aos detetives. – Não conseguia entender como o sangue tinha chegado até a parede desde o lugar onde ela estava deitada.

Ele deu apenas uma olhada no quarto, não voltou para olhar de novo.

Manuela estava deitada na cama de bruços. Vestia um robe marrom de tecido aveludado e estava meio enfiada num saco de dormir, no qual às vezes dormia quando sentia muito frio. Marcas vermelhas rodeavam seus pulsos e tornozelos, evidência de amarras, que haviam sido removidas. Uma chave de fenda grande estava largada no pátio de concreto a meio metro da porta de vidro corrediça dos fundos. O mecanismo de trava da porta havia sido forçado.

Uma tevê de 19 polegadas havia sido levada de dentro da casa até o canto sudoeste do quintal dos fundos, encostada a uma cerca de madeira alta. O canto da cerca estava levemente afastado, como se alguém tivesse batido na cerca ou saltado com excessiva força. Investigadores observaram marcas de sapato, com um padrão de pequenos círculos, nos quintais da frente e dos fundos, e em cima do medidor de gás no lado leste da casa.

Uma das primeiras peculiaridades que os investigadores observaram foi que a única fonte de luz no quarto vinha do banheiro. Perguntaram a David sobre isso. Ele estava na casa dos pais de Manuela, onde um grupo de familiares e amigos se reunira ao saber da notícia, para se lamentar e se consolar. Os investigadores notaram que David parecia abalado e confuso; a dor deixara sua mente à deriva. Não terminava de dar suas respostas. Mudava de assunto de repente. A pergunta sobre a luz confundiu-o.
– Onde está a luminária? – ele perguntou.

Uma luminária com uma base quadrada e uma estrutura de metal cromado, na forma de uma bola de canhão, havia sumido de cima da caixa de som, do lado esquerdo da cama. Sua ausência deu à polícia uma boa ideia sobre o objeto pesado que havia sido usado para agredir Manuela até a morte.

Perguntaram a David se ele sabia por que a fita cassete havia sido removida da secretária eletrônica. Ele estava em choque. Balançou a cabeça. A única explicação possível, disse ele à polícia, era que a voz de quem quer que tivesse matado Manuela estivesse gravada na secretária.

A cena era muito bizarra. Muito bizarra para Irvine, que tinha poucos crimes. Era muito bizarra para o Departamento de Policia de Irvine; para alguns deles, parecia uma coisa montada para despistar. Algumas joias estavam desaparecidas e a televisão fora arrastada até o quintal. Mas que ladrão deixa sua chave de fenda largada? Ficaram imaginando se o assassino era alguém que Manuela conhecia. O marido estava passando a noite no hospital. Ela convida um homem conhecido. Ele fica violento e tira a fita cassete da secretária eletrônica, sabendo que sua voz está lá gravada; depois força a porta corrediça e então, num toque final da farsa, deixa a chave de fenda largada.

Mas outros duvidavam que Manuela conhecesse o assassino. A polícia interrogou David no Departamento de Polícia de Irvine, um dia depois de terem achado o corpo. Perguntaram se os dois haviam tido algum problema com ladrões no passado. Depois de pensar um pouco, ele mencionou que três ou quatro meses antes, em outubro ou novembro de 1980, tinha visto pegadas que ele não soube explicar. Para David, elas pareciam ser de um tênis, e atravessavam toda a casa e iam até o quintal. Os investigadores estenderam um pedaço de papel na mesa e pediram que David desenhasse as pegadas do melhor jeito que conseguisse lembrar. Ele fez um esboço rápido, preocupado e exausto. Ele não sabia que a polícia tinha um molde em gesso da pegada que o assassino de Manuela deixara ao espreitar a casa na noite do assassinato. Ele devolveu o papel. Havia desenhado uma pegada do pé direito de um tênis com solado de pequenos círculos.

Agradeceram a David e o liberaram para voltar para casa. A polícia colocou seu esboço ao lado do molde em gesso. Coincidiam.

Em geral, criminosos violentos são impulsivos, desorganizados, e facilmente pegos. A grande maioria dos homicídios é cometida por pessoas conhecidas pela vítima e, apesar das manobras para tentar despistar a polícia, esses agressores costumam ser identificados e presos. É uma pequena minoria de criminosos, talvez cinco por cento, que representa o maior desafio – aqueles cujos crimes revelam um planejamento prévio e uma fúria sem remorsos. O assassino de Manuela tinha todas as marcas desse último tipo. Havia as amarras, depois removidas. A ferocidade dos ferimentos na sua cabeça. O intervalo de vários meses entre uma aparição e outra das solas com pequenos círculos sugeria o movimento insidioso de alguém rigorosamente observador, cuja brutalidade e cujos planos só ele conhecia.

