Bartleby – Uma perda irreparável

Jean D. Soares - Publicado na categoria Nossos Autores em 23/08/2018


Sobre a história de Bartleby não se deve dizer muito, porque é preferível não fazê-lo de qualquer maneira. Como ficamos sabemos da pena de Herman Melville logo do início da novela, uma ampla biografia de sua famosa personagem constitui “uma perda irreparável” para a literatura. Poderíamos especular muitas razões para o adjetivo “irreparável” logo no início de Bartleby, o escrevente. Fato é que seu autor se esforça para contornar essa perda e nos apresenta um dos personagens mais fascinantes da literatura contemporânea.

O pequeno conto retrata a história de um supostos copista. Um sujeito aparentemente correto, cumpridor de tarefas, um tanto recolhido que, de repente, desafia a lógica das relações em um escritório de advocacia de um modo bastante inusitado, inesperado e exasperante. Diga-se de passagem, faz isso somente com um enunciado – mas preferimos não dizer qual é.

A pequena novela apareceria nos anos de 1850 anonimamente na revista literária Putnam’s Magazine, em duas partes e hoje é considerada um clássico da literatura, sendo um dos livros mais requisitados para pensar o presente. A diversidade de pensadores que se debruçam sobre ele é admirável: a Autêntica editou o livro de Giorgio Agamben Bartleby, ou da contingência, mas há texto que dialogam entre si de Slavoj Zizek, Gilles Deleuze, Jacques Derrida, Antonio Negri e Michael Hardt, Byung-Chul Han e poderíamos perseguir uma longa bibliografia de escritores que abordam a pequena parte da biografia desse estranho copista a que temos acesso.

Cientes da relevância da novela e da contenda de traduzir o enunciado que preferimos não dizer qual é, a coleção Mimo levou adiante uma iniciativa inédita em língua portuguesa: – editou uma tradução competentíssima, feita por Tomaz Tadeu, tradutor de autores como Jeremy Bentham, Virgínia Woolf, James Joyce, Stéphane Mallarmé, Paul Valéry, Charles Beaudelaire; – colocou-a ao lado do texto original em inglês; – e como se não bastasse uma edição bilíngue apaziguando os contendas em torno do enunciado, a edição conta com as ilustrações de Javier Zabala.

Isso tudo talvez não compense a perda irreparável de não sabermos mais sobre Bartleby, mas seria irreparável também não lê-lo numa edição tão bem cuidada.

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Jean D. Soares é Doutor em Filosofia pela PUC-Rio. Desenvolve com a artista Virgínia Mota a Área de Convivência, um projeto físico, escrito e dialógico de escuta artística em espaços públicos. Pai da Aurora, é músico e editor de rádio, bem como tem participado de eventos nas áreas de arte, literatura e filosofia na América do Sul e na Europa. É colaborador editorial da Autêntica Editora.

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