As ondas, de Virginia Woolf - interlúdio IV

Tomaz Tadeu | Virginia Woolf - Publicado na categoria Palavra da Editora em 06/01/2021


Até o lançamento de As Ondas, previsto para o primeiro semestre de 2021, publicaremos, semanalmente, os nove trechos que Virginia chamava, em seu diário, de “interlúdios”, nos quais uma voz narrativa descreve o movimento do sol desde a madrugada até o anoitecer e uma série de eventos associados a cada um de seus estados. A tradução é de Tomaz Tadeu.


interlúdio IV

O sol, levantado, não mais reclinado num colchão verde, dardejando um olhar intermitente por entre as joias aquosas, desvelava sua face e olhava reto por sobre as ondas. Elas caíam com um estrondo regular. Elas caíam com o impacto de patas de cavalo sobre a pista. Sua espuma subia como lanças e azagaias por sobre a cabeça de cavaleiros. Elas varriam a praia com uma água azul-metálico e pontiaguda como diamante. Elas fluíam e refluíam com a energia, a musculatura, de um motor que retrai sua força e a põe de novo em ação. O sol caía sobre os trigais e sobre os bosques. Os rios se tornavam azuis e adquiriam um sem-número de pregas, os gramados que desciam até a beira da água tornavam-se verdes como penas de pássaros suavemente eriçando suas plumas. As colinas, curvadas e contidas, pareciam, feito um membro constrangido pelos músculos, refreadas por correias; e os bosques que se eriçavam altivamente em seus flancos eram como a crina curta, aparada, do pescoço de um cavalo.

No jardim, onde as árvores se erguiam densas por sobre os canteiros, os laguinhos e as estufas, os pássaros cantavam sob a ardente luz do sol, cada um por si. Um cantava embaixo da janela do quarto; outro, no galho mais alto do pé de lilás; outro ainda, na beirada do muro. Cada um cantava estridentemente, com paixão, com veemência, como se fosse para deixar o canto se soltar, pouco importando se perturbasse o canto de outro pássaro com sua áspera dissonância. Seus olhos redondos saltavam, brilhantes; seus pés agarravam com força o galho ou a beirada do muro. Cantavam, expostos, sem nenhuma proteção, ao vento e ao sol, belos em sua nova plumagem, raiada como concha ou brilhante como malha metálica, aqui listrada de azul suave, ali salpicada de dourado, ou riscada por uma pena brilhante. Cantavam como se o canto lhes fosse instigado pela pressão da manhã. Cantavam como se o fio do existir estivesse afiado e devesse cortar, devesse fender a suavidade da luz verde-azulada, a umidade da terra úmida; as emanações e os eflúvios do vapor engordurado da cozinha; o cheiro morno da carne de boi e de carneiro; a suculência dos doces e das frutas; as cascas e os trapos úmidos despejados do balde da cozinha sobre o monte de lixo e dos quais emanava um lento vapor. Sobre tudo que era encharcado, manchado pela umidade, sobre o torcido ainda úmido, eles desciam, os bicos secos, implacáveis, abruptos. Precipitavam-se repentinamente do pé de lilás ou da cerca. Avistavam um caracol e batiam a concha contra uma pedra. Batiam furiosamente, metodicamente, até que a concha se quebrasse e algo viscoso escorresse da rachadura. Lançavam-se e elevavam-se precisamente, em bandos, no alto do céu, chilreando notas breves, agudas, e pousavam nos ramos mais altos de alguma árvore, e espiavam as folhagens e os campanários lá embaixo, e o campo, branco de árvores frutíferas em flor, inundado de grama, e o mar batendo como um tambor que põe em forma um regimento de soldados emplumados e enrolados em turbantes. De vez em quando seus cantos se combinavam em escalas vivas como os entrelaçamentos de um riacho numa montanha, cujas águas, ao se encontrarem, espumam e depois se misturam, e se precipitam, descendo cada vez mais rápido pelo mesmo leito, roçando as mesmas e largas folhas. Mas há um rochedo; elas se separam.

O sol caía em cunhas agudas dentro do quarto. Tudo que a luz atingia se tornava dotado de uma existência fantasmagórica. Um prato era como um lago branco. Uma faca parecia um punhal de gelo. De repente os copos se mostravam sustentados por estrias de luz. As mesas e as cadeiras subiam à superfície como se tivessem sido mergulhadas na água e subissem, envoltas numa película de vermelho, laranja, púrpura, como a textura aveludada que cobre a casca do fruto maduro. As estrias no esmalte da porcelana, o veio da madeira, as fibras dos tapetes tornavam-se, cada vez mais, finamente lavradas. Tudo estava sem sombra. Um jarro estava tão verde que o olho parecia ter sido sugado por sua intensidade através de um funil e ter se grudado a ele como uma lapa. Então as formas adquiriam massa e contorno. Aqui estava o corpo de uma cadeira; ali o volume de um armário. E à medida que a luz aumentava, flocos de sombra eram impelidos à sua frente e se aglomeravam e pendiam ao fundo em plissados de múltiplas dobras.


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