Freud e as mulheres: um posfácio de Maria Rita Kehl

Maria Rita Kehl - Publicado na categoria Resenhas & Trechos em 22/08/2018


Convido os leitores da presente coletânea para que desfrutem, antes de tudo, da escrita de Freud, valorizada aqui pela tradução de Maria Rita Salzano Moraes. Para quem, como é o caso da minha geração, leu Freud na tradução espanhola da Biblioteca Nueva ou nas primeiras traduções brasileiras da Imago (ambas baseadas não no texto alemão,
mas na tradução inglesa de James Strachey), é uma satisfação encontrar o estilo leve e coloquial do criador da psicanálise.

Dizem que o estilo revela muito sobre aquele que escreve: nesse sentido, a escrita freudiana confirma sua ética. Freud
se empenha na clareza da transmissão. O que ele tinha a dizer já era tão inusitado, tão inovador – ou, para alguns,
escandaloso –, que o criador da psicanálise se esforçou para ser compreendido. Mais que isso: empenhou-se, com frequência, para conduzir o leitor através de seu processo de investigação, com todas as dúvidas e retificações que este impõe ao pesquisador honesto.

Os textos sobre a feminilidade e o sofrimento das mulheres são centrais na obra freudiana. Com um pouco de liberdade, podemos considerar as primeiras histéricas que se consultaram com o Dr. Freud como suas parceiras na fundação da psicanálise. Desde que “supervisionou” o amigo Breuer no atendimento de Bertha Pappenheim –
a famosa Anna O. que abre os Estudos sobre a histeria, de 1889 –, Freud entendeu o que pouco mais tarde confessaria
em carta ao amigo Fließ: na origem da histeria, a investigação psicanalítica há de encontrar “toujours la chose sexuèlle”.

Talvez o trecho em francês tivesse a intenção de tornar a frase menos chocante. Vale lembrar, embora não seja o tema do livro que agora apresento ao leitor, que o próprio Breuer descreveu a vida de Anna O. como “muito monótona […] restrita à família”, apesar do “vigoroso intelecto” da moça. Não: Breuer e Freud não eram feministas, embora fossem contemporâneos às lutas das primeiras sufragistas. Mas se mostraram sensíveis em relação à pobreza das escolhas de destino permitidas às moças. Vale lembrar que a criação da psicanálise com certeza foi decisiva para a grande revolução que, no século XX, libertou as mulheres de seus grilhões.

Vejamos a seleção de textos deste Amor, sexualidade, feminilidade. Estamos em 1907 – 110 anos atrás. Freud escreve ao Dr. Fürst sobre a importância de se responder sem mentiras, embora com delicadeza, às perguntas das crianças sobre a sexualidade dos adultos.ii Esclarece que uma criança de 5, 6 anos, com exceção da imaturidade dos órgãos sexuais, “é um ser pronto para o amor”. Propõe, nos parágrafos finais, que a escola ofereça esclarecimento sexual às crianças. Já estava, como sempre esteve, bem à frente de sua época.

A pergunta que Freud dirige ao leitor – “Afinal, o que queremos alcançar quando privamos as crianças […] desses esclarecimentos sobre a vida sexual humana?” – será respondida no texto seguinte, “Sobre teorias sexuais infantis” (1908). O que se alcança ao mentir para as crianças sobre a sexualidade é a produção da neurose. Os neuróticos, escreve ele (p. 96), “são seres humanos como os demais”. Seus sintomas representam, muitas vezes, tentativas de
respostas às perguntas e aos dilemas que foram obrigados a recalcar – por falta de acolhida e de respostas honestas
por partes dos adultos. Mas antes de formarem sintomas, as crianças tentam responder aos mistérios do sexo e da
reprodução através de estranhas teorias. A relação com os órgãos genitais parece evidente, mas – o que se faz com
eles? Marido e mulher urinam um na frente do outro, ou “mostram o bumbum” um ao outro? O sangue menstrual,
que às vezes aparece na roupa da mãe, indica que sofreu alguma violência por parte do pai? De um ponto, o Dr. Freud não duvida: as fantasias com que as crianças tentam responder ao silêncio dos adultos participam, de alguma forma, da formação dos sintomas neuróticos. Às vezes o recalcamento sexual ocorrido na infância impede que as explicações sexuais afinal obtidas, na adolescência, sejam recusadas pelo sujeito, “até que na psicanálise dos neuróticos o conhecimento da tenra infância vem à luz” (p. 113). Em contrapartida, na abertura de “Duas mentiras infantis” (1913), ele defende as mentiras infantis de possíveis acusações moralistas: “É compreensível que as crianças mintam se, com isso, estiverem imitando as mentiras dos adultos” (p. 179).

