Categorias do impolítico, de Roberto Esposito

Davi Pessoa - Publicado na categoria Nossos Autores em 19/02/2019


por Davi Pessoa

O filósofo Roberto Esposito há muitos anos se dedica ao estudo de certas categorias em torno do impolítico, tema central do livro Categorias do impolítico, publicado em 1988 pela editora Il Mulino, de Bolonha. O tema ainda irá se fazer presente em livros publicados nos anos 1990, como em Nove pensieri sulla politica (Il Mulino, 1993) e em -_L’origine della politica_ (Donzelli, 1996). O estudo de Esposito se concentra na constatação de um certo esgotamento do léxico tradicional da política e da filosofia política. Assim, torna-se uma exigência uma nova formulação da linguagem filosófico-política, que, num percurso repleto de desvios, irá cruzar conhecimentos que dizem respeito, ao mesmo tempo, à arte, à antropologia e à teologia. Os estudos sobre as categorias do impolítico tem uma longa história. No entanto, Esposito não se limita a uma elaboração histórica de tal categoria, como uma espécie de retorno do mesmo, mas, muito mais, a relê a partir de uma rede de significantes e de significações semânticas com o intuito de abrir novas possibilidades de se pensar não apenas a política, mas também o político. Desse modo, muito mais que uma tarefa de interpretação sobre a origem do termo “impolítico”, Esposito propõe a leitura elíptica, cujos pontos de insurgência da categoria relacionam autores como Thomas Mann, Carl Schmitt, Hannah Arendt, Simone Weil, Georges Bataille, Massimo Cacciari, Julien Freund, Hermann Broch, René Char, Eric Voegelin, Carlo Galli, Jacques Derrida, Jean-Luc Nancy, Romano Guardini e tantos outros. Mas do que se trata o impolítico? De uma antipolítica?

Numa entrevista dada por Esposito a Franco Melandri e Sergio Sinigaglia, publicada em Una Città, em 1998, os entrevistadores ressaltam logo no início da conversa a radicalidade de Esposito ao pensar o impolítico não como uma antipolítica. Esposito lhes diz:

“O tema do impolítico nasce da sensação de que as categorias do léxico político contemporâneo estão, de algum modo, exauridas e não iluminam realmente aquele âmbito do agir humano que chamamos “política”. As causas de tais exaurimentos são múltiplas e têm diversas origens, mas encontram um ponto-chave de irrupção na crise dos anos 20 e 30 deste século [séc. XX], que não por acaso é o período em que, no âmbito da filosofia, Heidegger opera a desconstrução da metafísica e Wittgenstein realiza uma tentativa similar no âmbito da linguagem científica. Naqueles anos, na obra de escritores como Hermann Broch ou Maurice Blanchot, de filósofos como Simone Weil, Georges Bataille e Hannah Arendt, de teólogos como Karl Barth, emerge uma linha de pensamento que, ainda que na extrema diversidade existente entre eles, procura tomar os conceitos e a realidade da política “pelas costas”, isto é, observá-los também desde o lado que normalmente o pensamento político clássico deixa à sombra ou, de modo decisivo, esconde. Essa tentativa é justamente o que defini “impolítico”, escolhendo tal termo também para marcar a diferença do que emerge desses autores em relação a outras noções, em aparência afins, como, p. ex., a antipolítica. A relação impolítica, como aliás demonstram as biografias de quase todos os autores que pesquisei, não é, com efeito, contrária à política, não é portanto antipolítica, mas é uma forma de radicalização do engajamento político no pensamento. O impolítico, em substância, é a relação intelectual que, por um lado, observa a realidade política – isto é, os conflitos de interesse, o poder – de modo muito realista, enquanto, por outro lado, não considera essa realidade mesma um valor em si, não lhe fazendo nenhuma apologia e, assim, ausentando toda teologia e filosofia da política. Em suma, o impolítico é uma maneira desconstrutiva de observar a política, uma maneira que expõe como a tradição filosófico-política, de modo geral, sempre insistiu no problema da ordem – isto é, em como ordenar a sociedade – e em qual seria o melhor regime e, assim, sempre acabou por evitar a questão de fundo da própria política, qual seja, o conflito.¹”

