Leia o prefácio de 'O Sol ainda brilha'

Bryan Stevenson - Publicado na categoria Resenhas & Trechos em 22/03/2019


foto: AL.COM/Landov

PREFÁCIO

NO DIA 3 DE ABRIL DE 2015, Anthony Ray Hinton foi libertado da prisão depois de quase trinta anos em confinamento solitário no corredor da morte do Alabama. O senhor Hinton é um dos prisioneiros americanos que ficou mais tempo preso à espera de execução antes de sua inocência ser provada e ele ser libertado. A maioria de nós sequer consegue imaginar o que é ser detido, acusado de ter cometido algo horrível, ir para a prisão, ser condenado injustamente, não ter dinheiro suficiente para se defender e acabar sentenciado à morte.

Para a maioria, é algo inconcebível. Mas é importante compreender que isso acontece nos Estados Unidos e que mais pessoas precisam fazer algo para evitar que se repita.

O senhor Hinton cresceu pobre e negro na zona rural do Alabama. Aprendeu a ser um observador perspicaz e atento das duras realidades da segregação Jim Crow e da maneira como o preconceito racial coagia a vida das pessoas não brancas. Foi ensinado por sua mãe notável a nunca levar em consideração a raça ou julgar as pessoas pela cor. Resistiu intensamente à ideia de que havia sido detido, acusado e condenado injustamente por causa de sua raça, mas acabou não tendo como aceitar outra explicação. Era um homem pobre num sistema de justiça criminal que trata você melhor se você é rico e culpado do que se for pobre e inocente.

Ele foi abençoado com um extraordinário senso de humor, que usa para superar as barreiras raciais que condenam tanta gente. Viveu com a mãe até perto dos 30 anos de idade e era trabalhador autônomo. Nunca havia sido acusado de nenhum ato violento antes de ser detido. Uma noite, enquanto trabalhava no armazém de um supermercado
limpando o piso em Bessemer, Alabama, um gerente de restaurante, a 25 quilômetros dali, foi sequestrado, roubado e levou um tiro de um único bandido armado ao sair do trabalho. A vítima sobreviveu e mais tarde identificou indevidamente o senhor Hinton como a pessoa que o havia roubado. Apesar de o senhor Hinton estar trabalhando
a quilômetros da cena do crime, numa instalação segura, com um guarda que registrava todo mundo que entrava e saía de lá, a polícia foi até a casa da mãe dele, onde encontraram um velho revólver calibre .38. Os funcionários forenses do estado do Alabama asseguraram que aquela arma havia sido usada não só naquele roubo recente, mas também em dois outros homicídios na região de Bessemer, quando gerentes de restaurantes foram roubados e mortos quando fechavam o estabelecimento. Com base nessa evidência da arma, o senhor Hinton foi detido e indiciado pelos dois homicídios, e os promotores do estado anunciaram que iriam aplicar a pena de morte. O senhor Hinton foi submetido a um teste no polígrafo (o chamado “detector de mentiras”), realizado pela polícia; o teste confirmou sua inocência,
mas as autoridades do estado ignoraram tanto essa informação quanto seu álibi e seguiram adiante, conseguindo duas condenações e a sentença de morte.

No julgamento, o advogado nomeado para defendê-lo não conseguiu um especialista competente para refutar as falsas alegações do estado a respeito da arma de sua mãe. Durante quatorze anos, ele não conseguiu obter a ajuda legal de que precisava para provar sua inocência. Conheci o senhor Hinton em 1999, e ele me causou forte impressão.

Ponderado, sincero, compassivo, engraçado, foi fácil querer ajudar Anthony Ray Hinton, embora fosse preocupante ver o quanto seria difícil obter sua libertação.

Trabalhei com a minha equipe na Equal Justice Initiative para envolver três dos maiores examinadores de armas de fogo do país, e todos testemunharam que a arma obtida na casa da mãe do senhor Hinton não podia ser associada à evidência do crime. Foram necessários mais quatorze anos de contestação processual e uma rara decisão unânime da Suprema Corte dos EUA para que ele fosse libertado em 2015. Durante esse tempo no corredor da morte do Alabama, ele viu 54 homens passarem diante da porta de sua cela a caminho da execução. A câmara ficava a nove metros de sua cela.