Se Freud tenta compreender as mentiras infantis, é implacável em relação à recusa moralista dos adultos. “Senhoras e senhores! Poderíamos pensar que não haveria dúvida sobre o que se deve estabelecer por ‘sexual’. É que, antes de tudo, o sexual é o impróprio, é aquilo sobre o que não se deve falar” (p. 187: “A vida sexual humana”, a vigésima de suas conferências sobre a psicanálise, de 1916). Para ilustrar sua afirmação sobre o temor de se referir ao sexual, conta o episódio de um médico que recusava a etiologia sexual da histeria. Conduzido ao leito de uma paciente histérica cujos sintomas de conversão evocavam as contorções de uma mulher em trabalho de parto, o doutor teria respondido: “Ora, um parto não tem nada de sexual” (p. 187). Depois dessa ironia inicial Freud se debruça, no texto, sobre a vasta variedade de “desvios” sexuais humanos: o fetichismo, o sadismo, a coprofilia, o masoquismo. Refere-se à masturbação com naturalidade e revela que as perversões adultas não passam de fixações nas formas infantis de prazer sexual, entre as quais os prazeres orais permanecem admitidos socialmente, e os anais, proibidos. E afirma, em relação à homossexualidade (então considerada criminosa em muitos países):

Aqueles que se autodenominam homossexuais são justamente apenas os invertidos conscientes e manifestos, cujo número desaparece se comparado aos homossexuais latentes. Entretanto, somos forçados a considerar a escolha de objeto do mesmo sexo como sendo francamente uma sistemática ramificação da vida amorosa, e aprendemos cada vez mais a lhe reconhecer uma importância particularmente grande (p. 193).

A conferência seguinte (XXI) persegue a investigação a respeito das perversões e revela o óbvio: se a única meta “natural” do ato sexual é a procriação, podem ser consideradas perversas (que retardam ou desviam a cópula do fim reprodutivo) uma série de práticas bastante frequentes que antecipam ou mesmo retardam tal fim: a contemplação do corpo do objeto amado, o beijo, carícias mais ousadas como beliscar e morder, a fixação em alguma parte não genital do corpo do parceiro…

Na medida em que as ações perversas são preparatórias ou intensificadoras da execução do ato sexual normal,
elas, na verdade, não são mais perversões (p. 214). O leitor contemporâneo não se choca com isso. Os libertinos do século XVIII, muito menos. Mas Freud teve o papel de iluminar a obscuridade puritana do XIX. Ele também esclarece nessa conferência que a origem dos sentimentos culposos ligados à vida sexual derivam de sua associação com fantasias edípicas inconscientes. A organização deste volume obedece à cronologia da produção dos textos sobre o amor, a sexualidade e a feminilidade. Mas os três textos de “Contribuições para a psicologia do amor” atravessam a cronologia. Escritos em 1910, 1912 e 1918, foram publicados na sequência (antes de “Duas mentiras infantis”, de 1913), para que não se perca a unidade do conjunto. O leitor leigo há de compreender: o primeiro texto trata da paixão de alguns homens pela fantasia de “salvar a amada” de uma condição rebaixada, ou degradante. O “tipo particular de escolha de objeto nos homens” a que se refere o título é a escolha persistente de certos homens por prostitutas – não apenas como objeto circunstancial de satisfação erótica, mas também como objeto de amor. O segundo texto da “psicologia do amor” freudiana não é moralista como o título pode sugerir ao leitor contemporâneo. “Sobre a mais geral degradação da vida amorosa” investiga os casos de impotência masculina diante da mulher amada. A degradação mencionada aqui não é moral: é edípica.

Ao contrário do que o leitor contemporâneo pode imaginar a partir do uso do termo “degradação”, Freud não se refere a sintomas decorrentes do início da vida sexual com prostitutas, tão frequente em seu tempo. Seu objeto são os casos em que a sexualidade do homem (cujo exercício foi longamente interditado) permanece no inconsciente ligada a objetos incestuosos ou […] fixada em fantasias incestuosas inconscientes. O resultado é, então, uma impotência absoluta, que talvez seja ainda confirmada pelo efetivo enfraquecimento simultaneamente adquirido dos órgãos que executam o ato sexual (p. 141).

