Conversando com Voltaire ou A falsa biografia de um iluminista

Jean D. Soares - Publicado na categoria Resenhas & Trechos em 21/06/2018


Um café com Voltaire brinda o leitor com uma aventura filosófica que tem tanto qualidades de um bom romance quanto de uma introdução diferente a essa figura polêmica. Louis Bériot atravessa a vida do iluminista francês sem escamotear preferências inusitadas, possíveis casos amorosos, embates filosóficos, tudo imiscuído do prosaísmo de acontecimentos cotidianos.

Voltaire ganha nessa obra de ficção uma dignidade que as melhores biografias históricas talvez não pudessem dar. Além da leveza que a estrutura narrativa em pequenos capítulos fornece, o autor opta por mostrar ao leitor as conversas de uma mente brilhante e agitada com figuras das mais empolgantes em sua época. Sucedem-se Isaac Newton, Montesquieu, Madame Pompadour, Frederico II, Jean-Jacques Rosseau entre tantos outros, em diálogos ousados, no melhor uso da imaginação histórico-filosófica.

Soma-se a isso a atualidade dos encontros: o autor não evita mostrar os diversos lados dos círculos frequentados pelo errático personagem francês. Bériot expõe as vaidades fúteis, os casos amorosos, as mulheres intelectuais cruciais para a cena iluminista, a homossexualidade escamoteada de personagens históricos, enfim uma diversidade de valores e perspectivas atuais e revalorizadas. Enfim, muito do que a história escondeu, “Um café com Voltaire” faz questão de recordar.

Por fim, é preciso dizer que esse passeio forja uma biografia que não pretende sê-lo tal e qual – é falsa na medida em que é poética e fingidora no sentido pessoano do termo. Uma ficção que não coloca seu protagonista na vitrine da história; pelo contrário, ao retirá-lo da montra, senta-se ao seu lado para um café e literalmente nos faz sentir parte de uma conversa com Voltaire. Estamos juntos e em silêncio, numa cena em que os personagens sentem o fluir da vida e a necessidade de pensar um pouco além do usual.

Esse é um ensaio ficcional imperdível para quem gosta de filosofia, mas que, cansado de teoria, se diverte lendo boa literatura.

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Jean D. Soares _é Doutor em Filosofia pela PUC-Rio. Desenvolve com a artista Virgínia Mota a Área de Convivência, um projeto físico, escrito e dialógico de escuta artística em espaços públicos. Pai da Aurora, é músico e editor de rádio, bem como tem participado de eventos nas áreas de arte, literatura e filosofia na América do Sul e na Europa. É colaborador editorial da Autêntica Editora. _

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