Durante seus longos anos no corredor da morte do Alabama, Ray Hinton teve o apoio de um amigo de infância que nunca deixou de visitá-lo no decorrer de quase trinta anos. Lester Bailey fez questão de que ele nunca se sentisse sozinho ou abandonado. O senhor Hinton aprendeu a se envolver com aqueles a sua volta e criou uma identidade
no corredor da morte diferente de qualquer coisa que eu já tenha visto. Não só moldou a vida de dezenas de outros prisioneiros do corredor, mas também a de funcionários do sistema prisional que procuravam seus conselhos e orientação sobre tudo, desde casamento a questões de fé e às vicissitudes do cotidiano.

Embora seu caso tenha gerado anos de desapontamento e frustração para o senhor Hinton e tenha me tirado o sono durante muitas noites depois de cada decisão legal contrária, nós dois podíamos ser vistos frequentemente morrendo de rir na sala de visitas da Prisão Estadual de Holman. Tal é o extraordinário poder de Ray Hinton e sua impressionante energia.

No decorrer de minha carreira estive em inúmeras prisões e cadeias visitando centenas de clientes. Em geral, sou ignorado ou meramente tolerado pelos funcionários de penitenciárias nessas ocasiões.

Já houve vezes em que fui assediado ou desafiado por membros da equipe prisional, que com frequência se ressentem de que as pessoas encarceradas recebam visitas de advogados. Visitar Ray Hinton foi, para mim, diferente de qualquer outra visita legal. Nunca vi tantos guardas, pessoal penitenciário e trabalhadores das prisões me chamando de lado para oferecer auxílio ou para me perguntar de que modo poderiam ajudar, durante os muitos anos em que trabalhei com Ray.

Nunca tive uma experiência parecida com essa.

Representei muitos prisioneiros condenados durante meus trinta anos de prática judiciária. Muitos de meus clientes eram pessoas inocentes, culpadas ou condenadas erroneamente. No entanto, ninguém que eu tenha representado inspirou-me mais do que Anthony Ray Hinton, e acredito que sua história fascinante e única irá também inspirar nossa nação e leitores ao redor do mundo.

Ler sua história é algo difícil, mas necessário. Precisamos saber de coisas sobre nosso sistema de justiça criminal, sobre o legado do preconceito racial nos Estados Unidos e sobre a maneira como isso pode nos impedir de oferecer um tratamento justo e leal às pessoas.

Precisamos entender os perigos da política do medo e da raiva, que criam sistemas de pena capital como o nosso, e a dinâmica política que tem feito alguns tribunais e autoridades agirem de maneira tão irresponsável. Precisamos também aprender mais sobre dignidade humana, sobre o que significa ser humano, sobre o valor disso. Precisamos refletir sobre o fato de que somos todos mais do que a pior coisa que tenhamos feito. A história de Anthony Ray Hinton nos ajuda a compreender alguns desses problemas e também, em última instância, o que significa sobreviver, superar e perdoar.

Desde a sua libertação, Ray Hinton tornou-se um orador extraordinário, e tem tido um impacto em suas plateias capaz de modificar suas vidas. Tem uma capacidade rara de combinar humor, emoção profunda e uma narrativa fascinante, que faz as pessoas compartilharem sua jornada cheia de agonia, mas triunfal.

Sua mensagem de perdão é transformadora, e tenho visto ele inspirar grupos de pessoas diversas, de delegados de polícia e promotores insensíveis a adolescentes e estudantes em situação de risco.

Sua história é sobre perdão, amizade e triunfo. Ela acontece em meio a racismo, pobreza e a um sistema de justiça criminal não confiável. O senhor Hinton apresenta-nos a narrativa de um homem condenado, moldado por uma jornada dolorosa e torturante às portas da morte, que mesmo assim se manteve esperançoso e soube perdoar e
ter fé. Este livro é sobre uma espécie de milagre, porque houve vários momentos em que eu acredito que tanto eu quanto ele tivemos receio de que ele não iria sobreviver para contar sua história. Devemos ser gratos por ele ter sobrevivido, porque seu testemunho, sua vida e sua jornada são uma inspiração inesquecível.

Bryan Stevenson, advogado

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Este é o prefácio do livro O Sol ainda brilha, lançamento de abril da Editora Vestígio.
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Tags:  o sol ainda brilha,  racismo,  anthony ray hinton,  Gutenberg


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