E ainda inclui sob o rótulo de “degradação” a frigidez das mulheres que chegam ao casamento ignorantes dos mistérios do sexo, inibidas pelo tabu da virgindade e, “além disso, sob retroefeito [Rückwirkung] da conduta dos homens” (p. 146). É evidente, depois disso, que o terceiro dos textos sobre a psicologia do amor seja o mais conhecido “O tabu da virgindade”, de 1918, em que Freud afirma que a manutenção da virgindade feminina até o casamento serve para estabelecer “um estado de sujeição que garante a continuação imperturbada de sua posse” (p. 155-156).

Pouco adiante, cita Krafft-Ebing na passagem em que o autor analisa a condição da sujeição sexual no casamento como fruto de “um grau excepcional de enamoramento e fraqueza de caráter” em uma das partes, e egoísmo irrestrito, na outra. A sujeição, esclarece Freud, apresenta-se com frequência do lado das mulheres, garantida inclusive pela exigência de que estas cheguem virgens ao leito nupcial. Ao comparar a questão do tabu da virgindade entre os povos primitivos e os modernos, conclui: “Em tudo isso não há nada que tenha caído em desuso, nada que não continue vivo entre nós” (p. 163).

Vale observar o quanto a influência da psicanálise, que Freud não podia prever, contribuiu para derrubar o tabu da virgindade no mundo ocidental. Por outro lado, ele admite com a mesma sinceridade de sempre – chocante para a época – que a proibição do sexo antes do casamento propicia a muitos enamorados os prazeres incomparáveis das carícias proibidas: “A relação sexual esteve até agora intensamente associada à proibição, e por isso mesmo a relação legal e permitida não será sentida como a mesma coisa” (p. 168). Bingo.

Observem a seguir o que Freud afirma, com uma abertura que vai na contramão da moral vitoriana, a respeito
das perversões sexuais:
Por mais desacreditadas que elas possam ser, por mais que se as contraponham nitidamente com a prática sexual normal, a reflexão tranquila mostrará que um ou outro traço perverso só raramente estará ausente da vida sexual dos normais. Até mesmo o beijo tem direito ao nome de um ato perverso, pois ele consiste na união de duas zonas bucais erógenas em vez dos genitais (p. 213).

Na sequência, explica que a principal diferença entre a atividade sexual perversa e a dita normal é a falta de mobilidade da primeira: a sexualidade perversa, ao contrário do que pode parecer, será mais “bem centrada” (Freud) do que a normal; nela, alguma pulsão parcial submete todas as outras (inclusive as genitais) a seu gozo.

Fora isso, escreve ele, “não há nenhuma outra diferença entre a sexualidade perversa e a normal, a não ser a de que são outras as pulsões parciais dominantes e, portanto, também as metas sexuais”. E acrescenta, bem ao contrário do que imaginam os “normais” sobre a diversidade do cardápio sexual perverso (fantasia bastante incentivada pela literatura libertina do século XVIII), que do ponto de vista da psicanálise a sexualidade perversa não passa de uma “tirania bem organizada” (p. 215) que só varia de acordo com a pulsão parcial que tomou o poder para cada sujeito. As pulsões parciais, características da sexualidade infantil, dominam a sexualidade perversa. Para Freud, o perverso se define pelo domínio do infantil sobre a sexualidade adulta. Ou seja: não faz nada tão excitante quanto o neurótico imagina, nem é tão imoral quanto ele teme.

A psicanálise foi criada, e transmitida por escrito, na medida em que a experiência clínica de Freud avançava. Entre 1919 e 1923, Freud escreveu textos fundamentais sobre temas da chamada psicologia social. Entre eles vale mencionar o clássico “Psicologia de massas e análise do eu”, de 1921, em que, ao examinar as condições do fascínio da massa pelo líder, Freud antecipa a barbárie nazista por vir. O ensaio não participa dessa coletânea, mas convido o leitor familiarizado com a obra freudiana a observar como, nele, uma série de conceitos ligados à paixão sexual são empregados para explicar a adesão fanática dos indivíduos ao líder de massas: o fascínio, o enamoramento, o desejo
individual de se dissolver no “sentimento oceânico” de pertencimento à massa e, dessa forma, obturar por algum
tempo a castração. A fúria e o entusiasmo das massas seriam invulneráveis a argumentos razoáveis porque a massa está tomada – hoje diríamos, em termos lacanianos – pelo gozo.