Ao meio-dia de sábado, 7 de fevereiro, depois de peneirar pistas por 24 horas, a polícia fez mais um exame e depois autorizou a liberação da casa de volta para David. Isso foi antes da existência de companhias profissionais especializadas em limpar cenas de crimes. A fuligem do pó para captação de impressões digitais manchava as maçanetas das portas. O colchão “queen size” de David e Manuela estava retalhado nos lugares em que os criminalistas haviam cortado pedaços para juntar como evidências. A cama e a parede acima dela ainda tinham respingos de sangue. Drew viu que ele, como policial em treinamento, era a escolha natural para a tarefa de limpeza e se dispôs voluntariamente a fazê-la. Sentiu também que era algo que devia ao irmão.

Dez anos antes, o pai deles, Max Witthuhn, trancara-se num quarto na casa da família, depois de uma briga com a mulher. Drew estava na oitava série e frequentava uma escola de dança na época. David tinha 18, era o filho mais velho da família, e foi quem arrombou a porta depois que o barulho de um tiro fez a casa tremer. Ele poupou a família daquela visão e absorveu sozinho a imagem do cérebro estraçalhado do pai. Havia se suicidado duas semanas antes do Natal. A experiência pareceu roubar de David qualquer certeza. Depois disso, viveu suspenso numa hesitação. Sua boca sorria ocasionalmente, mas seus olhos nunca.

Então conheceu Manuela. Estava em terreno firme de novo.

O véu de noiva dela pendia atrás da porta do quarto. A polícia, achando que fosse uma pista, inquiriu David sobre isso. Ele explicou que ela sempre o mantinha ali, uma rara expressão sentimental. O véu oferecia um vislumbre de um lado mais terno de Manuela, um lado que poucos haviam conhecido – e que agora nunca iriam conhecer.

A noiva de Drew era estudante de enfermagem. Ofereceu-se para ajudá-lo a limpar a cena do crime. Eles levariam a vida adiante, teriam dois filhos e um casamento de 28 anos que terminou em divórcio. Mesmo nos momentos mais difíceis de seu relacionamento, Drew acabava relevando muita coisa ao lembrar que ela o ajudara naquele dia; foi, sem dúvida, um ato de bondade, que ele nunca esqueceu.

Trouxeram vidros de água sanitária e baldes. Vestiram luvas de borracha amarelas. A tarefa era sórdida, mas Drew fez tudo sem chorar, impassível. Tentou ver a experiência como uma oportunidade de aprendizado. O trabalho policial exigia frieza, diagnóstico. Era preciso ser duro, mesmo que estivesse limpando o sangue da sua cunhada na armação de metal da cama. Em pouco menos de três horas, livraram a casa das marcas da violência e arrumaram tudo para que David pudesse voltar.

Ao terminarem, Drew colocou o resto dos produtos de limpeza no porta-malas do carro e sentou ao volante. Enfiou a chave no contato, mas então parou, como tomado por alguma coisa, como alguém antes de espirrar. Uma sensação estranha, irreprimível, circulava pelo corpo dele.
Talvez fosse a exaustão.

Ele não ia chorar. Não era isso. Nem lembrava da última vez que havia chorado. Não era de chorar.

Virou-se, então, e olhou para a casa número 35 da rua Columbus.Rememorou a primeira vez que havia ido de carro até lá. Lembrou dos pensamentos que tivera ainda sentado no carro, preparando-se para entrar.

Meu irmão realmente chegou lá.

O soluço sufocado escapou, ele lutou para contê-lo. Drew encostou a testa na direção e chorou. Não um choro de angústia sufocada, mas uma convulsão brutal de dor. Sem controle. Uma catarse. Seu carro tinha cheiro de amônia. O sangue debaixo de suas unhas ainda demoraria alguns dias para sair.

Por fim, disse a si mesmo que precisava se recompor. Tinha com ele um pequeno objeto que precisava entregar aos peritos do CSI. Algo que encontrara debaixo da cama. Algo que não haviam detectado.

Um pedaço do crânio de Manuela.

No sábado à noite, dois investigadores do DP de Irvine, Ron Veach e Paul Jessup, procurando mais informações junto ao círculo íntimo de Manuela, bateram à porta da casa dos pais dela na rua Loma, no bairro de Greentree. Horst Rohrbeck, seu pai, recebeu-os na porta. No dia anterior, logo após a casa ser isolada com uma fita e declarada cena do crime, Horst e sua esposa Ruth foram levados ao posto policial e prestaram depoimentos separados a oficiais subalternos. Foi a primeira vez que Jessup e Veach, que era o detetive principal do caso, encontraram os Rohrbeck. Vinte anos nos Estados Unidos não haviam suavizado o comportamento alemão de Horst. Ele era sócio de uma oficina de automóveis local, e diziam que era capaz de desmontar um Mercedes-Benz inteiro com uma única chave-inglesa.

Manuela era a única filha dos Rohrbeck. Ela jantava com eles toda noite. O calendário pessoal dela tinha apenas duas anotações para o mês de janeiro, lembretes dos aniversários dos pais. Mama. Papa.
– Alguém matou minha filha – dissera Horst no seu primeiro depoimento à polícia. – Vou matar esse cara.

