Duas vidas: uma lição magistral de fraternidade

Julie Cadilhac - Publicado na categoria Resenhas & Trechos em 09/10/2018


Tradução de Fernando Scheibe

Baudouin é advogado numa empresa que suga seu sangue até a última gota. Trintão, solitário, seu cotidiano se resume a horas e mais horas de trabalho sob as contínuas ameaças do chefe; nenhum lazer, nenhuma aventura amorosa: uma seriedade que beira a caricatura. Em suma, uma vida sem a menor graça. Já seu irmão mais velho é o seu exato contrário. Médico sem fronteira, epicurista, Luc coleciona namoradas e amigos, goza de cada momento que a vida lhe propicia e adora se arriscar. Um dia, Baudouin descobre ao tomar banho um pequeno calombo um pouco abaixo da axila. Seu irmão o aconselha a consultar, só para garantir, um amigo médico especialista em câncer. Após uma série de análises, o diagnóstico é impiedoso: Baudouin está condenado, só lhe restam alguns meses de vida.

Depois de alguns dias de desespero e de imobilismo total, Luc propõe a seu irmão, completamente entregue ao medo e à impotência, acompanhá-lo à África, onde está trabalhando numa missão humanitária no Benin. Mas, para começar, fazem uma lista de tudo o que Baudouin gostaria de realizar antes de morrer. E lá vão os dois, cúmplices decididos a viver juntos um belo momento entre irmãos.

Já conhecíamos a grande sensibilidade de Fabien Toulmé através de sua primeira novela gráfica, Não era você que eu esperava (NEMO, 2018), que narra a difícil experiência de um pai ao descobrir que sua filha tem síndrome de Down. Duas vidas demonstra a mesma capacidade de expor as emoções de maneira ao mesmo tempo comovente e sutil. O que faríamos se só nos restassem alguns meses de vida? A pergunta não é nova e já deu margem a diversas interpretações literárias. A ideia de chutar o balde e aproveitar o máximo seus últimos instantes nada tem de original…

Mas o que faz a diferença na história contada por Toulmé são as escolhas narrativas, o tom voluntariamente cômico e terno e a utilização de flashbacks que permitem ao leitor compreender pouco a pouco o mal-estar de Baudouin e explicam como se constrói uma identidade: Baudouin e sua maquininha de contar os dias que faltam para a aposentadoria; Baudouin e sua primeira noite de amor com uma linda beninense; Baudouin e suas camisetas floridas transformando-se em Johnny Clegg; Baudouin que finalmente diz “eu te amo” para o seu pai… O que não falta nessa história são momentos comoventes (é melhor ler com um lenço na mão, vou logo avisando!), e isso até o desenlace desse drama familiar. Qual é o talento de Fabien Toulmé? Não se contentar com a emoção lacrimejante, mas ir além e nos ensinar algo sobre nós mesmos.

Duas vidas é uma lição magistral de amor fraterno e um convite a que nos realizemos plenamente, saltando por cima das convenções sociais, das pressões familiares e/ou das angústias do ser humano em renunciar a uma situação de falso conforto. Um formidável e estimulante chute na bunda a dar em nós mesmos e em todos aqueles que amamos! Na certa uma das melhores graphic novels lançadas nos últimos meses.

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Esta resenha foi publicada originalmente em francês. Leia-a aqui.

Duas vidas é o lançamento de setembro da Editora Nemo.

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