MULHER, SEXUALIDADE FEMININA, FEMINILIDADE

Voltemos ao tema deste livro. Em 1923, no ensaio “Organização genital infantil (uma interpolação na teoria da sexualidade)”, Freud começa por prestar contas ao leitor sobre os movimentos de seu percurso teórico. Retoma descobertas enunciadas nos Três ensaios sobre a teoria sexual, de 1905, e vai até os avanços que publicou na última edição destes, em 1922. A modificação acrescentada aqui há de ser valiosa para o desenvolvimento da psicanálise lacaniana: trata-se de substituir o primado do genital pelo primado do falo (p. 239). Este último seria, para a psicanálise, qualquer objeto ou atributo que se preste, no plano simbólico, a mascarar a incompletude subjetiva (também chamada “castração”) comum a todos nós, neuróticos normais.

Os dois ensaios finais da coletânea são bastante conhecidos dos psicanalistas. Ambos se debruçam sobre os supostos mistérios femininos. O primeiro, “Sobre a sexualidade feminina”, é de 1931. Dois anos depois, em 1933, Freud volta ao tema e escreve o clássico “A feminilidade”. Observemos, de antemão, a sutil diferença entre sexualidade feminina e feminilidade. Enquanto o primeiro diz respeito a questões ligadas ao erotismo e ao gozo feminino (e os obstáculos sintomáticos a ele), o segundo analisa a feminilidade como modo de a mulher habitar seu corpo, simbolizar sua castração e fazer da falta (de pênis) condição do desejo pelo homem. A liberdade de Freud acompanha sua ousadia investigativa. Ao analisar a “pré-história” da mulher, ele vai encontrar não uma feminilidade imatura, e sim uma fase de orientação masculina. Pois para a menina, assim como para o menino, o primeiro de objeto de amor e de prazer sexual (lembrem-se de que ele já havia descoberto, há mais de duas décadas, a sexualidade infantil) também é a mãe. Esse período de enamoramento da menina pela mãe é considerado por Freud como a “fase anterior préedípica” da mulher:

Nosso entendimento sobre a fase anterior pré-edípica [grifo meu] da menina tem o efeito de surpresa semelhante à descoberta, em outro campo, da cultura minoico-micênica por trás da grega (p. 287). A descoberta de Freud é desconcertante, embora se revele bastante razoável na experiência da clínica psicanalítica: a sexualidade feminina se constitui necessariamente sobre uma base de intensa ligação a um objeto do mesmo sexo. Chamamos, sim, o objeto materno de “sexual” – para bebês de ambos os sexos –, pois é no prazer corporal experimentado na amamentação e no contato com o corpo da mãe que se estabelecem as bases para o desenvolvimento da pulsão sexual, em meninos e meninas. O desenvolvimento dito “normal” do menino deve passar pela rivalidade edípica com o pai. Mas mesmo depois dessa travessia, a marca do primeiro amor do menino por sua mãe definiria a orientação do desejo sexual masculino (a questão homossexual não é abordada aqui). Já para a menina, a questão se complica; no caso de um desenvolvimento “normal” da orientação sexual, a menina parte de uma ligação intensa, afetiva e erótica, com um objeto do mesmo sexo (a mãe). Isso exige dela um movimento a mais, na travessia edípica, para cumprir sua destinação de se tornar mulher e mãe. A famosa frase de Freud, apropriada por Simone de Beauvoir e hoje erroneamente atribuída a ela – “não se nasce mulher, torna-se mulher” –, refere-se à árdua elaboração da identificação da menina a seu
sexo biológico.

Outra conclusão freudiana é que a primeira e intensa ligação da menina com a mãe participa da etiologia da histeria, mas esse não é nosso objeto neste breve posfácio. A “bissexualidade na constituição humana” encontra ainda mais um fator de fixação na constituição da sexualidade feminina: a existência desse pequeno órgão excitável e erétil (que Freud considera como um equivalente ao pênis): o clitóris. A mulher teria, desde sempre, duas zonas erógenas igualmente importantes, enquanto a sexualidade masculina se organiza toda em torno do pênis. Tomo a liberdade de apresentar este ensaio de 1931 junto com o seguinte, que encerra o livro: “A feminilidade”, última das “Novas conferências introdutórias à psicanálise”, de 1933. Freud se apresenta como candidato a resolver o “enigma da feminilidade”,
sobre o qual, antes dele, “ruminaram os seres humanos de todos os tempos” (p. 314).

