A infância do Brasil, em nova edição preparada pela Nemo, revisita o passado das crianças no país

Equipe - Publicado na categoria Entrevistas em 17/02/2022


Uma premiada obra do quadrinista José Aguiar está de volta às livrarias. Trata-se de A infância do Brasil, HQ finalista do Prêmio Jabuti de 2018 e vencedora dos prêmios LeBlanc e Minuano de Literatura e do troféu HQMIX na categoria Adaptação para outras linguagens. Esgotada há alguns anos, o livro ganha agora uma nova edição ampliada pela Nemo.


A HQ leva o leitor a uma viagem pela História do Brasil para descobrir o passado da fase de maior importância na vida de todos: a infância.


O livro mostra os violentos obstáculos sociais enfrentados pelas crianças brasileiras, desde o século XVI até os dias de hoje, e que configuram, na avaliação da historiadora Mary del Priore, uma narrativa “simplesmente espetacular”.


Em entrevista ao Blog do Grupo Autêntica, o quadrinista José Aguiar contou mais sobre o projeto e fez uma análise sobre como as relações com a criança e com a infância se transformaram ao longo dos tempos.


Confira:

Conte um pouco sobre você e a sua história com os quadrinhos.
Desde criança, gostava dos seriados e desenhos animados inspirados em quadrinhos. Os gibis eram uma forma de aprender a desenhar meus personagens favoritos e neles descobri que existiam artistas como roteirista, desenhista, colorista etc. Então posso dizer que sempre quis ser autor de quadrinhos. Eu criava HQs em cadernos que circulavam na escola e com 14 anos publiquei tiras de humor pela primeira vez num jornal de Curitiba. Dois anos depois, já recebia profissionalmente pelas minhas tiras, que sigo publicando até hoje nos jornais O Globo e Plural. Os quadrinhos expandiram meu mundo e minha percepção dele. Me levaram a diversos lugares do Brasil e do exterior. Já publiquei HQs na França, em 2004. Participei de projetos coletivos, criei eventos como a Gibicon e Cena HQ e desde 2009 tenho meu selo independente, Quadrinhofilia, no qual experimento novos formatos e linguagens. Meu trabalho me rendeu vários prêmios e indicações, sendo quatro vezes indicado ao prêmio Jabuti. Uma delas foi com A Infância do Brasil.


Como surgiu o projeto A infância do Brasil?
O nascimento do meu primeiro filho mudou minha percepção de mundo e também a da minha esposa. Primeiro vieram lembranças de nossas próprias infâncias, depois pensamos na infância dos nossos pais e avós e começamos a pensar e discutir sobre como era ser criança e crescer em contextos tão diferentes. Também ficamos mais atentos e sensibilizados com a situação de crianças que víamos diariamente nas ruas e nos noticiários. Eu sempre quis fazer uma HQ sobre a história do Brasil. Através desse olhar, encontrei o caminho para uma abordagem nova para o assunto. Algo que fugisse do lugar-comum de como aprendemos na escola. Criei um projeto que foi realizado via uma lei de incentivo de Curitiba, o Mecenato Municipal. Tudo começou com a webcomic no site www.ainfanciadobrasil.com.br. O projeto foi gestado junto com nossa segunda filha, que nasceu pouco depois do lançamento do primeiro capítulo. As HQs do site se tornaram um livro que foi premiado, levado ao teatro e que agora retorna pela Nemo com mais material extra, revisões nas artes e uma nova capa. Estou muito feliz e empolgado com esse retorno da minha HQ.

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A produção da obra envolveu muita pesquisa. Como se deu esse processo e a parceria com a historiadora Claudia Moreira?
Eu apresentei a ela meu plano, os temas que queria abordar, e ela fez uma seleção bibliográfica e um levantamento histórico do cotidiano de cada século de nossa história e fatos socialmente relevantes que pudessem embasar os roteiros que eu estava escrevendo. Depois ela lia meu texto e fazia apontamentos para que eu pudesse lapidar o resultado e dar mais verossimilhança às cenas. Ela foi peça-chave, pois deu a segurança que eu precisava para transitar por assuntos escorregadios. Muito desse material se encontra nos extras da nova edição do livro.

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Em sua opinião, como as relações dos adultos com as crianças se transformaram ao longo do tempo?
A forma como os adultos enxergam seus filhos varia muito, pois vivemos num mundo que não caminha em linha reta. Convivem em nossa história abordagens absurdamente pragmáticas, nas quais as crianças eram consideradas quase como uma mercadoria de troca ou força de trabalho, ou com a visão mais protetora e, por vezes idealizada, que hoje predomina em nossa sociedade. Mas, no geral, tudo isso ainda se mistura, pois não vivemos num país homogêneo no que diz respeito aos direitos humanos, à relação com o outro, com as minorias e com os mais frágeis. Existem racismo estrutural, misoginia, choque de classes, abandonos e abusos de diferentes formas que, entrelaçadas, geram situações que precisam ser combatidas e superadas. Minha HQ aborda justamente o contraste entre infâncias presentes e passadas para levantar ao leitor a pergunta: o que mudou e o que permanece?


A infância do Brasil nos guia em um passeio pela história do país através de um olhar voltado para as crianças. Como esse olhar pode nos ajudar a compreender melhor o momento presente?
“Refletir o presente a partir de nosso passado” é a frase que, para mim, define essa HQ. Saber de onde viemos, para entender quem somos, pode ser um bom caminho nesse sentido. Entender e não idealizar o passado como um lugar melhor ou pior, mas discuti-lo de maneira consciente, crítica e cientificamente embasada pode nos dar as ferramentas para entendermos por que somos o que somos hoje. E, quem sabe, guiar nossos passos para um futuro em que possamos evitar repetir os mesmos erros de sempre. Compreender é o primeiro passo para poder escolher em qual direção é possível seguir em frente.


Conheça mais sobre a obra

Tags:  nemo,  quadrinhos lgbt,  infância,  graphic novel,  hq,  aprender com a criança,  História do Brasil


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