Portanto, Roberto Esposito lê a contrapelo o jogo de forças entre a antipolítica e o impolítico, ao contrário de descartar a primeira do jogo de relações. Como aponta o filósofo, “para o impolítico não há uma entidade, uma força, uma potência que possa contrastar a política pelo interior de sua própria linguagem. Mas tampouco pelo exterior, a partir do momento em que esse “exterior” não existe como projeção ideológica, mítica, autolegitimante, do próprio político chegado à ‘guerra civil’ com o seu ‘gêmeo’ antipolítico. Essa dialética – de identificação por contraste – tornou-se evidente pela semântica contrastiva do ‘anti’. Mas vale igualmente para quem se declare também apenas apolítico. Este ‘a’ – que assinala estranheza, indiferença, desinteresse pela política – não ganha sentido senão pela realidade da qual toma distância, que é ainda e sempre política. Talvez da despolitização, como é aquela que desde algumas décadas – mas se poderia dizer de outro modo: há alguns séculos – a modernização produz na modalidade da imunização de toda forma de comunidade”. Assim, Esposito pensa a democracia a partir de um campo tensional de forças díspares, e a comunidade nela em questão põe em crise a forma do sujeito na medida em que algo de subjetividade também há na comunidade, cuja linguagem estruturante tem a ver com o impróprio, visto que jamais é plenamente realizada, jamais existe plenamente, mas, mesmo assim, sempre existe, já que somos lançados em estruturas que nos precedem. A comunidade, então, não é uma forma, mas muito mais uma força. O impolítico não se abstém do conflito político, não nega a política como conflito, mas a pensa como espaço no qual a linguagem sempre dá a ler e a ver o dissenso. A antipolítica coincide com a política a partir da negação desta, enquanto que o impolítico jamais nega a antipolítica. O impolítico, portanto, jamais prega o fim da política.

Categorias do impolítico é também, como se percebe, um exercício de tradução. Italo Calvino defendia a ideia de que “traduzir é o verdadeiro modo de ler um texto”. Roberto Esposito parece nos indicar que a tradução é uma força singular de leitura. A tônica, portanto, não se encontra no verdadeiro, mas na singularidade da leitura. Desse modo, a tradução, muito mais que dar mais sacralidade ao “texto original”, ou às categorias já muito cristalizadas pelo tempo, profana o texto original, restitui ao uso comum dos homens o que se encontrava separado. No entanto, para que haja profanação no gesto da tradução, é necessário que se coloque em ação um novo uso do texto a ser traduzido. E para que isso possa ocorrer, podemos compreender a tradução como um gesto que desarticula certas normatizações de leitura em torno do pensamento de um intelectual. A tradução, assim, abre uma nova série de leituras sobre seu pensamento, um novo uso. E no caso do estudo de Roberto Esposito, agora transfigurado numa nova língua e linguagem, a tradução busca compartilhar com os leitores brasileiros a traduzibilidade das categorias que nele estão postas em questão, como um modo de vir-a-ser do impolítico em nossos dias. Eis a tarefa.

¹“Dom e dever: entrevista com Roberto Esposito”, tradução de Vinicius Nicastro Honesko, In: “Edições Chão da Feira: Cadernos de leitura, n. 31.
Disponível para leitura neste link.

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Davi Pessoa é professor de literatura italiana na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). É autor de Terceira Margem: Testemunha, Tradução (Editora da Casa, 2008) e Dante: poeta de toda a vida (Biblioteca Nacional, 2016). Atua também como tradutor de literatura e filosofia italiana: Traduziu Georges Bataille: filósofo (Edufsc, 2010), de Franco Rella e Susanna Mati, Desgostos (Edufsc, 2010) e Ligação Direta (Edufsc, 2011), ambos de Mario Perniola, e os livros Nudez, O tempo que resta e Meios sem fim, do filósofo italiano Giorgio Agamben, todos publicados pela Editora Autêntica. Atualmente está traduzindo o romance inacabado Petróleo, de Pier Paolo Pasolini, que será publicado pela Editora 34.

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