Chamo a atenção para alguns pontos interessantes dessa conferência. Em primeiro lugar, Freud abre mão da ideia preestabelecida a respeito da passividade da posição da mulher na relação sexual. A famosa afirmação de que “é preciso uma grande dose de atividade para que uma meta passiva se estabeleça” se encontra nesse ensaio. A outra assertiva, que ele faz questão de manter, é a de que não se deve esperar que a psicologia resolva o enigma da feminilidade. Claro que essa insistência em manter o enigma pode levar o leitor contemporâneo a se indagar, afinal, se a feminilidade é mesmo tão enigmática ou se existe algo a respeito da mulher que nem mesmo o criador da psicanálise quer saber.

Adianto que esta é minha impressão. O homem Freud foi, como seus biógrafos revelam, muito convencional em sua
relação com as mulheres – com a bonita exceção da parceria intelectual com sua filha Anna. Mas não foi um machista instalado nas prerrogativas imaginárias de sua posição. Constatou, por exemplo, o quanto o casamento nos moldes de sua época poderia ser destruidor para os sonhos, a vivacidade e mesmo para a libido de uma mulher. É o que conclui da observação a respeito da diferença entre o estado em que se encontram um homem e uma mulher por volta dos 30 anos. Um homem em seus 30 anos, que parece um indivíduo jovem, e até mesmo imaturo […] mas uma mulher da mesma idade muitas vezes nos assusta por sua rigidez psíquica e imutabilidade. Sua libido assumiu posições definitivas e parece incapaz de abandoná-las por outras. Não há caminhos disponíveis para continuar o desenvolvimento; é como se o processo todo já estivesse concluído e permanecesse, a partir de agora,
ininfluenciável. (p. 341).

Freud acusou a fumaça, mas não foi capaz de localizar o fogo. Não é preciso ser psicanalista para observar, hoje, o quanto essa constatação de Freud (à diferença de incontáveis outras) era exata – mas datada. Parece-me que, na primeira metade do século XX (antes da segunda onda feminista e muito antes dos movimentos de liberação sexual, racial e de gênero dos anos 1960), o que se esgotava nas mulheres de 30 anos não eram as forças nem a libido. Esgotavam-se as perspectivas de construção de novos destinos para a libido, que até então havia se concentrado – na melhor das hipóteses – no amor conjugal e na maternidade. A “matrona de 30 anos” de Freud seria a outra face das “adúlteras de 30 anos” de Balzac, Flaubert, Tolstói, Machado de Assis, Eça de Queiroz e tantos outros grandes romancistas do século XIX ao início do XX. Todos esses romances tratam da decepção da mulher com a vida conjugal – e de como essa decepção as conduz ao adultério. O que Freud percebeu (mas não pôde compreender) a respeito da libido feminina, ainda viva e pulsante no primeiro terço da vida, foi a completa ausência de novos destinos depois da (muito provável) decepção do casamento, do enclausuramento doméstico e dos prazeres do aleitamento de incontáveis filhos. Escrevi em outra partei: se a mulher só produz filhos, ela se produz como mãe. Ou como histérica. Ou
ainda, se tiver sorte, como amante de outro homem que a salvasse do tédio conjugal.

“A histeria é a salvação das mulheres”, escreveu Dostoiévski em certo ponto de Os irmãos Karamázov. Sob outros nomes, a insatisfação sexual e conjugal das mulheres foi o tema central do romance oitocentista. Aliás, no mesmo século XIX, Émile Zola teria torcido para que o código napoleônico não aprovasse o divórcio. O romancista afirmou, com ironia, que sem a personagem da mulher insatisfeita e infiel estaria decretado o fim da grande literatura. Observem em quantos grandes romances da época o tema da mulher casada, insatisfeita e, a seguir, infiel ocupa o centro do enredo. Destaco Madame Bovary, de Gustave Flaubert, escrito no ano do nascimento de Freud (1856). Flaubert, um dos melhores escritores do período do grande romance dito realista, inventa uma personagem notável: uma jovem provinciana inquieta, sonhadora, cuja imaginação, alimentada na adolescência pela leitura de romances “para moças”, não se satisfazia com o horizonte limitado de um casamento provinciano.