Horst parou na porta de entrada segurando um copo de conhaque. Veach e Jessup entraram na casa. Meia dúzia de amigos e familiares pesarosos estavam reunidos na sala. Depois que os investigadores se identificaram, a expressão dura de Horst se desfez e ele explodiu. Não era um homem grande, mas a fúria o fez dobrar de tamanho. Aos gritos, num inglês com sotaque, disse o quanto estava indignado com o departamento de polícia, o quanto eles precisariam se mexer mais. Depois de uns quatro minutos de discurso, Veach e Jessup viram que sua presença ali não era necessária. Horst estava desolado e querendo confronto. Sua raiva era um projétil explodindo em tempo real. Não havia o que fazer, a não ser deixar um cartão de visita na mesa do saguão de entrada e sair da frente dele.

A aflição de Horst estava também tingida por um remorso específico. Os Rohrbeck tinham um enorme cão pastor alemão, com treinamento militar, chamado Possum. Horst sugerira que Manuela levasse Possum para a casa dela como proteção enquanto David estivesse internado no
hospital, mas ela não aceitou. Era impossível não fazer a fita voltar e imaginar Possum com a boca escancarada e sua mordedura em tesoura, com saliva pingando de seus incisivos, avançando contra o intruso que forçava a fechadura e fazendo-o fugir assustado.

O funeral de Manuela foi na quarta-feira, 11 de fevereiro, na Capela Saddleback, em Tustin. Drew notou policiais ao longo da rua tirando fotos. Depois voltou para o número 35 da rua Columbus, com David. Os irmãos sentaram na sala e conversaram até tarde da noite. David bebeu muito.
– Acham que fui eu que a matei – David disse de repente, referindo-se à polícia. Sua expressão era enigmática. Drew preparou-se para ouvir uma confissão. Não acreditava que David fosse capaz de matar Manuela ele mesmo; a questão era se poderia ter contratado alguém para isso. Drew sentiu que seu treinamento policial estava entrando em cena. A imagem do irmão sentado à frente dele se reduziu a um furo de alfinete. Ele imaginou que havia uma chance.
– Foi você? – Drew perguntou.

A personalidade de David, sempre um pouco insegura, adquirira um tremor compreensível. A culpa do sobrevivente pesava nele. Havia nascido com um buraco no coração; se alguém tivesse que morrer, deveria ter sido ele. O pesar dos pais de Manuela vagava à procura de alguém para culpar. O olhar deles tinha o efeito crescente de um golpe de raspão. Mas agora, ao responder à pergunta de Drew, David reagiu indignado, e foi assertivo.
– Não – disse ele. – Não matei minha mulher, Drew.

Drew respirou aliviado, e teve a impressão de que era a primeira vez que o fazia desde a notícia do assassinato de Manuela. Precisava ouvir David dizer isso. Olhando nos olhos do irmão, feridos mas brilhando de certeza, Drew soube que ele dizia a verdade.

Ele não era o único a achar que David era inocente. O criminalista Jim White do Departamento do Xerife do Condado de Orange ajudou a processar a cena do crime. Bons criminalistas são scanners humanos; eles entram em quartos revirados, que nunca viram antes, isolam vestígios importantes de provas, e bloqueiam todo o resto. Trabalham sob pressão. A cena de um crime é sensível ao tempo e está sempre à beira do colapso. Cada pessoa que entra representa um risco de contaminação. Criminalistas vêm carregados de ferramentas para coleta e preservação – sacos de papel para evidências, lacres, fitas métricas, cotonetes, envelopes, moldes e gesso. Na cena de Witthuhn, White trabalhou em colaboração com o investigador Veach, que o instruiu sobre o que coletar. Ele coletou pequenos pedaços de barro perto da cama. Esfregou com um cotonete uma mancha de sangue diluída no banheiro para coletar material. Ficou com Veach enquanto o corpo de Manuela era enrolado. Observaram o grande ferimento na cabeça, as marcas de amarras e algumas contusões na mão direita dela. Havia uma marca na nádega esquerda dela que o legista mais tarde concluiria ser provavelmente de um soco.

A segunda parte do trabalho do criminalista se dá no laboratório, analisando as evidências coletadas. White testou a tinta marrom encontrada na chave de fenda do assassino comparando-a com algumas marcas populares, e concluiu que a melhor aposta era um Marrom Oxford misturado na loja, fabricado pela Behr. O laboratório costuma ser o lugar onde sua tarefa termina. Criminalistas não são investigadores. Não conduzem entrevistas nem seguem pistas. Mas White estava numa posição única. Os departamentos de polícia individuais do Condado de Orange investigavam crimes em suas próprias jurisdições, mas a maioria deles usava o laboratório de criminalística do Departamento do Xerife. Assim, os investigadores do caso Witthuhn só sabiam de casos de Irvine, mas White trabalhara com cenas de crime no condado todo, de Santa Ana a San Clemente.

Para a polícia de Irvine, o assassinato de Manuela Witthuhn era raro.
Para Jim White, era familiar.

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