A imaginação romanesca de Emma Bovary fazia com que ela tingisse suas infidelidades conjugais com as tintas das grandes histórias de amor lidas na adolescência. Mas seus amantes estavam muito aquém de sua ousadia erótica, sua
exigência de prazer sexual, de uma vida mais interessante. Flaubert não poderia saber que criou uma personagem à frente de seu tempo: 70 anos mais tarde da publicação de Madame Bovary (por exemplo na Paris nos anos 1920), o livro não precisaria terminar com o suicídio da ousada Emma.

Fiz este breve rodeio para argumentar que mesmo a obra freudiana, com toda a coragem investigativa de seu autor, sofreu aqui e ali das limitações morais e ideológicas da época em que foi escrita. Ele é genial quando revela, por exemplo, que a “pré-história” amorosa com a mãe exige muito mais da menina, na travessia edípica, do que do menino. Este só teria de superar o primeiro objeto de amor (a mãe) e enfrentar a rivalidade com o pai – empreitada que só haverá de contribuir para o desenvolvimento de sua masculinidade. Desconsideremos, para efeito deste texto, que após a desilusão causada pela descoberta da castração materna o menino atravessa um período de fascínio apaixonado pelo pai, que a seus olhos é “o dono do falo”. Isso também está em Freud, mas não se inclui
na discussão dos textos desta coletânea. Para o menino, a travessia edípica também se dá em três fases, e a superação
das duas primeiras é condição do amadurecimento sexual “normal”. Elas seriam: o apaixonamento pela mãe/ o apaixonamento (homossexual) pelo pai/a aceitação da castração simbólica.

Hoje, Freud não teria base empírica para o argumento de que a travessia edípica da menina esgotaria suas forças antes de ela chegar à meia-idade. As meninas faceiras de 30 anos do século XI demonstram que, nesse ponto, o criador da psicanálise estava errado. Não creio que a travessia edípica esgote as forças da mulher. Penso que o envelhecimento precoce das mulheres vitorianas possa ser entendido com muito mais justeza em função da combinação de: excesso de filhos/tédio doméstico/deserotização do casamento – do que pelo “esforço a mais” empreendido, ente os 4 e os 5 anos de idade, para renunciar ao amor apaixonado pelo pai depois de já ter renunciado ao amor incestuoso pela mãe.

O segundo “ponto cego” do genial criador da psicanálise em relação às mulheres é sua convicção de que o amadurecimento da sexualidade feminina exigiria o abandono da excitação clitoriana em “troca” da excitação vaginal – este, afinal, o órgão correto para garantir a procriação. A descoberta do prazer vaginal, na época de Freud, talvez fosse decepcionante para muitas mulheres – principalmente se levarmos em conta o despreparo e a falta de jeito de muitos maridos vitorianos. Mas não há nenhuma razão, anatômica ou psicológica, para que as duas fontes de excitação sexual da mulher não possam atuar em conjunto, possibilitando (pela masturbação clitoriana) a excitação da vagina e contribuindo para o orgasmo feminino. Inclusive na relação sexual com seu parceiro – se ele for esperto o suficiente para saber disso.

Ainda uma observação final. O empenho e a honestidade intelectual de Freud são sempre comoventes. Para além da teoria, e da prática que ela ilumina, a leitura deste conjunto de textos sobre o amor, a sexualidade e a feminilidade é uma experiência literária e (por que não?) existencial. Por maior que seja o cuidado científico do autor quanto à seriedade de suas investigações, é impossível que o leitor não seja tocado pela paixão do criador da psicanálise por seu objeto. A escrita freudiana parece confirmar o poder da sublimação – esse destino possível para o excesso pulsional que não se consegue realizar no sexo (independentemente da maior ou menor permissividade de cada cultura). Ciência e poesia, afinal, são duas ramificações que provêm da mesma raiz. Os textos freudianos, além daquilo que revelam a partir da experiência clínica do autor, possuem ritmo, energia, pulsação.

O leitor talvez perceba que estas últimas três palavras lembram um pouco os lugares comuns da contracultura das décadas de 1960, 1970. Nem por isso elas estariam fora do lugar, se aplicadas ao estilo freudiano. Sabemos, aliás, o quanto a liberação sexual da segunda metade do século passado (da qual até hoje desfrutamos) deve à ousadia –
malgré lui – do criador da psicanálise.

***

Maria Rita Kehl é psicanalista, doutora em psicanálise pela PUC de São Paulo, jornalista e escritora.
Este posfácio foi publicado na edição ‘Amor, sexualidade, feminilidade’ da coleção Obras Incompletas de Sigmund Freud, publicada pela Autêntica Editora.

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